Suspiria, a mulher-monstruosa e as Três Mães, de Thomas de Quincey


Embora não tão amado quanto o primeiro, Suspiria, de 2018, possui uma narrativa intrincada baseada na mitologia das Três Mães, um texto breve, porém profundo, criado por um escritor do século XIX sob os efeitos do uso do ópio. E, enquanto o primeiro mostra uma qualidade mais próxima à incerteza gerada pela substância, onde é quase impossível determinar o que é realidade e o que é alucinação, o segundo sustenta-se nos meandros das descrições das Mães, focando-se em ser mais uma releitura do texto original do que um remake do filme de 1977. 

A história onírica de Dario Argento cria alicerces na realidade com Luca Guadagnino no filme de 2018. O que ambos têm em comum? O horror e a beleza. E só. O filme de Guadagnino mal poderia ser chamado de remake, por ser uma obra de arte à parte com a espinha dorsal firmada nas influências de Argento. É lindo, porém de forma seca, nada como a obra de 1977. Esqueça todas as luzes, as cores e os contrastes e entre em um mundo onde bruxas são reais. Em meados dos anos 1970, Argento criou sua obra-prima, Suspiria. O filme angariou fãs por todos os lugares, que ficaram fascinados não somente com a estética onírica e de luzes fortes como também com o enredo, envolvendo bruxaria, assassinatos e uma escola de dança para mulheres. Mas, apesar de ser uma obra de arte por si só, sem a necessidade de um remake, Guadagnino achou por bem revisitar a história da academia de dança dirigida por bruxas, criando algo novo no lugar, com camadas mais sombrias e um horror mais explícito. 

O enredo básico continua o mesmo: Susie Bannion (Dakota Johnson) chega a Berlim, em 1977, para estudar na Helena Markos Dance Academy. Lá, ela se depara com mulheres duras, firmes e um ambiente estranho, repleto de silêncios, olhares fortuitos e coisas inexplicáveis. Com o passar dos dias, Susie vai sendo arrastada para o centro da teia de feitiços das professoras da academia e descobre estar em meio a um coven de bruxas que acreditam que Helena Markos (Tilda Swinton) é a encarnação da Mãe Suspiriorum, uma espécie de entidade cultuada na academia. O fio narrativo é incrivelmente simples, tanto que uma breve sinopse já dá conta de toda a história de Suspiria. Contudo, o filme nunca foi apenas uma história simples, perfeitamente compreensível ao primeiro olhar. A complexidade de Suspiria se dá na construção psicológica de suas personagens e na mitologia envolvendo as Três Mães.

Em 1845, Thomas de Quincey publicou uma coletânea de ensaios intitulada Suspiria de Profundis (que, traduzido do latim, significa “suspiros das profundezas”). O livro, todo em tons de delírio, provoca no leitor imagens fantasmagóricas e reflexivas sobre os medos e perdas da experiência humana. Um dos ensaios, e o que nos interessa para compreender a mitologia por trás das Três Mães, se chama Levana and Our Ladies of Sorrow, onde Thomas imaginou três companheiras para a deusa romana Levana: Mater Lachrymarum, a Nossa Senhora das Lágrimas, Mater Suspiriorum, a Nossa Senhora dos Suspiros, e Mater Tenabrarum, a Nossa Senhora da Escuridão. As três irmãs representam as lamentações humanas, agindo de formas diferentes, mas sempre em acordo, cada qual com sua personalidade distinta. Foi a partir da leitura desse ensaio que Argento obteve a inspiração tanto para Suspiria quanto para seus outros dois filmes que completam a trilogia das Mães: Inferno (1980) e La Terza Madre (2007).

