A bissexualidade retratada em O Quarto de Giovanni


"[...] pois nada é mais insuportável, uma vez obtido, que a liberdade."

David é um jovem americano cujos sonhos o levaram à brilhante cidade de Paris da década de 1950. Crescido em uma família desfalcada pela perda da mãe, teve sua relação com o pai moldada pela ausência e pela constante sensação de insuficiência, sendo sua criação uma responsabilidade mais condizente com as ações de sua tia paterna. Apesar de o nome que consta no título do livro não ser o de David, O Quarto de Giovanni é, para além de um relato sobre a vida e a morte, um romance avassalador entre dois homens - sendo David noivo de uma mulher. 

Anterior ao momento presente da obra, David chegou a ter uma experiência homoafetiva quando adolescente, que durou apenas uma noite, e posteriormente, lhe tornou o principal crítico de si, levando-o a encarar o que sentiu como passageiro e sem relação com sua persona. Além disso, a ilegalidade das relações não-heterossexuais no contexto estadunidense da época eram um fator predominante para sua negação. 

Se a ida a Paris poderia ser um caminho rumo a sua completa liberdade, David o encontrou de forma inconsciente, pois, na verdade, fora seu modo de deixar para trás as relações familiares que não o satisfaziam. Na cidade europeia, ele assumiu um romance com Hella, e certo de sua paixão, a pediu em casamento - no entanto, para ela, o sentimento não parecia estar assim tão óbvio, já que o pedido torna-se o fator motor de sua viagem para a Espanha, desacompanhada, a fim de redescobrir-se e decidir se David é realmente o homem com quem quer passar sua vida. Se para Hella a saída de Paris é a busca de si, com toda a certeza, a personagem não esperava que a mesma cidade que a deixava com dúvidas, poderia por fim, sanar as incertezas tão antigas - e para ela, desconhecidas -, de seu companheiro. 

A forma como a sociedade encarava as relações humanas é o principal meio pelo qual David enxerga seus sentimentos. Quando se vê sem Hella, e, por problemas financeiros, sem um local para morar, a residência de Giovanni, um garçom que conhece ocasionalmente, torna-se sua nova morada. E, de uma maneira muito poética e bonita, James Baldwin faz do quarto do personagem que o recebe uma metáfora, sendo ele um refúgio do mundo e o único local onde ambos podem existir sem a necessidade de se vestirem como homens que não amam outros homens. O quarto é a maior representação de um local seguro, onde é inevitável ser quem se é. 

Se Giovanni traz o processo de aceitação da sexualidade de David à tona, ainda é custoso para o personagem aceitar que ela envolve o amor bissexual. David constantemente tenta encaixar-se ou como hétero, ou como homossexual, parecendo não conseguir ver como algo aceitável amar independentemente de gêneros. Nesse quesito, a retratação da bissexualidade estabelecida em O Quarto de Giovanni é muito próxima daquilo que muitos bissexuais vivenciam: ser um, ser inteiro, mas não enxergar, logo de primeira, o quão claro o amor é, independentemente de a quem se destina. Para além do quarto, que o dia da visibilidade bissexual sempre sirva para que lembremos que podemos sim, amar a quem quisermos, em qualquer lugar do mundo. 

O amor arranca as máscaras sem as quais temíamos não poder viver e atrás das quais sabemos que somos incapazes de o fazer.

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