Manhandled: quando Gloria Swanson despiu-se de seu glamour

Nos anos 1920, o cinema começava a dar seus primeiros passos em direção ao star system ("sistema de estrelas", em tradução livre). O mundo do cinema, naquela época, era de Gloria Swanson, uma das atrizes mais influentes do período. Conhecida pelo filme Crepúsculo dos Deuses, ela era muito diferente da Norma Desmond que interpretou na obra de Billy Wilder. Foi a primeira mulher a ser dona da própria produtora, a primeira "mãe" de Hollywood, para elencar alguns pontos.

Gloria, como tantas outras mulheres daqueles roaring 20s, era sinônimo de glamour. No entanto, ela se despiu dele para rodar Manhandled, filme de 1924, dirigido por Allan Dwan. Nele, Swanson é uma vendedora que sonha em ter mais atenção do namorado e uma vida melhor. Uma comédia divertida, mas também a síntese da essência dos filmes de Dwan.

Tessie McGuire (Gloria Swanson) é a nossa heroína. Vendedora de uma loja de artigos para a família, logo na primeira cena percebemos o quanto ela é explorada. Ela sai do trabalho e começa a longa jornada em direção à casa. Tessie é esmagada na catraca da estação de metrô. Ao entrar no metrô, dois homens a esmagam. Poderia ser uma grande capital em 2020, mas é 1924.

Essa primeira sequência é um trabalho de comédia incrível, diga-se de passagem. Allan Dwan, em entrevista para Peter Bogdanovich, conta que Gloria Swanson não sabia andar de metrô, muito menos vender produtos. Para que a interpretação dela ficasse coerente, Dwan a enfiou dentro de um vagão de metrô. Ela andou nele dez vezes! O diretor também colocou a glamourosa atriz para trabalhar no balcão de uma loja. Ela se deu muito mal, acabou sendo demitida. No entanto, isso foi fundamental para o triunfo da sequência, especialmente porque Tessie é tão atrapalhada quanto Swanson. Acredito que ela seja um dos pontos altos do filme.

A vendedora namora Jimmy (Tom Moore), um mecânico que está criando uma nova invenção. Ele sonha em patenteá-la para enriquecer e tirar os dois da miséria. É bastante interessante ver o cotidiano da classe trabalhadora de 1924. Em muitos aspectos, ele se parece com o que vivemos atualmente. Em Manhandled, é tudo loucura e correria. É preciso trabalhar e vender muito.

Pôster de Manhandled, de 1924
É claro que a vida que o casal leva não agrada a Tessie. Em uma cena bastante interessante, ela e Jimmy estão conversando. Tessie quer sair e se divertir, já que vive se matando de tanto trabalhar na loja. Porém, o namorado não pode levá-la, e ele explica isso enquanto ela fica olhando pela janela. Da janela, Tessie enxerga um casal com filhos, levando uma vida completamente comum. Ela se enoja daquilo, pois é óbvio que sonha com uma vida bem mais agitada, cheia de glamour.

As confusões do filme começam a partir do momento em que Jimmy acaba se recusando novamente a levar Tessie para sair. Irritada, a moça acaba aceitando sair com o filho de seu patrão e mais um homem, junto com outra funcionária da loja. E aí, começam as incursões de Tessie pelo mundo dos ricos.

Quando a protagonista se insere na alta sociedade, é o momento em que Gloria Swanson deita e rola. É incrível o tino que ela tinha para comédias. Em uma festa, ela começa a fazer uma série de imitações que acabam fazendo com que ela perca o vestido. Swanson já havia imitado Charles Chaplin em Crepúsculo dos Deuses, e em Manhandled ela também aparece imitando o Carlitos, embora isso não apareça na cópia em que assisti. Foi uma das formas que ela e Allan Dwan encontraram de criar situações engraçadas para a protagonista.

Como Tessie fracassa em entreter os ricos, ela decide tentar ganhar mais fingindo ser uma condessa russa em uma loja. É uma sequência bastante engraçada do filme, porque, em um determinado momento, uma cliente, também russa, aparece e começa a falar com a personagem nesse idioma. Tessie começa a chorar, e o gerente aparece dizendo que a condessa não pode ouvir falar na Rússia que começa a chorar. Mais uma sequência interessante para entendermos como funcionava o humor daquela época, ainda bastante atrelado à comédia de costumes.

Allan Dwan trabalhou várias vezes com Swanson (Quando o espetáculo termina e Zaza são alguns exemplos), e nesses filmes podemos perceber como o diretor gostava muito do tema da troca de identidade. Desde seu primeiro filme, A Western Dream, mudar de identidade e sonhar com outro mundo já estava presente. Talvez por isso mesmo ele tenha usado a comédia de costumes para expressar essa temática. Em Quando o espetáculo termina, por exemplo, Gloria Swanson vira uma espécie de Sarah Bernhardt.


Em sua autobiografia, Swanson on Swanson, Gloria conta que foi o vice-presidente da Paramount, Sidney Kent, que teve a ideia para o título do filme. Dentre os diversos aspectos censurados pelo Código Hays, que regia a censura nas produções cinematográficas, estava a coação e tratar rudemente uma pessoa (manhandle, em inglês) na tela. Para incomodar o escritório de censura, ele propôs esse nome para o filme. Já Frank Tuttle, roteirista de Manhandled, apareceu com uma história do jornal Saturday Evening Post, na qual uma vendedora abandona o namorado inventor para se juntar ao mundo dos ricos. A estrutura do filme estava formada.

O final de Manhandled pode parecer um pouco frustrante, mas esse é um filme indispensável se você quer conhecer a carreira de Gloria Swanson para além de Crepúsculo dos Deuses. É uma experiência interessante assistir a atriz tomando alguns empurrões no metrô, especialmente depois de seus filmes cheios de glamour ao lado de Cecil B. DeMille. Além disso, filmes mudos são peças interessantes para pensarmos em como o humor tinha de funcionar sem o som. 



Texto: Jessica Bandeira 
Imagem de destaque: Mia Sodré 

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