O Conto da Aia: o quão distantes estamos de Gilead?


Em seu artigo intitulado "Teoria Crítica e Literatura: A Distopia Como Ferramenta de Análise Radical da Modernidade", Leomir Cardoso Hilário, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, classifica o gênero literário em questão, como aquele que "[...] emerge como dispositivo de análise radical da sociedade, cujo objetivo é analisar os efeitos de barbárie que se manifestam em determinado tecido social". Usufruindo de tal característica literária e analisando atitudes radicais em diferentes países, em 1985, a autora canadense Margaret Atwood, publicou sua distopia O Conto da Aia, partindo da hipótese da ocorrência de um golpe político com resultados totalitários sendo aplicado nos Estados Unidos da América, e suas consequências para a população não participante das classes favorecidas pelo evento.

Na obra, o grupo religioso conservador Filhos de Jacó surge durante a democracia estadunidense, usufruindo da liberdade de expressão para, a partir da fé cristã, ampliar e difundir suas ideologias. Em um país sofrendo com os resultados das destruições cometidas pelos seres humanos ao longo das eras, entre elas, a diminuição das taxas de fertilidade, causada principalmente pela poluição ambiental no contexto imaginado por Margaret, o discurso propagado pelos extremistas religiosos se torna poderoso o suficiente para ameaçar a liberdade da população, culpando os nãos cristãos pelo acontecimento e disseminando a ideia de que deus os está castigando e que existem, entre eles, merecedores e não merecedores de misericórdia. Os Filhos de Jacó, é importante frisar, são todos homens com famílias já estabelecidas, carreiras promissoras e grande nível de poder e influência na sociedade, possuindo perfis muito semelhantes aos já conhecidos por nós na vida real.  

A partir do momento em que o regime totalitário e teocrático é estabelecido, mesmo com a fuga de muitos cidadãos para o Canadá, os que são impedidos de ir embora pelo próprio sistema de segurança controlado pelos Filhos de Jacó e estabelecido desde o primeiro minuto após o golpe passam a ser treinados, principalmente por meio de tortura, para servir a Gilead. Porém, a maioria das mulheres possuem as "características que as tornam pecadoras"  filhos fora do casamento, relações homoafetivas, carreira fora de casa enquanto mães, não levarem a família e principalmente, os filhos à igreja, entre muitos outras deturpações bíblicas — e se constadas como férteis, dado o momento de queda na taxa de natalidade, são forçadas pelo sistema a tornarem-se as chamadas Aias, enviadas para casas de homens do alto escalão de Gilead e que, a partir de uma série de estupros, em uma espécie de ritual baseado nas escrituras sagradas, com a presença da Esposa no local, devem gerar crianças e logo após os meses de gestação, ser enviadas para outra casa a fim de recomeçar o processo. Como se a violência sexual não fosse o suficiente, tais mulheres perdem o nome próprio, sendo chamadas de "Of + nome do homem a que pertence" (como por exemplo, a narradora do livro, Offred, algo como, em tradução livre, "de Fred", o homem a quem pertence), perdem completamente as relações com seus familiares, são impedidas de ler e escrever, são fisicamente violentadas pelos maridos e por suas esposas, e se cometem atos contrários ao que prega Gilead, mandadas para sessões de tortura, como o apedrejamento em praça pública, a área de refugiados com campos de resíduos nucleares que os matam em pouco tempo, ou, no pior dos casos, para o muro, local onde hereges são enforcados e ficam expostos como exemplo de má conduta para todos os outros.  

Apesar de o principal foco da obra estar nas Aias, não são elas as únicas mulheres a perderem seus direitos. Mesmo as Esposas dos Comandantes precisam vestir-se com roupas de uma mesma cor, que cubram seus corpos o máximo possível, e não podem ler ou escrever, ato que para os Comandantes, não foi proibido, tendo eles, inclusive, bibliotecas próprias dentro de suas casas. As Esposas são, inclusive, motivo de vergonha se suas Aias não engravidam, como se fossem as culpadas por isso — apesar de, em diversos momentos do livro, ficar subentendido que a infertilidade que assolou o país está mais atrelada aos homens que as mulheres. No entanto, sabemos bem como para o papel masculino é inconcebível aceitar tal característica e é muito mais fácil culpar uma minoria por uma responsabilidade própria. Além delas, as Tias, mulheres mais velhas que trabalham nos centros que a partir de procedimentos violentos, treinam as Aias para se calarem e aceitarem as ordens de Gilead, não possuem nenhuma regalia dentro do sistema. As Marthas, mulheres que são as empregadas domésticas, também foram afastadas de suas famílias e não possuem qualquer liberdade apesar de não serem tão violentadas quanto as Aias. 

