Dissabores de uma viajante do tempo e outras situações por Karolina Zebrowska


Existe uma aura mística em torno das regras de etiqueta e códigos sociais de outros séculos. Quando retratados em filmes, os séculos XVIII e XIX ganham reformulações muito distintas sobre as pessoas que viviam e interagiam nesses períodos históricos. Mas nos esquecemos que, em algum momento, as regras de etiqueta deviam falhar, a maquiagem e o rouge borrar, tornando-se evidente que existiam apenas pessoas por debaixo das vestes.

A polonesa Karolina Zebrowska, diretora, atriz e conhecida no youtube por suas recriações fiéis aos figurinos de época, traz vários estudos em forma de vídeo sobre essas alterações na imagem dos séculos passados no cinema e na tv. Mas, além dos vídeos com conteúdos informativos sobre história da moda, Karolina tem uma veia cômica impecável para colocar personagens vitorianas em situações inusitadas. Ela imagina pequenas histórias com mulheres de outras épocas em 2020, a deselegância à mostra, inesperada para as nossas expectativas de uma rigidez de outro século. Porque com certeza devia ter momentos em que ninguém estava de bom humor para receber mais um vizinho em sua casa e servir o chá.

Viajante do tempo em 2020

Tenho certeza de que não seriam só as pernas à mostra que chocariam uma viajante do tempo se ela caísse bem neste ano. Um cenário todo futurista, prédios metalizados, pessoas correndo à beira do lago com roupas justas. Não poder tocar na água, porque está suja. Não sei se esse seria um ano tão requisitado para viagens no tempo; às vezes, 1905 pode ser melhor, mais tranquilo.


Coisas que mulheres vitorianas também fazem

Paisagens exuberantes, música clássica ao fundo, mulheres andando delicadamente nos campos, belezas ditas naturais em um mundo particular tranquilo e sem alardes. Não. Karolina Zebrowska encena tudo aquilo que a gente também imagina que mulheres vitorianas faziam. Esquecer as chaves, não ter muita inspiração para frases grandiosas nas cartas, comentários sobre um filme novíssimo (mas não em streaming), a falta de vontade de ir em festas. E a impaciência com as visitas.  


Uma mulher do século XVIII não sendo uma "lady"

Seria no mínimo estranho ver uma mulher vestida com os trajes do século XVIII andando na rua, com óculos escuros espelhados e comendo salgadinho. Karolina recria a simples ida a um lojinha de conveniências, uma grocery shop, por uma mulher extremamente elegante de uma corte aristocrática. E faz a gente pensar: o que pessoas da corte do século XVIII achariam da Coca-Cola e do doritos?

Como seria uma pintura se tivesse as poses de um ensaio de moda?

Folhear revistas de moda pode ser uma experiência muito estranha se observarmos as poses nada espontâneas. O jeito que se deita numa rede, a modelo segurando a cintura, as mãos fazendo algum gesto incompreensível em torno do rosto. Muitas poses já conhecidas como aquelas adequadas para um ensaio fotográfico. Karolina as reproduz e elas se tornam cômicas em vestes de outra época, porque aí a gente vê como mudou e muito o jeito com que nos apresentamos nas fotos. 


Maneiras de se recusar homens inconvenientes

Em qualquer época há homens inconvenientes, insistindo quando mulheres deixaram claro que não estavam interessadas. O vídeo de Karolina poderia muito bem ser uma cena extraída de Orgulho e Preconceito, com Elizabeth Bennet recusando o pedido de casamento do Sr. Collins. O melhor do vídeo é o tom passivo-agressivo, com a cordialidade do século XIX misturado ao meme e ao formato dos vídeos que viralizaram pelo tiktok de pessoas tentando deixar bem claro, quase como uma apresentação de slides, de que não estão interessadas


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