Anna Kariênina e Holden Caulfield: os personagens que precisavam de uma rede de apoio


Anna Kariênina, protagonista do clássico romance homônimo de Tolstói, publicado pela primeira vez em 1877, é uma jovem adulta casada, com um filho pequeno, e que, apesar de possuir uma vida adaptada aos padrões da alta sociedade de seu tempo, encontra-se infeliz com sua existência, diariamente resumida a moldes ditados pelo marido, Alexei. Como escape de tal infelicidade, o encontro com o jovem Vronsky gera em Anna uma euforia apaixonada, que a distancia de sua vida anterior e, pouco a pouco, a envolve em inseguranças sobre seu futuro. Para a sociedade russa de 1870, uma mulher que preferiu buscar a própria felicidade em detrimento do casamento estável e, consequentemente, do próprio filho, impedido de ir embora com a mãe por Alexei, era motivo de vergonha e um exemplo para outras mulheres de como não agir, sendo sua presença em eventos sociais encarada como má educação, e quaisquer amizades mantidas com ela, dignas de exclusão por outros, assim como com a própria Anna. A falta de apoio e de ajuda mediante os cada vez mais constantes desejos e pensamentos depressivos da personagem, ao longo do desenvolvimento de seu devastador romance com Vronsky, torna o final da protagonista fatal, e assim como para Werther, de Goethe, a única resolução pensável. 

“Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira.”

Quase cem anos depois da publicação da obra russa de Tolstói, J. D. Salinger, em 1951, deu vida ao adolescente Holden Caulfield, em seu clássico O Apanhador no Campo de Centeio. Aos 16 anos, Holden prolonga ao máximo seu retorno para casa durante o recesso de Natal, após se envolver em problemas no colégio onde estuda e reside durante grande parte do ano, que levaram à sua expulsão. Sem saber como contar a novidade para seus pais e temendo as consequências, Caulfield passa o dia andando pela cidade, perdido em devaneios, questionando a si e ao seu redor. 

"Tenho uma depressão horrível. Me sinto muito sozinho, de verdade."

Se em Anna Kariênina o fim é trágico para a protagonista, em O Apanhador no Campo de Centeio o mesmo não se dá, mas, para o olhar mais atento durante sua leitura, são perceptíveis os traços depressivos do personagem, que além de estar enfrentando as mudanças trazidas pela adolescência com a saída da infância e a entrada na idade adulta, encontra-se em processo de luto pela perda do irmão. Não é por acaso que, em meio a sua andança de fugitivo, quando sentado em um bar e finalmente com companhia, Holden diz a frase transcrita acima. Assim como para aquele que se atenta aos seus sinais, Caufield sabe que não está no seu melhor momento, mas também sabe que não pode pedir ajuda para seus pais ou contar o que sente para alguém na esperança de que uma solução o seja dada. 

"Não contem nunca nada a ninguém. No momento em que alguém conta qualquer coisa, começa a perder todo mundo"

Do ponto de vista saudável e profissional, é claro que a ideia de não compartilhar suas emoções depressivas com outros, sejam eles profissionais capacitados ou pessoas próximas disponíveis a permanecerem em forma de apoio durante a busca pela ajuda, não é nada recomendada, e pode resultar, visto o exemplo de Anna, em um ato cujo retorno tem grandes chances de ser impossível, mas é exatamente esse o ponto em comum traçado entre as duas obras a que se refere este texto: a falta de uma rede de apoio aos que se encontram em sofrimento psicológico retratado na literatura e suas consequências.

Se, em algum momento do século XIX, Tolstói — que, assim como sua protagonista, teve, em vida, ideações suicidas —, alterasse o rumo de sua obra, deixando de retratar a sociedade russa da época exatamente como era, com suas etiquetas de bons costumes para permanência nos meios sociais, e permitisse a Anna o apoio, independentemente de onde ele viesse, as chances de o trem que passava pela estação ser apenas mais um dos muitos que o fizeram, e não o marco do local onde Anna "renasce" ao conhecer Vronsky, e, posteriormente, morre, seriam altas. A infelicidade, que já a consumia durante seu casamento com Alexei, tem nome, e sua cura não estava em nenhum relacionamento novo  — apesar de, claro, a relação com Vronsky ter dado a ela uma felicidade momentânea e tirado-a de uma situação fadada, cada dia mais, ao fracasso —, assim como também não se tratava de histeria ou de tristeza feminina passageira, como, por muitos anos, foram chamados os casos de mulheres deprimidas e estafadas. 

Da mesma forma, se Holden pudesse compartilhar seu luto pelo irmão falecido com seus familiares, e se pudesse ter todas as suas questões pessoais ouvidas e atendidas, todo o enredo de J. D. Salinger não caberia mais em seu próprio livro. A adolescência, por si só, tende a ser, para muitos, um momento solitário e de certa melancolia, mas isso não deve, de forma alguma, tornar os sentimentos depressivos comuns a época e, através disso, colocá-los em segundo plano como parte do momento de um suposto ritual de passagem entre a infância e a juventude. 

Se hoje temos um avanço no conhecimento acerca da saúde mental e de como tratá-la em qualquer fase da vida, tais acertos, é claro, são resultados de muitos erros cometidos anteriormente. Se tivessem sido escritos no século atual, talvez os destinos de Anna Kariênina e Holden Caulfield fossem os mesmos, afinal, as taxas de diagnóstico de depressão e outros transtornos, além das de suicídio, não foram erradicadas, apesar dos novos tratamentos disponíveis, porque tais condições envolvem muitos outros fatores que tornam cada situação vivida composta por suas próprias particularidades. No entanto, se há algo que pode ser aprendido com as duas obras e aplicado cada vez mais na vida real, é a importância e a diferença que uma rede de apoio pode ter e causar em uma narrativa de sofrimento, seja ela qual for. 

Se você precisa de ajuda ou conhece alguém próximo que não aparenta estar bem, o CVV (Centro de Valorização da Vida) possui dois canais de apoio anônimo, um pelo telefone 188, com atendimento disponível 24 horas, e outro pelo chat (ou e-mail), disponível no site www.cvv.org.br. A campanha do Setembro Amarelo também possui um site oficial, da mesma Organização, que disponibiliza materiais gratuitos de educação e conscientização sobre o tema: www.setembroamarelo.org.br. Caso prefira, procure pelo Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS), ou pela Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próximos da sua residência; uma equipe qualificada de profissionais da saúde estarão prontos para te auxiliar.



Texto: Tati Ferrari
Colagem de destaque: Mia Sodré
Ilustração de Holden Caulfield utilizada na colagem: Anna Rettberg

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