Embora a obra de Guadagnino não se proponha a ser uma cópia de Argento e não haja indicações que remetam a uma nova trilogia das Mães, o mito da Mater Suspiriorum permeia fortemente a versão de 2018 e é fundamental entender um pouco mais sobre a criação de Thomas de Quincey para compreender os aspectos sutis do filme. No seguinte trecho do ensaio, podemos ter a descrição básica da Suspiriorum, a ponto de entender a versão de Guadagnino [tradução livre]:

“Seus olhos, se fossem vistos, não seriam doces nem sutis; nenhum homem poderia ler sua história. […] Dela é a mansidão que pertence ao desesperado. Sussurrar ela pode, mas é para si mesma, no crepúsculo. Murmurar ela murmura de tempos em tempos, mas somente em lugares solitários que são tão desolados como ela o é, em cidades arruinadas, quando o sol desceu para seu descanso.”

A Mãe Suspiriorum é uma entidade mais antiga do que o cristianismo, uma espécie de deusa dos suspiros dos aflitos, que compreende e rege as aflições humanas. A imagem da trindade sempre esteve presente em diversos mitos e cultos ao longo da história e em diversas culturas e, apesar de haver muitos mitos com os quais é possível fazer uma ligação com as Três Mães, é a Hécate que elas me remetem. Hécate é a mais famosa deusa tríplice grega, uma deusa sombria ligada diretamente à bruxaria. Cultuada até os dias atuais, ela apresenta uma face tríplice: a donzela, a mãe e a anciã. Apesar de viver no mundo inferior, pode transitar livremente pela Terra e se manifesta especialmente nas tristezas da humanidade, se apresentando com uma face diferente dependendo da pessoa a quem se mostra. A associação com a deusa Hécate não se dá apenas pela representação de trindade, mas também pelo fato de que nenhuma de suas faces é boa ou má. Elas podem dar a vida ou tomá-la, mas não correspondem à moralidade humana. Suas faces são complexas. Apesar de haver um medo maior em relação à anciã do que às outras duas faces, todas elas fazem parte do ciclo da vida, de pulsão de vida e pulsão de morte. Assim como a verdadeira Suspiriorum no filme, não há como dizer que ela é uma entidade maligna: ela toma a vida e ela também consola; ela é terna e também cruel. O filme de 2018 explora isso de forma mais aprofundada do que o original, e são incríveis os paralelos que podemos fazer entre a mitologia da Mãe Suspiriorum e os cultos pagãos que se baseiam na trindade feminina, sempre representada com um forte contraste entre seu lado maternal e seu lado monstruoso.

Exemplar de Suspiria de Profundis e retrato de Thomas de Quincey

A mulher-monstro tem sido peça chave de filmes de terror há algumas décadas. O feminino, tradicionalmente associado à pureza, maternidade e cuidado é subvertido com a construção de personagens que vão contra os clichês de como ser mulher e se revelam monstros capazes de atos cruéis. Enquanto o homem monstruoso é representado muitas vezes como sedutor e refinado (vide o exemplo clássico dos vampiros góticos), à mulher é destinado o papel do grotesco, do perturbador. Tal narrativa não existe à toa: a construção social de papéis de gênero ensina que a violência masculina é natural e esperada, inclusive pode ser prova de virilidade e vista como qualidade. A feminina, não. Uma mulher violenta vai contra tudo o que foi ensinado durante séculos, parecendo uma aberração. Ainda mais: a violência praticada por mulheres em narrativas de terror nem precisa ser de cunho físico; basta uma mulher não se comportar da forma esperada pelo acordo social que o medo e a repulsa já são despertos no coração dos homens. Negar a maternidade, falar palavrões, explorar sua sexualidade e não obedecer ordens são motivos suficientes para que as mulheres sejam consideradas monstros em histórias de terror.

“O feminino monstruoso é um dos constructos mais recorrentes nas narrativas de horror. Percebidas como animalescas uma vez tocadas pelo mal, as mulheres-monstro habitam um território limítrofe entre humanidade e animalidade. O horror gerado pela fêmea monstruosa tende a expor o atordoamento vivenciado pela mulher quando confrontada com mudanças importantes em suas vidas — e em seus corpos também.”  Marcia Heloisa Amarante Gonçalves, em A Face Reconhecível do Medo.

