Crepúsculo dos Deuses: um clássico imortal completa 70 anos

Um carro dispara em plena Sunset Boulevard, em direção a um velho casarão dos anos 1920. Já é de manhã, mas aquele dia revelaria-se pouco normal: era a imprensa indo caçar mais umas das histórias que Hollywood ama. Um homem mais novo é amante de uma mulher mais velha que disparou contra seu peito, fazendo com que ele caísse dentro de uma piscina. Começa, assim, um dos maiores filmes da Old Hollywood, Crepúsculo dos Deuses, que hoje completa 70 anos.


Crepúsculo dos Deuses é um filme que guardo com muito carinho no meu coração. Quando me perguntam sobre ele, apresso-me em dizer: "É meu filme clássico favorito". Eu o assisti pela primeira vez aos 15 anos e fiquei apaixonada por absolutamente todo aquele universo mórbido e pela relação parasitária entre Joe Gillis (William Holden) e Norma Desmond (Gloria Swanson). De lá para cá, o reassisti diversas vezes e, em todas elas, descobri um novo elemento. Um clássico imortal.

O filme conta a história de Norma, uma atriz esquecida da era do cinema mudo, cujo caminho cruza-se com o de Joe, um fracassado roteirista. Quando eles se conhecem, ele está fugindo dos credores: está na miséria. Não consegue vender um único roteiro. Logo nos primeiros minutos de filme, Billy Wilder, o diretor, mostra Joe conversando com seu agente. Enquanto Joe é o próprio farrapo humano, o agente está jogando golfe com homens ricos. Assim, desde o começo, estabelece-se a mensagem do filme: Hollywood não é um lugar tão legal assim.

Depois de uma perseguição, Joe acaba indo parar em uma mansão ao estilo dos anos 1920. Ele reboca o carro, com pneu furado, na garagem daquele mausoléu abandonado. No entanto, por conta de um engano, Joe é chamado a entrar na casa pelo mordomo, Max (Erich Von Stroheim). Como sabemos o final do filme, não é nenhuma surpresa que aquela história  acabará mal. Nos resta saber como o roteirista acabou baleado dentro de uma piscina.

A partir do primeiro encontro entre Norma e Joe, estabelece-se uma relação parasitária. Joe mente à ex-atriz, dizendo que é um profissional caro e de sucesso, para conseguir reescrever os roteiros dela. Norma sonha em retornar ao cinema, estrelando os filmes que escreveu, por isso precisa de Joe. Já ele precisa desesperadamente de dinheiro, por isso precisa de Norma. Além disso, ela lhe oferece a possibilidade de morar em cima da garagem da casa. Um arranjo aparentemente perfeito, não fosse todo o resto. 

Crepúsculo dos Deuses é um filme de muitas camadas. A primeira, e mais evidente delas, é a forma como Hollywood é retratada. Norma e Joe são dois párias na cidade dos sonhos, mas por motivos diferentes. Ela envelheceu, logo não serve mais para ser atriz. Além disso, ela vem de outro momento do cinema, a era muda. Em 1951, época em que a história se passa, a ideia que se tinha era de que o cinema mudo havia envelhecido mal. A própria Norma Desmond, com seu jeito caricato e exagerado, é como uma extensão das personagens que havia interpretado. 

No diálogo mais famoso entre as duas personagens, Desmond diz que os filmes estão mortos e que não existem mais atores do quilate de Rudolph Valentino e Greta Garbo. É uma afirmação muito forte, mas que não deixa de ter um fundo de verdade: o cinema tornou-se uma fábrica de ídolos no final dos anos 1920. Na época de Norma, não havia o star system, o sistema que moldou tantos atores e atrizes. É como se, a partir da constatação de que o cinema era um negócio muito rentável, foi preciso forjar aquilo de que as plateias precisavam. É interessante a reflexão que Norma faz sobre o cinema nessa cena, pois ela ainda reverbera, especialmente em uma época em que somos tão moldáveis pelos streamings, exatamente como as plateias dos anos 1950 compravam Debbie Reynolds e Elizabeth Taylor. O que realmente sobrou do cinema hoje?

Já Joe representa o lado oposto da moeda: a pessoa que sonhava pelo passaporte para Hollywood, mas que nem chegou a conseguir pegar o avião. Talvez esse seja o retrato mais sombrio e verdadeiro de Hollywood até aquele momento. Os filmes sobre o show business, como A Roda da Fortuna e A Star Is Born, sempre mostraram as grandes oportunidades que esperavam aspirantes a atores em Hollywood, como se o estrelato fosse destinado a qualquer pessoa. Você, a girl next door, poderia ser a próxima estrela de um determinado estúdio. Inclusive, parte do star system sustentava-se nessa ideia.

Joe quebra qualquer expectativa meritocrática em Hollywood. Ele tenta demais, escreve muito, mas não consegue sucesso, já que não tem os famigerados contatos. Hoje, em 2020, percebo como muitas produções sobre a Old Hollywood ainda tentam distanciar-se do verdadeiro horror que era a terra dos sonhos. Um exemplo é a última série de Ryan Murphy, Hollywood. Quando os personagens alcançam a fama, é tudo fácil demais. A impressão que tenho é de que o glamour é sempre melhor do que pensar que tudo que vemos nos filmes e nas revistas daquela época era milimetricamente calculado. Quem quer falar sobre o suicídio de Marsha Hunt?

