A consciência de classe em The Outsiders: Vidas Sem Rumo


The Outsiders: Vidas Sem Rumo, foi escrito por S. E. Hinton quando esta tinha apenas 15 anos, logo após um evento que alterou sua percepção de mundo: oriunda de uma família pobre, precisou ser remanejada de sala quando suas notas na escola melhoraram, sendo encaminhada para uma com alunos destaques, em sua maioria, de classe média alta. Ali, conheceu não só as diferenças financeiras que os separavam, como também os ideais, quando um de seus amigos, um greaser, foi violentado por um de seus colegas de classe que se identificava como soc. O triste evento a motivou a escrever todo o enredo de The Outsiders, dando vida aos personagens não só do seu primeiro livro, publicado em 1967, aos seus 19 anos, mas também a um novo clássico da literatura, hoje leitura obrigatória do sistema educacional norte-americano e que segue sendo um dos preferidos dos alunos desde então. 

Ponyboy Curtis, o protagonista, tem apenas 14 anos mas já sabe muito bem quão dura a realidade pode ser. O caçula dos irmãos Curtis — sendo Sodapop o do meio, e Darrel, o mais velho —, sente muita falta de seus falecidos pais e da época em que Darrel não era tão duro com ele, já que desde que se tornou o responsável pela casa e pelos outros dois irmãos, abandonando a possível promissória carreira no futebol americano e que o renderia uma vaga na universidade com bolsa, o mais velho passou a cobrar dele mudanças em suas atitudes para que Ponyboy tivesse um futuro melhor. Além disso, muito o incomoda a forma como seus irmãos e seus amigos são vistos no bairro onde moram, sempre sendo encarados de maneiras desconfiadas pelos vizinhos e apontados como bandidos. Para os garotos, ser um greaser, subcultura muito popular nas décadas de 1950 a 1960 nos Estados Unidos, forte entre os jovens baixa-renda e trabalhadores, com estilo rockabilly predominante, e cujo nome faz referência aos cabelos compridos e com brilhantina, tinha muito mais a ver com ser aceito e construir uma identidade do que, como imaginado e propagado por muitos, ser uma gangue perigosa. 

Por um lado, o garoto que ama ir ao cinema e sempre vai bem na escola, até entende os motivos que os fazem famosos pela razão errada. Os socs, grupo de jovens muito semelhantes aos greasers para aqueles que não entendem sobre os movimentos, mas cujas condições socioeconômicas são melhores que as dos garotos do outro lado da cidade, sendo eles parte da classe média alta, com boas roupas, bons carros, e dinheiro dos pais para gastar, aderiram ao estilo apenas para causar destruições e roubos pelos pontos em que ficam sem levarem a real culpa dos atos. E apesar de não ser uma regra geral do grupo, Ponyboy sabe que alguns dos greasers já se envolveram com pequenos delitos e estiveram presos. 

De acordo com o sociólogo francês Émile Durkheim, a consciência é formulada pela imposição coercitiva das formas de ser, pensar e agir. Ou seja, quando há a imposição de um ideal, é natural que os indivíduos a ele expostos tornem-se aquilo que aprenderam e vivenciaram. 
"Com efeito, é independente das condições particulares em que os indivíduos estão colocados; eles passam, ela permanece." (Émile Durkheim em Da Divisão do Trabalho Social)
 
Já para os sociólogos alemães Karl Marx e Friedrich Engels, na obra A Sagrada Família, a consciência, quando voltada para a classe a que o individuo pertence, e em vínculo ao que disse Durkheim, imposta de maneira coercitiva, o leva a compreender as diferenças sociais e suas consequências, dando, a partir de então, esclarecimento para que a população busque melhorias em suas próprias condições, não aceitando mais as imposições do sistema socioeconômico. 

Desde o primeiro capítulo, Ponyboy parece ser o integrante dos greasers com maior consciência de classe, mesmo sem perceber. Quando lemos seus pensamentos sobre sua vida, a de seus irmãos, seus amigos, e suas análises sobre os acontecimentos de The Outsiders, percebemos que é sempre dele a iniciativa de questionar se realmente, não há como suas vidas serem melhores, e se ele e seus amigos estão fadados a um futuro pobre como todos fazem parecer. 

Enquanto isso, seu irmão Darrel Curtis, o guardião de seus irmãos mais novos e responsável pelo sustento da casa sem responsáveis legais, após precisar abandonar os estudos e seguir em trabalhos manuais de construção civil representa muito bem o trabalhador que ainda não possui tal consciência. Para ele, não existem meios de recuperar aquilo que perdeu com o falecimento de seus pais: suas oportunidades de estabilidade financeira e de estudos. 

A ruptura desse padrão surge, é claro, a partir de Ponyboy, mas depende de um evento que foge de controle, quando em um acidente, um soc é assassinado por um greaser em legítima defesa. Precisando ficar foragido com um de deus amigos, Ponyboy vê-se vítima dos pré-julgamentos impostos sobre seu grupo, que caso fossem para julgamento, teriam poucas chances de serem inocentados mesmo que o episódio só tenha se dado pelo ataque de um dos integrantes dos socs. No entanto, uma ocorrência em meio a esse período em que os dois garotos precisam se esconder até que a procura da polícia diminua, o tornam um bem-feitor, e as vidas dos greasers envolvidos podem enfim, ter um rumo diferente. 

"Quando você é criança tudo é novo, uma aurora. É só quando você se acostuma com as coisas que o dia chega. Igual a você, que curte ver o pôr do sol, Pony. Isso é ser dourado. Permaneça assim, que é um jeito bom de ser."


Referências

  • DURKHEIM, E. Da divisão do trabalho social. WMF Martins Fontes, São Paulo, 2010.
  • ENGELS, F. A sagrada família. Trad. Marcelo Bakes. São Paulo: Boitempo, 2003.



Imagem de destaque e texto: Tati Ferrari

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