Susie não parece um monstro. Ela, com seu tom de voz baixo, olhares fortuitos e um figurino todo trabalhado em cortes perceptivelmente femininos e em tons claros, cumpre bem seu papel inicial de vítima inocente, donzela a ser salva das bruxas más — aquelas mulheres com vestidos escuros dramáticos e que gargalham estrondosamente na academia de dança. A princípio somos levados a pensar em Susie como a clássica donzela em perigo, mas logo isso muda e a mudança está em uma conversa muito relevante, apesar de passar quase despercebida, no filme, entre ela e Madame Blanc (também interpretada pela Tilda Swinton). Na conversa, Blanc lhe pergunta como ela se sentiu dançando no ensaio o papel da protagonista da dança Volk, uma peça importante da academia, ao que Susie, com seu jeito calmo e falsamente submisso, diz:

“— Foi como… o que acho que você deve sentir fodendo.
— Você quer dizer foder um homem?
— Não. Eu… eu estava pensando em um animal.”

Esse é o primeiro indício palpável que temos de que há algo estranho em Susie Bannion. A figura do animal em filmes de terror não é nova, e, apesar de não haver uma representação animalesca em Suspiria, há esse diálogo. Susie responder que dançar Volk foi como foder um animal é algo profundamente perturbador e revelador, pois esse não é um pensamento ordinário, tampouco algo que se espera de uma donzela indefesa lutando uma batalha por sua vida em meio a um coven de bruxas perversas.

A gradual transformação da figura de Susie em monstro é algo particularmente lindo. Ao contrário do filme original, em que vemos uma Susie assustada pelas coisas terríveis que aconteciam na academia de dança, a Susie de 2018 não se abala, permanecendo impassível aos estranhos acontecimentos à sua volta. Essa impassibilidade pode parecer, num primeiro momento, um tom de idiotice da personagem, que não se dá conta do perigo que corre naquele lugar. Entretanto, conforme o filme vai se desenrolando, Susie nos é apresentada de forma muito mais complexa do que sua antecessora: ela, uma pobre menina de Ohio, criada numa família extremamente religiosa, alimenta o sonho de um dia ir a Berlim, circulando o local no mapa quando ainda criança, mesmo contra as ordens de sua mãe, que insiste para que sua educação seja baseada na geografia dos Estados Unidos. Os flashbacks que remontam às origens de Susie em Ohio são fundamentais para entendermos a construção de Susie e da Mãe Suspiriorum e tirarmos nossas conclusões sobre quem é aquela menina estranha e incrivelmente talentosa que surgiu do nada na academia de dança.

É comum em filmes com personagens femininas centrais, especialmente no terror, que a figura da mãe seja a culpada, direta ou indiretamente, pela transformação da menina em monstro. Assim é em O Exorcista, quando o demônio possessor do corpo de Regan (Linda Blair) diz claramente que a causa daquilo é a ausência da mãe, que se concentra demais em sua carreira para cuidar da filha; assim também o é em Carrie, onde somos apresentados a uma mãe extremamente religiosa e controladora que, com sua pressão psicológica e ataques físicos à filha, ajuda a desencadear sua telecinese destruidora.

Logo nas primeiras cenas de Suspiria, conhecemos a mãe de Susie (Malgosia Bela) e, apesar de ela não parecer uma personagem importante na história, sendo apresentada apenas como forma de contextualizar a personalidade da filha, a câmera foca num quadro pendurado na casa onde se pode ler, escrito a bordado: “A mãe é uma mulher que pode tomar o lugar de todos, mas cujo lugar ninguém pode tomar”. Essa frase é essencial para compreendermos o cerne da história de Susie.

