Para amar com liberdade: 4 filmes com temática lésbica


Quando falamos em filmes antigos, existe a ideia de que eles eram muito conservadores e não refletiam pautas que hoje são tão discutidas, como o feminismo, o racismo, a LGBTQFobia, entre outros. O glamour da Era de Ouro parece apagar o fato de que houve filmes que questionaram, de alguma forma, o status quo

Existe um interesse em realizar a manutenção de uma imagem "limpa", ou seja, branca, heterossexual e dócil, dos filmes antigos. A imagem de uma Doris Day que canta, com seus cabelos louros e sua voz límpida, e se resigna à sua posição de dona de casa. Hollywood foi, sim, Doris Day, mas também houve espaço para embates. Diretores e diretoras desafiaram a censura em diversas épocas para contar histórias diferentes. Talvez elas não resistam ao tempo, tenham envelhecido mal, mas é anacrônico de nossa parte analisar o passado por meio das lentes do presente.

Quando falamos sobre a temática lésbica em filmes antigos, fica ainda mais evidente o motivo desse apagamento por parte do cinema. Durante muito tempo, o amor lésbico não ousava dizer seu nome. Personagens lésbicas eram quase sempre vilanizadas e tinham fins trágicos. Dessa forma, a mensagem era bastante clara: ser lésbica é um perigo, um atentado contra a vida. 

Representações negativas da lésbica, nos filmes antigos, povoam nosso imaginário. Quem não se lembra da Sra. Danvers, de Rebecca, a Mulher Inesquecível? Apaixonada pela falecida patroa, ela está sempre séria, despida de qualquer atributo agradável, uma imagem forjada para que torçamos pela personagem de Joan Fontaine. No rol da lésbica desagradável, também poderíamos citar Barbara Stanwyck como Jo em Pelos Bairros do Vício. Retratada como uma cafetina imoral, Jo é a pedra no sapato da história de amor do filme, já que é apaixonada pela protagonista. 

Dessa forma, tendemos a pensar que o cinema antigo só comportava más representações do amor entre mulheres. Não é verdade. Nesta lista de quatro filmes com temática lésbica, dois pertencem à era de ouro do cinema. Eles possuem uma representação bastante positiva da lesbianidade, e o "amor que não ousa dizer seu nome" é mostrado com todas as letras. Ambos são filmes que se passam em internatos para jovens, cenário bastante comum para mostrar o descobrimento do amor lésbico.

Já os outros dois títulos são recentes, um dos anos 90 e outro dos anos 2000. Percebo que algumas pessoas tendem a apagar a produção dessa época, como se apenas agora tivéssemos representação lésbica nas artes. Sempre tivemos, de Cassandra Rios a Dorothy Arzner, a diferença é que hoje existe um esforço maior para resgatar essas mulheres e suas histórias porque não aceitamos mais narrativas hegemônicas.

1. Senhoritas em Uniforme (1931), direção: Leontine Sagan


A República de Weimar, que compreende o período do fim da Primeira Guerra Mundial até a ascensão de Hitler nos anos 30, foi um época de florescimento no que diz respeito à luta pelos direitos dos homossexuais e das mulheres. Além disso, a arte também floresceu. É a época do dadaísmo, do expressionismo, da quebra de convenções sociais. A urbanização dos grandes centros urbanos também contribuiu para o anonimato dos LGBTQIs. É nesse momento que surge Diferente dos Outros, filme mudo de 1919, de Richard Oswald e com Conrad Veidt, um manifesto contra o Parágrafo 175, uma lei alemã que punia relações amorosas entre homens. Na época, ele causou rebuliço e foi proibido no ano seguinte e podia ser visto apenas por médicos e educadores.

De certa forma, Diferente dos Outros abriu caminho para Senhoritas em Uniforme. Lançado próximo ao fim da República de Weimar, em 1931, a história se passa em um colégio interno para mulheres, coordenado por Fräulein von Bernburg (Dorotea Wieck). Uma das alunas, Manuela (Hertha Thiele), apaixona-se pela professora. É bastante interessante o recurso de situar a descoberta do amor por outra mulher no colégio interno. O mundo que as alunas vivem, aquela realidade, é fechada a quatro paredes. Lá fora, situa-se o mundo patriarcal. É como se o amor lésbico pudesse surgir naquela utopia, em um lugar liderado por mulheres, onde existem apenas mulheres, e no qual obrigações como o matrimônio são coisa do futuro. Existe a mesma dinâmica em Olivia, segundo filme desta lista.