Cena da série de TV The Handmaid's Tale, do streaming Hulu

Se em muitas distopias o gênero caminha ao lado da ficção cientifica, Atwood deixou-o mais próximo do horror em O Conto da Aia, e isso se dá devido à completa retirada dos direitos das mulheres, mesmo daquelas que permaneceram no lado "favorecido" da república totalitária de Gilead, e aos horrores das violências sexual, psicológica e física que são cometidos contra elas em nome de ordens governamentais baseadas no extremismo religioso, tanto no livro, quanto em sua adaptação para TV, pelo serviço de streaming Hulu, The Handmaid's Tale. Mas mais assustador que isso, é quando notamos o quão presente a República de Gilead está no nosso dia-a-dia. 

"Todos eles tiraram direitos das mulheres. Não importa como as ditaduras se autodenominam: todas elas o fazem. A mulher é algo a ser resolvido."
Margaret Atwood, em entrevista para a BBC News Mundo e o Jornal ABC.

As evidências do quão presente Gilead se faz no cotidiano moderno são muitas, e ocorrem em diferentes locais do globo. Em Singapura e na Índia, por exemplo, os estupros cometidos em O Conto da Aia também não seriam considerados crimes se realizados dentro do matrimônio, pois acredita-se que a mulher deve estar ao dispor do marido quando este assim desejar, desconsiderando completamente a violência do ato. Assim como ocorre na série de TV, a mutilação genital feminina ocorre em alguns países do continente Africano. E um exemplo recente, que parece não ter tido o destaque necessário tamanho seu absurdo, muito provavelmente por conta da população a que atinge, encarados, principalmente pelo país em questão, como invisíveis e indesejáveis, é o da situação dos imigrantes nos Estados Unidos da América. 

A enfermeira Daw Wooten, ex-trabalhadora de um dos centros que abrigam imigrantes na Georgia, fez diversas denúncias do destrato a que são submetidos cidadãos estrangeiros não legalizados. Além do completo descuido com a contaminação da Covid-19 em um local repleto de pessoas, Daw chamou atenção para as absurdas cirurgias, sem consentimento prévio, de esterilização a que estavam sendo sujeitas mulheres dentro desses centros. Em seu relato, a enfermeira contou que conversando com as mulheres que sofreram a violência médica, havia o entendimento da retirada de seus úteros e no que isso implicaria para elas, no entanto, em uma situação já de extremas condições inumanas, a cirurgia não parecia ser perfeitamente assimilada por elas. 

O papel de potência mundial norte americano poderia dar a sensação de estranheza àqueles que leem O Conto da Aia por não conseguirem visualizar um futuro em que um país poderoso torna-se refém de um golpe, mas o caso ocorrido em 2020 com os imigrantes demonstra que apesar da dita democracia, governos possuem interesses que podem muito bem tornarem-se totalitários a fim de defendê-los, e que as mulheres, como minorias, assim como em Gilead, estão sim entre os primeiros grupos a ter seus direitos mais básicos negados. As diferentes posições de poder, além de ocupadas em grande maioria por homens, retratam muito bem o que Atwood quis mostrar quando reflete a respeito de até onde vai a propriedade das mulheres sobre o próprio corpo. 

Em um exemplo ainda mais próximo, temos o caso dos extremistas religiosos brasileiros que há alguns meses, invadiram um hospital onde uma criança vítima de abuso sexual seria submetida ao procedimento de aborto, protegido, no caso de estupros, por lei, a fim de impedir o processo até mesmo com ameaças aos funcionários que o realizariam, em nome de um contexto bíblico que para eles, encarado como pecado, parece os dar permissão de invalidarem o também bíblico livre arbítrio, sentindo-se donos de uma verdade que precisa ser forçada a outros independente da retirada de direitos básicos a que possa estar aliada. A constante evangelização, sobretudo nos países americanos, parece ter levado a população local a um ponto onde não temos mais como controlar e separar o que é laico do que é religioso. Parecemos estar, cada dia mais, fadados a Gilead. 



Referências

Comentários

  1. Eu ainda não li o livro, só assisti a série e em todos os episódios eu fico "gzuis, isso é muito real, está acontecendo atualmente e em vários locais". É assustador.

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