Em Suspiria, também há a figura da mãe, mostrada como uma mulher frágil e doente. Criada numa comunidade religiosa no interior dos Estados Unidos da década de 1960, podemos ver em algumas cenas a mãe de Susie desde cedo não como uma repressora convicta, mas como alguém com medo do próprio ser que colocou no mundo e que se apega fervorosamente à religião para proteger a si mesma — e à filha, de uma forma puramente emocional — do mal que enxerga. Tal mal não é apresentado no filme na persona de Susie, já que o cerne da bruxaria e maldade parece se concentrar nas mãos das dirigentes da academia de dança. Susie, entretanto, sempre despertou o olhar cauteloso de sua mãe por transgredir a conduta padrão de uma boa filha. Isso é demonstrado duas vezes: na primeira, logo de cara, quando ela chega à academia em Berlim e fala de onde veio com desconforto, claramente indicando que saiu de casa sem a aprovação de sua família; na segunda quando, em uma breve cena, vemos Susie criança, se recusando a estudar da forma como lhe havia sido designado e mantendo seu interesse em um mapa da Alemanha. A reação de sua mãe na cena parece indicar que não era a primeira vez que aquilo acontecia e que alguma conversa estranha acerca do que há de tão interessante na Alemanha para uma criança criada em casa, naquele contexto superprotetor, havia acontecido entre a família. Num primeiro olhar, esses momentos podem não significar muita coisa, mas, conforme o filme destrincha suas camadas, vemos com clareza a real natureza de Susie, e podemos compreender que aquilo não se manifestou por consequência das dirigentes da academia com seus jogos de magia e manipulação, mas que ocorreu porque ela, desde criança, estava determinada a ir até lá e assumir seu papel como Mãe Suspiriorum. Sua mãe, então, passa de primariamente culpada pelo destino da filha a apenas mais uma peça no tabuleiro dos elementos místicos que cercam a vida de Susie. A sugestão inicial de que a mãe é a culpada pela filha “amaldiçoada” é imediatamente posta de lado, pois tal narrativa, apesar de tradicional, não pode ser aplicada aqui. Em primeiro lugar, porque Susie não é um monstro, mas uma entidade neutra; em segundo, porque, ao contrário do que acontece com Regan e com Carrie, não há um arco de redenção ou morte para a mãe, apenas o esvaziamento da palavra "mãe" e a libertação da “falsa mãe”, cujo útero apenas deu à luz a um duplo: Susanna e Suspiriorum. A mãe de Susie nunca foi sua mãe de verdade, apenas uma hospedeira da entidade Suspiriorum. Portanto, a relação clássica entre a mulher-monstro e sua mãe foi quebrada.

A ideia de estabelecer Susie como a Mãe Suspiriorum foi genial, quebrando todo o arco narrativo dos filmes de Argento, com suas lindas mulheres morrendo nas mãos de bruxas e demônios. Como já foi pontuado em uma crítica do filme: “Argento uma vez disse: ‘Eu gosto de mulheres, especialmente as bonitas. Se elas tiverem um corpo e um rosto bonitos, eu iria preferir muito mais que elas fossem mortas do que uma garota feia ou um homem.Guadagnino não fez suas personagens para serem garotas bonitas morrendo. Se você olhar bem para as professoras de dança e as dançarinas, elas não estão ali para serem percebidas por serem bonitas. Talvez com exceção de Dakota Johnson, no papel de Susie, mas até isso pode ser pensado como tendo um objetivo: Susie é, afinal, uma das mães. Mesmo Suspiriorum sendo a mais velha, ela ainda é uma das mães”. As personagens, majoritariamente femininas, não são construídas para serem bonitas ou serem mais uma mulher bonita morrendo num filme de terror.

Há uma cena mais intimista em que Blanc está ensinando a Susie técnicas de dança, quando diz: “Existem duas coisas que a dança não pode ser mais: bonita e alegre. Hoje nós precisamos quebrar o nariz de cada coisa bonita”. A dança feita pelas mulheres da academia não é para ser sensual, bonita ou alegre — estereótipos femininos —, mas para representar sentimentos de morte e renascimento. É uma dança ritualística, que poderia estar em qualquer coreografia de bruxaria tradicional em rodas pagãs durante Sabbaths. Não há nada de estereotipadamente feminino em Suspiria.