2. Olivia (1951), direção: Jacqueline Audry


Baseado no romance de Dorothy Bussy, Olivia foi dirigido por Jacqueline Audry e, recentemente, foi redescoberto através de uma restauração. Em muitos aspectos, ele segue a mesma tônica que Senhoritas em Uniforme: a ambientação e as dinâmicas das relações entre as personagens do filme. A diferença crucial é que, aqui, é muito mais direto. Em uma das cenas, professora e aluna quase se beijam na boca. 

Em 1951, Jacqueline Audry desafiou as convenções para contar a história de Olivia (Marie-Claire Olivia), uma jovem inglesa que vai estudar em um colégio interno. Sua mãe era amiga das professoras que conduziam o estabelecimento: Miss Julie (Edwige Feuillère) e Miss Cara (Simone Simon). Ao chegar no colégio, Olivia percebe que existe uma divisão: as "caristas", que preferem Miss Cara, e as "julistas", que preferem Miss Julie. Existe uma certa competição entre quem prefere quem entre as alunas.

O filme deixa bem claro o tempo inteiro que as duas professoras têm um caso. Essa relação é abalada quando Miss Julie começa a se interessar por Olivia. Além da atração física, também existe a questão da autoridade. Com Olivia, é Miss Julie quem está no comando da relação. Ela pode controlar a imagem que a jovem faz dela. Jacqueline Audry, por meio de recursos visuais, explora as relações de poder entre professoras e alunas. Um dos elementos usados é a escada. Miss Cara e Miss Julie são sempre filmadas de cima na escada, ao passo que as alunas estão embaixo, como se as endeusassem.

A descoberta do amor pela professora vem acompanhada de muito sofrimento. No entanto, não se trata de um sofrimento advindo da sociedade patriarcal, mas sim do fato de Olivia não saber se poderá ficar com Miss Julie, já que, em tese, ela se relaciona com outra mulher. Particularmente, me identifiquei muito com Olivia. É um de meus filmes preferidos com temática lésbica, especialmente por acertar tanto na abordagem das personagens. Interessar-se por mulheres, no contexto de Olivia, é perfeitamente normal. Não há qualquer julgamento moral sobre isso.

3) Nunca Fui Santa (1999), direção: Jamie Babbit


Também dirigido por uma mulher, Jamie Babbit, Nunca Fui Santa aborda de forma cômica a "cura da homossexualidade", uma mudança de paradigma, se considerarmos que os dois filmes anteriores tratam desse tema com uma dose bastante forte de sofrimento. 

Em inglês, o título é "But I'm a Cheerleader", e ele tem uma relação bem direta com o enredo do filme. Megan Bloomfield (Natasha Lyonne) é uma líder de torcida, com uma vida bastante pacata e normal, ou seja, cumprindo todas as expectativas da heteronormatividade. Um dia, ela começa a perceber que sente atração por suas colegas de torcida. Na cabeça dela, não há como ela ser lésbica, uma vez que ela é líder de torcida. Ser líder de torcida, como sabemos, carrega uma carga muito forte de feminilidade. Por se identificar com rosa e afins, Megan não acredita na própria lesbianidade.

Só essa questão das expectativas sobre o que é ser lésbica ou não já faz com que Nunca Fui Santa seja um dos meus filmes prediletos da vida. Durante os anos em que permaneci dentro do armário, eu não acreditava que poderia ser lésbica, pois a imagem que eu tinha de uma mulher que ama outra era a da lésbica masculina, a caminhoneira. Hoje sei o quanto minha leitura estava errada, e esse filme me ajudou a entender que não existe um jeito de ser lésbica. Caminhoneira ou não, o importante é ser você mesma.