Outra questão bastante interessante abordada em Crepúsculo dos Deuses é a de gênero. Talvez aqui, pela primeira vez, tivemos uma amostra do que significava envelhecer em Hollywood sendo mulher. Para mim, a cena mais forte do filme não é a do assassinato de Joe, mas quando Norma decide se preparar para seu novo filme e submete-se a uma série de procedimentos estéticos. Sentimos um desconforto ao vê-la tentando emagrecer um grama e remover as marcas do tempo de seu rosto. Ao contrário de galãs, que envelheciam e faziam par com as mocinhas recém-chegadas ao estúdio, às mulheres não era dado esse direito. Foi por isso que muitas foram parar em filme de baixo orçamento, como A Dama Enjaulada.

Há uma tentativa no filme de retratar Norma como a vilã, mas não consigo enxergá-la dessa forma. Na verdade, ela é mais vítima do qualquer outra coisa. Ela cria uma série de ilusões sobre seu valor, pois não se percebe como algo além de uma estrela de cinema, criada para ser amada e agradar aos outros. Isso não redime, é claro, o lado controlador e possessivo dela em relação a Joe quando eles começam a ter um relacionamento amoroso. No entanto, o controle vem do fato de Norma saber que está envelhecendo, de que Joe está com ela apenas por conta de seu dinheiro e da posição que ela pode lhe oferecer.


Crepúsculo dos Deuses também é considerado um clássico do gênero noir, e é interessante pensar em como ele destoa da maioria dos filmes desse movimento. Para começar, temos uma mulher no centro do assassinato. Norma Desmond não é exatamente a femme fatale que conhecemos, pois suas motivações são diferentes. Ela não quer dinheiro, mas fama. Quer ser reconhecida, sentir o doce gosto do sucesso novamente em seus lábios. Ao contrário de muitas femme fatales desses filmes, Desmond tem voz ativa. Também não é objetificada sexualmente, aqui acontece o contrário: ela é ridicularizada o tempo inteiro. Para além dessa característica, a própria ambientação em Hollywood retira um pouco do aspecto de ficção do filme. Com tantos crimes no local, dos suicídios ao estupros, a sensação que temos é a de que Crepúsculo dos Deuses poderia ser a história de qualquer atriz mais velha que caiu no ostracismo.

Gosto muito das coincidências do filme. Gloria Swanson era uma atriz do cinema mudo e, na época em que ele foi rodado, ela já estava longe de Hollywood há muito tempo. Ela teve uma vida muito agitada. Antes de retornar aos filmes, ela já havia se casado quatro vezes, aberto uma empresa e se envolvido em política. Tão distante da própria Desmond. Erich Von Stroheim, o mordomo, foi ator e diretor do cinema mudo. Billy Wilder inseriu o mesmo pessoal que estava lá naquela época, o que deve ter dado um gostinho agridoce à interpretação. Inclusive, ele já havia dirigido a atriz em Queen Kelly, de 1932, financiado pelo amante de Swanson e pai dos Kennedy, Joseph.

O filme, na época, foi um fracasso. Os magnatas dos estúdios ficaram furiosos, é claro. Uma história bastante famosa é de que Louis B. Mayer, presidente da MGM, teria berrado com Billy Wilder na sala de projeção, xingando-o por ter feito um filme daqueles e dizendo que ele deveria ser expulso do país (Wilder era polonês). A resposta de Billy? Mandou o magnata ir para aquele lugar.

Algumas obras precisam de tempo para serem absorvidas, e esse era o caso de Crepúsculo dos Deuses. Os diálogos com uma obra de 70 anos continuam tão fortes que, em 2020, somos tão obcecados por atenção quanto Norma Desmond o era. Em um artigo do The Guardian, Tom Joudrey defende que o filme não é exatamente sobre envelhecer em Hollywood, mas sobre viver em uma sociedade do espetáculo. Quando as câmeras deixam Norma, ela precisa inventar uma fantasia para sustentar sua necessidade de ser vista. Hoje queremos, mais do que nunca, sermos vistos. Nas redes sociais, pelos nossos posicionamos, precisamos de visualizações. 

Na pandemia em que atualmente vivemos, a fama perdeu parte de seu aparato. Celebridades não podem mais viajar e ter aquela vida que nos oprime em nosso próprio feed do Instagram. A pergunta que surge é: para que elas servem? Como elas se sustentam? Celebridades, e nós também, vivem, muitas vezes, a partir da imagem que nós criamos a partir delas. Assim, de uma forma ou de outra, há uma Norma Desmond dentro de cada um de nós.

Crepúsculo dos Deuses merece ser visto e revisto muitas vezes. Irônico, tocante e emocionante, esses seriam alguns adjetivos para descrever a experiência de quase duas horas oferecida por Billy Wilder. Desde os figurinos de Edith Head até o roteiro de Wilder e Charles Brackett, é tudo muito bem pensado para nos oferecer a experiência mais profunda de todas: o contato com o que há de mais narcisista em cada um de nós.

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