É interessante também pontuar que há outra narrativa clássica desconstruída na trama: o Dr. Klemperer, psicólogo, que investiga as denúncias de Patricia (Chloë Grace Moretz) acerca da bruxaria praticada na academia de dança, poderia, no terror tradicional, representar o padre exorcista ou, no romance, o herói que salva a donzela em perigo. Mesmo com sua idade avançada, ele acredita que pode intervir de alguma forma contra um coven de mulheres supostamente praticantes de bruxaria. A inversão de papéis tradicionais se dá quando é ele o salvo: Susie, agora revelada como Mãe Suspiriorum, encerra o ritual vil para o qual o levaram e depois lhe tranquiliza, em uma cena delicada e nada monstruosa, apesar da origem não-humana daquela mulher. O homem, grande salvador, é levado a reconhecer que foi salvo por aquela a quem deveria salvar e que a monstruosidade está em todo lugar (incluindo especialmente os nazistas que levaram sua esposa para um campo de concentração e a assassinaram), não no feminino transgressor.

Também vale dizer que o único homem com destaque no filme é, na verdade, uma mulher: Tilda Swinton faz a vez do Dr. Klemperer. O elenco, majoritariamente feminino, conta apenas com um homem: o policial designado a investigar o caso, que é apenas um fantoche nas mãos das bruxas, servindo de piada e diversão para elas enquanto brincam com seu corpo desnudo e com a frágil noção de autoridade que ele representa. Na versão de Guadagnino, são as mulheres que mandam.

O terror clássico parte da premissa de estabelecer contrários: o certo e o errado, o santo e o pecaminoso, o humano e o monstro. Nessa linha de pensamento, o errado deveria ser punido — e, muitas vezes, o errado foi uma mulher apenas lidando com coisas além de suas forças. Entretanto, para haver tais distinções, é necessário estabelecer diferenças entre certo e errado, e esse é um dos motivos por que que o cinema de terror é político: quase sempre há uma posição bem definida, especialmente com relação a gênero e etnia. Susie subverte essa tradição por não ser vilã nem heroína: ela apenas existe. Se no início do filme ela é apresentada como a mocinha ingênua a ser salva do covil de bruxas, no final ela é uma força da natureza, implacável em suas ações, mas que não inflige mal aos humanos apenas por prazer.

O terror sempre serviu como uma forma de expressão dos medos, preocupações e ansiedades de uma época. Como disse Gabriela Larocca em seu artigo My god, she’s a boy! Puberdade, sexualidade e gênero no audiovisual de horror: uma análise do filme Sleepaway Camp (1983): “Enquanto os monstros e assassinos são definitivamente fictícios, as implicações das histórias narradas por eles podem nos oferecer percepções acerca do mundo em que vivemos. De tal maneira, estas imagens assustadoras não apenas perturbam sua audiência, como também expõem nas telas ansiedades, fissuras e conflitos sociais muito mais abrangentes e complexos”. Apesar de termos o ápice disso atualmente na figura de Jordan Peele, com seus filmes de um terror real e político, a sutileza do corpo feminino trabalhado na atmosfera do horror em Suspiria também fala de nossa época. Mesmo a história se passando em 1977, a dança como fio condutor da jornada de Susie sugere o horror do controle do corpo feminino, que precisa se dobrar, se esgueirar, sentir dor para alcançar um estado máximo de glória. Como é mostrado no filme, outras alunas foram submetidas aos testes físicos e ritualísticos pelos quais Susie passa e acabaram com os corpos desfigurados, retorcidos — por vezes até literalmente — numa dança eterna. Suspiria reflete o mundo atual mostrando a dominação do corpo e traindo a narrativa de que a mulher precisa dominá-lo completamente para ser reconhecida como um sucesso. A dança aqui pode ser vista também como uma forma de negar a autonomia perante o próprio corpo. Como Madame Blanc diz para Susie: “quando você dança a dança de outra pessoa, você se esvazia de si mesma”. Apesar de a fala possuir um sentido mais magístico do que político, como estamos falando de um filme de horror, não há como ignorar os paralelos com a realidade, em que seguimos o padrão de outros e, por vezes, nos esvaziamos de nós mesmas para sermos aceitas socialmente. As falhas na coreografia de Susie e suas discussões acerca de movimentos com Madame Blanc levam tal fio até sua derradeira libertação, quando seu corpo, outrora contido pelos limites impostos da dança alheia, se abre em expansão com seus próprios movimentos e sentimentos, agora não mais contidos por ninguém.

