As Brumas de Avalon: a inviabilização da voz feminina diante do cristianismo

Mists of Avalon, por Marc Simonetti 

As Brumas de Avalon é uma série de quatro livros, ou tomos, que recontam a ascensão do Rei Arthur pela visão das mulheres que a auxiliaram e como esta se deu. Publicada pela primeira vez em 1982, pela autora estadunidense Marion Zimmer Bradley, sua obra inicial, intitulada A Senhora da Magia, ambientada a partir de anos anteriores ao nascimento de Arthur, é focada em Viviane, Senhora do Lago e sacerdotisa da Ilha de Avalon, responsável por servir e representar a deusa em forma física e exercer suas vontades tanto para si, quanto para outros. Além dela, conhecemos as personagens Igraine, futura mãe de Arthur e irmã de Viviane, que desde a juventude buscou desatar seus laços com a Ilha a fim de casar-se e obter uma vida longe da magia; sua outra irmã, Morgause, e Morgana, filha de Igraine, narradora principal e que, nas lendas do Rei Arthur originais, é continuamente retratada como uma antagonista, mas, ao ter sua história refeita por Zimmer, gera um bom questionamento, capaz de se enquadrar tanto no contexto da Idade Média quanto nos dias atuais: por que as mulheres que fogem dos padrões cristãos automaticamente se tornam vilãs?

"Havia sido ensinada na infância que a dependência das artes mágicas era algo errado. Era permitido buscar uma centelha de luz na escuridão, e isso ela havia feito, mas a magia não deveria se tornar um apoio para a criança que aprende a andar, pois assim ela se tornaria incapaz de dar um simples passo sem a necessidade de uma orientação sobrenatural."

Se para as lendas arturianas a vitória estava atrelada ao patriarcado, que permitia aos cavaleiros guerrear e reinar, e ao cristianismo, a quem atribuíam sua proteção, para as mulheres de Avalon, tais estruturas, tão dependentes que tornavam-se impossíveis de não co-existir, significavam o fim do único mundo em que podiam exercer suas funções sem nenhuma sujeição a homens. Para os celtas, povo de origem das lendas, as mulheres deveriam ser inclusas em importantes papeis sociais e políticos dentro das tribos. Além disso, dentro da religião que frente ao cristianismo encarou-se como pagã, o ser divino supremo era tratado no feminino, como uma mãe que a todos criou - criando, inclusive, a outros deuses, principio contrário ao monoteísmo atribuído aos cristãos -, e, por isso, era das mulheres a função de realizar rituais religiosos e de cura, costume amplamente abraçado e utilizado como ponto de partida por Bradley em A Senhora da Magia, retratando, através da personagem Viviane, os planos e ações utilizados para preservar Avalon e sua cultura, mesmo com a ascensão do cristianismo e a consequente demonização das práticas mágicas da Ilha, sendo o principal deles, o nascimento de Arthur, em parentesco às mulheres de Avalon, e seu posterior reinado. 
“[…] é aquilo em que a humanidade acredita que modela o mundo, e toda a realidade.”
Arthur ser filho de uma das mulheres da Ilha daria, de acordo com as visões enviadas pela deusa à Viviane, fidelidade a Avalon durante seu reinado, impedindo que os cristãos destruíssem o local e sua cultura. Para isso, sua irmã Igraine, já casada com o duque Gorlois da Cornualha e mãe de Morgana, é utilizada pela deusa, unindo-se a Uther Pendragon, com quem conceberá Arthur. Por fim, com esse casamento, Morgana é enviada para Avalon, onde irá crescer e aprender sobre sua própria função futura como sacerdotisa. A personagem é, a partir desse ponto, tratada por Marion não como a meia-irmã má de Arthur, mas como futura sacerdotisa de Avalon, com o poder da Visão (que a permite saber o que ocorre com outros personagens) e protagonista de sua própria história, nada focada em fazer mal ao irmão com quem sequer cresceu, mas com ações que se voltam mais para a proteção dos seus e da Ilha Sagrada. 

No entanto, apesar de no contexto de As Brumas de Avalon nenhuma das mulheres ser demonizada pela própria autora, é continuamente pontuado ao longo do enredo a opinião que as pessoas de fora da Ilha possuem sobre elas, atribuindo-lhes adjetivos que as minimizam fisicamente e intelectualmente perante os ensinamentos bíblicos e morais que se enraízam nos arredores em consequência da derrocada do paganismo. 
"[...] o Padre Columba diz que isso é obra do Diabo. E mamãe afirma que eu devia ficar calada, e não falar disso com ninguém, nem mesmo com ela, porque tais coisas não são adequadas para uma corte cristã e que, se Uther souber, me mandará para um convento."
Desde os pontos levantados por Marion Zimmer Bradley em sua obra, aos que tornaram as mulheres antagonistas ou meros personagens sem presença marcante nas lendas arturianas originais, temos, ao longo da história humana, seja pela perseguição às chamadas bruxas realizada pela Igreja Católica ou pelas atuais influências religiosas no Estado, que determinam a legalidade do aborto, e nos bons costumes da sociedade, que rebaixam mulheres de acordo com uma escala inexistente de atos corretos ou incorretos, a inviabilização da voz feminina perante o patriarcado e as crenças cristãs.

Diante do contexto em que se apresenta As Brumas de Avalon, onde cavaleiros resgatam donzelas em apuros e são os únicos responsáveis pelo andamento e governo de seu povo, a Ilha é quase um local de refúgio feminino. Há de se torcer por uma Ilha de Avalon onde, assim como Morgana, consigamos unicamente ser quem somos.


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