Paris, Texas: um retrato da passagem do tempo e seu peso

Em 2021, tenho pensado muito sobre a passagem do tempo. Em março, completou-se um ano desde o início da pandemia no Brasil. Isso me faz pensar sobre o tempo e suas consequências. Penso sobre o antes, em forma de lembranças, que são quase como pílulas diárias, e sobre o depois, em forma de anseios, questionamentos e preocupações. As incertezas sobre o depois são cruéis. Mas, na pandemia, não tem como a gente esquecer do agora, por ser um momento muito doloroso e inédito. É uma realidade da qual não podemos escapar, por mais que tentemos.

Mais do que nunca, temos plena consciência da passagem do tempo e do peso que ela traz consigo. Para quem ainda tinha dúvidas de que a pandemia era algo severo, o aniversário de um ano escancara a gravidade do problema — e quem ainda não a leva a sério são aqueles que preferem fechar os olhos perante a realidade. A cada dia que passa a situação piora. Mesmo assim, a vida continua. Às vezes, eu gostaria de poder suspendê-la. Gostaria de poder congelar minha vida e parar no tempo por alguns anos, até que tudo voltasse à “normalidade”, mas isso não é possível, e nunca será. Nada voltará a ser como antes.

Paris, Texas é um filme que apresenta essa questão: a inexorabilidade do tempo e suas consequências. Muito se discute sobre a temática desse road movie, que aborda profundamente muitas questões, como identidade, solidão e dramas familiares. A cada vez que o assisto, o longa me instiga novas reflexões. Em 2021, percebi como o tempo é um aspecto importante na obra. Após ferir pessoas que amava, o protagonista do filme fez o que muitos de nós gostaríamos de fazer agora: passou quatro anos de sua vida afastado da civilização, longe de tudo e de todos, inclusive de seus problemas. Contudo, como é sabido, a vida continuou; ela nunca para. O longa trata sobre o peso do retorno da personagem, de sua reconciliação com a família e consigo mesmo.

Dirigido por Wim Wenders, o filme franco-alemão de 1984 tem Harry Dean Stanton no papel principal. Travis Henderson (Stanton) é encontrado em um deserto no Texas por seu irmão, Walt (Dean Stockwell), que o acolhe e faz questão de levá-lo para reencontrar a família, em Los Angeles. No trajeto, Walt tenta descobrir o que aconteceu com o irmão durante o período em que desapareceu, deixando filho e esposa. No entanto, Travis fala muito pouco. Na verdade, no longa, pouco importa o que aconteceu com o protagonista nesses quatro anos, mas, sim, o que viria a acontecer após o seu retorno e as consequências disso.

O fato de o personagem ter dificuldade para se comunicar demonstra como ele estava desconectado das pessoas e até mesmo de si próprio após um longo período em isolamento social. Não é diferente de como nós sentimos um certo estranhamento ao encontrar alguém pessoalmente durante a pandemia, especialmente quem vive só. A primeira coisa que Travis consegue dizer ao irmão talvez seja a sua fala mais significativa e simbólica ao longo do filme: ele diz “Paris”, referindo-se à cidade estadunidense no Texas, e não à capital francesa, deixando Walt confuso. Depois, o protagonista revela que os pais deles haviam se conhecido no local, e que ele desejava ir até lá.

No fim das contas, essa questão não aparece tanto assim ao longo da obra, mas nos faz perceber como Travis tinha vontade de se reconectar com a família e sentir-se pertencente a um lugar. Ele sentia que não fazia mais parte da sua, tanto pelas mágoas do passado como pelo tempo que passou afastado. Essa sensação de vazio é muito bem representada na estética da produção. Durante o filme, boa parte das paisagens são desérticas e difíceis de identificar, todos os lugares parecem iguais. Até mesmo a Califórnia, região com paisagens tão características, é representada de forma peculiar. Há poucos planos abertos e não há muitas pessoas nas cenas que se passam em Los Angeles. Sob as lentes de Robby Müller, diretor de fotografia do filme, a cidade parece decadente e desabitada.

Ao chegar em LA, o protagonista encontra Anne (Aurore Clément), sua cunhada, e Hunter (Hunter Carson), o filho, que passou a ser criado pelos tios após a separação do casal — Travis e Jane (Nastassja Kinski). Então, ele passa alguns dias vivendo com a família e reconstruindo o vínculo com seu filho, que tem apenas sete anos, até que decide, junto de Hunter, ir para Houston em busca de Jane, onde ela vive. A representação da cidade destoa das demais paisagens apresentadas no filme. Houston é representada como uma metrópole muito mais viva e movimentada, mais alegre do que as demais regiões às quais somos levados durante o road movie.

Sem dúvidas, isso se deve ao fato de ser o local onde ocorre o reencontro da família. Ainda existe, claramente, muito amor envolvido entre Jane, Travis e Hunter. O filme demonstra isso antes mesmo de haver o reencontro, especialmente na emblemática cena em que a família assiste a vídeos de Super 8 na casa de Anne e Walt. Registradas antes dos conflitos familiares, as filmagens mostram eles vivendo momentos felizes, sem suspeitar de que aconteceria algo para separá-los. Travis se emociona com as imagens e, ao perceber os sentimentos do pai, Hunter também fica emocionado. A sensibilidade do filme se deve também ao roteiro de Sam Shepard.

Embora exista todo este afeto entre os três, a passagem do tempo deixa suas marcas, inevitavelmente, e as coisas não terminam tão bem assim — a família segue sendo imperfeita, como todas as famílias, ainda mais levando-se em consideração os conflitos que ocorreram e o peso do tempo que se esvaiu. O filme retrata de forma impecável esse aspecto da vida: a inabalável passagem do tempo e como as coisas nunca voltam a ser como eram antes, por mais que o amor permaneça, porque as pessoas e suas vidas mudam a todo momento.




Texto: Sofia Lungui
Imagem de destaque: Tati Ferrari

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