A ideia inicial das bruxas da academia de dança era usar o corpo de Susie como portador do espírito de Helena Markos, que está incrivelmente doente e deformada, a ponto de morrer a qualquer instante, mas o plano não dá certo. A possessão espiritual, que deveria ser feita de bom grado, é uma tentativa inútil que já havia sido feita com outras meninas da academia de dança antes de Susie. Entretanto, ela parece mais forte e tranquila do que as outras, intrigando as professoras e as fazendo se perguntar se não é essa a pessoa predestinada a ceder seu corpo para que o espírito de Markos (que, àquela altura, ainda acreditava ser a Mãe Suspiriorum) continue vivendo. No entanto, na metade do filme já temos indícios de que a possessão jamais dará certo porque Markos não é a Suspiriorum. Madame Blanc, a única das bruxas que parece agir mais de acordo com uma lógica cética do que com a fé cega das outras, pergunta para uma de suas colegas se, de fato, é certo fazer mais uma menina passar por aquilo, levantando a dúvida acerca de quem Markos afirma ser, já que, se ela realmente fosse a Mãe Suspiriorum, não faria sentido ter de ser salva da morte — Suspiriorum é uma deusa, não deveria precisar de humanos lhe fazendo favores ou emprestando seus corpos.

Na linda, sangrenta e sentimental cena em que a Mãe Suspiriorum se revela, dando sentença de morte a toda outra falsa mãe, podemos perceber onde Guadagnino queria chegar com sua reinterpretação do clássico setentista. Susie, agora como a encarnação da Mãe Suspiriorum, aniquilando o grotesco em Markos ao tirar-lhe a vida, transgride a narrativa clássica do terror feminino ao mostrar um monstro (no sentido de não-humano) como algo belo e delicado. A Mãe Suspiriorum, uma das forças da criação, aniquila a falsa mãe — que é tanto a mãe Markos quanto a própria mulher que lhe deu a luz —, tornando-se ela mesma a mãe de todos e assumindo seu verdadeiro lugar na trama de um mundo caótico, cujo reino da bruxaria era governado por uma usurpadora, um contraste perfeito entre o grosseiro e o sutil.

Durante a cena do ritual, quando Susie, como Mãe Suspiriorum, finalmente completa sua aniquilação dos partidários da falsa mãe, ela incita as mulheres restantes a continuarem dançando e diz, simplesmente: “isso é lindo”. A narrativa de Suspiria não é, de forma alguma, a tradicional, que se contenta em transformar a beleza em algo grotesco, mas bem o contrário. Sua finalidade é transformar o grotesco em beleza. Os suspiros regidos pela Mãe Suspiriorum bem podem ser de beleza e admiração, não de dor e sofrimento, como Markos impunha até então — o que dialoga perfeitamente com a visão das Três Mães criada por Thomas de Quincey

Não é à toa que a última cena do filme também é a única em que o sol aparece em Berlim. A estética, completamente baseada em tons frios e em um céu perpetuamente nublado e chuvoso, só passa a ser ensolarada quando a Mãe Suspiriorum finalmente se revela, assumindo seu lugar, matando a falsa mãe e suas seguidoras e acabando com o reinado de violência e assassinatos na Berlim ocidental setentista. A Mãe renasceu, seus filhos agora podem descansar em paz. Rogai por nós, Mãe Suspiriorum.




Texto e imagem em destaque: Mia Sodré 

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