O Pecado Mora ao Lado: o adultério romantizado e a coceira de Marilyn por uma Hollywood menos sexista

“I don’t mind making jokes, but I don’t want to look like one” [Eu não me importo em contar piadas, mas não quero parecer uma]. A frase é de Marilyn Monroe. A atriz, que viveu somente até os 36 anos — quando tirou a própria vida, embora haja controvérsias sobre sua morte —, não se tornou uma piada propriamente dita, mas acabou sendo ridicularizada em diversos momentos da carreira. Até hoje, os papéis que interpretou e depoimentos que deu suscitam críticas e polêmica.

Ao longo de sua trajetória, Marilyn fez o papel da “loira burra” diversas vezes, sendo que se tornou símbolo sexual e foi consagrada por meio destes filmes — como Os Homens Preferem as Loiras (1953), Como Agarrar um Milionário (1953) e O Pecado Mora ao Lado (1955). Após o fim das gravações deste último longa, ainda em 1954, houve um rompimento na carreira dela. A atriz, frustrada pelo estereótipo que lhe foi atribuído (como ela mesma afirmou em entrevistas), fundou sua própria produtora de filmes, a Marilyn Monroe Productions. Foi um dos momentos mais transgressores da vida da artista e que marcou, também, o cinema norte-americano do século XX, tendo em vista que a empresa tinha metade dos cargos ocupados por mulheres, algo incomum na época.

“É interessante como as pessoas associam o cabelo loiro e um corpo em forma. Se você é assim, você é considerado absolutamente burro. Não sei por que isso acontece. Para mim, é um ponto de vista limitado. Não importa como a pessoa se parece, a cor do cabelo ou o corpo” (Tradução livre de um depoimento de Marilyn)


Originalmente intitulado The Seven Year Itch, o filme de Billy Wilder que precedeu a fundação da produtora trata da história de Richard Sherman (Tom Ewell), editor de livros que se vê tentado a trair a esposa quando ela e seu filho viajam nas férias de verão. A vizinha, que não tem nem mesmo um nome na trama — é chamada de A Garota —, é interpretada por Marilyn. No longa, além de representar a imagem da “loira burra”, a atriz é a figura da amante. Logo que ela e o protagonista se conhecem, entende-se que ele possui segundas intenções e ela, pelo contrário, apenas tenta ser educada e não percebe o que está acontecendo.

É preciso dizer de antemão que, apesar do tema do filme ser o adultério, os personagens não chegam às vias de fato — aparecem somente beijos modestos na tela. Na verdade, isso se deve ao fato do longa ter sido produzido à época do Código Hays, o código da censura do cinema estadunidense, que foi banido posteriormente, em 1968, quando foi adotada a classificação indicativa. O conjunto de regras impostas pela Associação de Produtores e Distribuidores de Filmes da América impedia, dentre outros decretos, que fossem exibidos adultérios nas produções.

Em contrapartida, na peça teatral homônima que originou a adaptação cinematográfica, Sherman e a vizinha fazem sexo. Além disso, Wilder declarou em entrevista, anos depois, que tentou de várias formas demonstrar que eles transariam no filme, mas não foi possível por conta da censura. Ou seja, o adultério aconteceu, mas não foi consumado por questões jurídicas, o que deixou o diretor frustrado, inclusive. O fato é que, na maior parte de O Pecado Mora ao Lado, todos os personagens incentivam a traição e agem como se fosse algo completamente normal — exceto o protagonista, que tenta ser diferente, o mocinho. Sherman é retratado como um homem que valoriza a família e os bons costumes mas que, inevitavelmente, se vê tomado pelo desejo.

O zelador do prédio, seu chefe e até mesmo um psiquiatra que ele decide consultar, todos consideram o comportamento de Sherman natural. O protagonista chega a ler em um livro que o problema se trata de uma patologia que afeta todos os homens quando atingem os sete anos de casamento. A Garota afirma, em certo momento, que prefere sair com homens casados do que solteiros, pois assim eles não irão pedir sua mão. Sherman, por outro lado, comporta-se de forma contraditória durante toda a trama, criticando outros homens casados e repetindo “não, eu não”, negando seus desejos para si próprio e agindo como se fosse vítima das mulheres jovens. Enquanto isso, ele faz o que deseja de verdade, que é aliviar a coceira dos sete anos.

Embora pareça engraçada por ser uma comédia de 1955, a dicotomia presente na obra ainda é muito presente nos dias de hoje e faz parte da cultura machista em que vivemos. Essa contradição da valorização da moral e dos bons costumes versus banalização do adultério é algo muito comum entre os homens, inclusive no Brasil, onde 50% deles já traíram, segundo a pesquisa Mosaico 2.0, de 2016. Entre as brasileiras, 30,2% assumiram a traição. Basta fazer uma rápida pesquisa no Google Imagens com a palavra-chave “adultério” ou “traição”. Os resultados mostram as mulheres na posição de vítima da relação, em grande parte. O que é mais importante para os homens, os valores morais e a família ou o adultério? Será a traição uma condição para que eles se encaixem na sociedade? Até os dias de hoje, é uma questão, e ainda existe grande contraste entre o número de mulheres e de homens que praticam o ato.


Para completar, no final do longa, após dias de provocações com a personagem de Marilyn, Sherman deixa a vizinha em seu apartamento e vai atrás da esposa para agradá-la, o que coloca ele na posição de bom marido novamente e nos deixa com a impressão de que ele fez a coisa certa quando o filme acaba. Na verdade, a sensação que fica para o espectador, além disso, é de que não tem nada de errado em trair. Afinal, Helen (Evelyn Keyes) não descobre nada sobre ele e a vizinha. Os outros personagens que descobriram não iriam contar à esposa, já que todos aprovaram o comportamento de Sherman. Assim, a obra acaba realizando certa romantização do adultério.

Por outro lado, um aspecto positivo da produção de Wilder é a reflexão sobre a autossabotagem que praticamos quando estamos em estado de negação. Todo o longa aborda a questão psicológica de Sherman, que protagoniza monólogos impressionantes. Em certo momento, ele começa a imaginar que Helen está traindo ele também, pois ela havia ido passear sem o filho junto, e ele usa isso como argumento para validar uma noite com a vizinha.

Em outro monólogo, ele tenta acreditar que Marilyn derrubou de propósito a planta que foi o motivo dos personagens terem se conhecido, na tentativa de culpar o destino pelos acontecimentos, e não a si próprio. Essas questões aproximam o filme do espectador, já que são atitudes que toda pessoa apresenta quando não quer assumir uma verdade que machuca — é algo intrínseco à humanidade. É possível, inclusive, ir mais longe e pensar que toda a história do protagonista com a vizinha se trata de fruto da imaginação de Sherman, já que em diversos momentos ele é tachado como louco ou imaginativo demais. Cabe a interpretação.

Marilyn, ao contrário do que alguns afirmam, não parece ter representado uma figura transgressora no filme. A atriz fez o papel não somente da amante, mas da amante que não serve para casar, que não deseja isso e não se importa em ficar com homens casados. Conveniente para o homem, no mínimo. Apesar disso, o longa serviu como estopim para o rompimento de Marilyn com estes papéis, além de ter feito com que ela e o ex-marido, Joe DiMaggio, que a agredia fisicamente, se separassem.

A cena icônica do vestido branco esvoaçante, que faz parte do filme, frustrou o jogador de beisebol e foi um dos motivos do casal ter se divorciado. No final, foi algo positivo na vida da artista, em meio à manipulação de uma Hollywood machista e sexista, a instabilidade emocional da qual ela sofria e uma chuva de homens que a viam como um objeto sexual. 

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