Voltando ao filme, quando os pais de Megan descobrem que ela é lésbica, eles a mandam para um acampamento que promete a cura gay. Lá, ela conhecerá outras pessoas como ela e se apaixonará por Graham (Lea DuVall). A dinâmica do acampamento é muito engraçada, começando pelo fato de que o diretor é nada mais, nada menos interpretado por RuPaul. Ele tenta, a todo momento, enfiar a heteronormativade goela abaixo em quem foi mandado para o acampamento.

No maior estilo "meninos usam azul e meninas usam rosa", Nunca Fui Santa discute as expectativas de gênero. As garotas aprendem a limpar e cozinhar enquanto os garotos aprendem a ser viris. Tudo em uma caixinha pré-determinada daquilo que que é aceito pela sociedade. Dessa forma, o filme nos convida a refletir sobre o que é pré-determinado em questão de gênero e orientação sexual desde que nascemos.

4) Desejo Proibido (2000), direção: Anne Heche, Jane Anderson e Martha Coolidge


Minha primeira referência de filme lésbico na vida. Lembro claramente de assisti-lo escondido. Morria de medo que minha mãe me pegasse assistindo ao DVD. Como Nunca Fui Santa, ele me ajudou a entender o que eu sentia desde sempre. Guardo com carinho no coração, e acho que ele deveria ser mais conhecido.

O filme conta três histórias, vividas por mulheres diferentes, e todas são ambientadas na mesma casa. Dos anos 1960 até os anos 2000, questões de lesbinianidade atravessam a narrativa. É muito interessante a dinâmica do filme, pois nos ajuda a compreender o que cada geração de mulheres lésbicas passou, quais eram seus dilemas. Ele também conta com um elenco de primeira: Ellen Degeneres, Sharon Stone, Chloe Sevigny e Vanessa Redgrave.

A história começa em 1961 quando Edith Tree (Vanessa Redgrave) precisa lidar com a perda da companheira de uma vida, Abby Hedley (Marian Seldes). Depois da morte de Abby, a família da falecida aparece na casa para reivindicar o direito à propriedade. Como não era casada oficialmente com Abby, Edith se vê encurralada. De todas as histórias, essa é, com certeza, minha preferida. Abordar a homossexualidade na velhice é algo que sempre mexe bastante comigo, e algo sobre o qual não temos muita referência. É muito difícil ver Edith sofrendo pela morte da companheira e por não conseguir contar que elas tinham um relacionamento. Nos anos 1950, era muito difícil, especialmente pela lesbianidade ser altamente condenável. Vanessa Redgrave entrega uma atuação maravilhosa, e é impossível não se emocionar com ela.

Onze anos depois, em 1972, a história gira em torno de Linda (Michelle Williams), que mora com três jovens lésbicas. É bastante interessante, pois a trama mostra a dificuldade de o grupo feminista do qual as quatro fazem parte abordar assuntos relacionados à lesbianidade nas rodas de discussão da faculdade. É uma reflexão profunda de qual feminismo estamos falando, qual feminismo desejamos defender ou silenciar. Em seguida, Linda conhece Amy (Chloe Sevigny) em um bar no qual as mulheres vestem-se com roupas masculinas. Aqui, a discussão parte para a questão que apontei em Nunca Fui Santa: existe uma forma de ser lésbica? Por que a lésbica caminhoneira é tão desprezada? As amigas de Linda desprezam Amy por conta de sua performance de gênero, mas são as primeiras a querer que o grupo feminista reflita a questão da lesbianidade. Contradições.

Desejo Proibido foi um filme feito para a televisão, mais especificamente para o canal HBO. Em uma época em que Will and Grace sacudiria o mundo ao mostrar o primeiro beijo gay na tevê, é de dar muito orgulho perceber que nós estávamos sendo retratadas com respeito, a despeito de tantas representações negativas com as quais tivemos que lidar. 

Esses são apenas alguns dos filmes que mostram que, mais do que nunca, sempre estivemos presente na história. A visibilidade lésbica também passa por resgatar o passado.




Texto: Jessica Bandeira  
Imagem de destaque: Mia Sodré

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