Mayombe, de Pepetela


Em meio aos muitos jeitos de se realizar a aproximação do público com a literatura clássica no Brasil, as provas dos vestibulares estão entre os mais frequentes. A FUVEST, prova de seleção mais tradicional, para ingresso na Universidade de São Paulo, seleciona anualmente obras clássicas publicadas originalmente em língua portuguesa a fim de, a partir delas, explorar questões sociais e levar os estudantes a reflexões sobre o passado e o presente. 

Entre as obras requeridas, Mayombe, do autor angolano Pepetela, está prevista como leitura obrigatória por quatro anos seguidos, sendo impraticável não comentar sobre suas singularidades e sua relevância. 

"Aos guerrilheiros do Mayombe, que ousaram desafiar os deuses abrindo um caminho na floresta obscura, vou contar a história de Ogun, o Prometeu africano."

O autor 

Pepetela.

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos na certidão, Pepetela nas livrarias. O nome escolhido para marcar suas autorias vem da língua umbundo, falada em seu país de origem, Angola, e tem como significado Pestana, nome de combatente dado ao escritor quando estava na guerrilha. Iniciou o curso de Engenharia pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa e o interrompeu para fazer o que amava: História, na Faculdade de Letras de Lisboa. Mais tarde, morando na Argélia, obteve uma segunda graduação em Sociologia. 

Em 1997, foi agraciado com o prêmio Camões. Seu romance Mayombe foi escrito enquanto Pepetela foi guerrilheiro no Movimento Popular de Libertação da Angola (MPLA).

O Mayombe 


"O Mayombe tinha aceitado os golpes dos machados, que nele abriram uma clareira. Clareira invisível do alto, dos aviões que esquadrinhavam a mata, tentando localizar nela a presença dos guerrilheiros. [...] E os homens, vestidos de verde, tornaram-se verdes como as folhas e castanhos como os troncos colossais."

O livro tem sua existência baseada em um comunicado de guerra dado por Pepetela a uma rádio, que pensou ter muito mais para dizer sobre o que vivenciava na guerra e iniciou a escrita. Seu nome, Mayombe, vem do local de seu enredo, a floresta da província angolana de Cabinda, e acompanha o desenvolvimento de guerrilheiros da MPLA durante a luta de libertação nacional da colônia portuguesa, entre os anos de 1961 a 1975. 

Cada personagem possui sua própria narração, o que os torna vivos e donos de opiniões sobre o combate, a vida escassa na floresta, as ideologias por trás de suas lutas e suas vivências como pessoas além da guerra. Seus nomes de combate refletem características próprias, humanizando-os, como o líder de ações da base, chamado de Sem Medo, ou o professor, Teoria. No entanto, o mesmo não ocorre com a única personagem mulher, Ondina, que não possui voz na narrativa propositalmente, para que se destaque a desigualdade de gênero dentro de um movimento que prega por igualdades e melhorias. 

O romance tem cinco capítulos, sendo cada um deles intitulado: A Missão; A Base; Ondina; A Surucucu; A Amoreira e o Epílogo. No primeiro, os guerrilheiros saem vitoriosos de um combate contra os portugueses, e a cada narrador, temos uma descrição dada por eles mesmos de suas aparências e o que os motivou a participar do Movimento. 

"Nasci na Gabela, na terra do café. Da terra recebi a cor escura de café, vinda da mãe, misturada ao branco defunto do meu pai, comerciante português. Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não, para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. A culpa será minha se os homens exigem a pureza e recusam as combinações? Sou eu que devo tornar-me em sim ou em não? Ou são os homens que devem aceitar o talvez? Face a este problema capital, as pessoas dividem-se aos meus olhos em dois grupos: os maniqueístas e os outros. É bom esclarecer que raros são os outros, o Mundo é geralmente maniqueísta."

As personagens do Comissário Político e do Comandante possuem grande significância em sua relação. Iniciam-na com amizade, com laços próximos, mas desentendimentos gerados pela convivência os afastam até o momento final da obra, quando a passagem dos anos e a diferença de idade entre ambos os leva a perceber suas semelhanças e como são o passado e o futuro de si espelhados um no outro.

Apesar do ideal comum, os guerrilheiros possuem, além das diferentes personalidades e experiências, diferenças de tribos, o que muitas vezes torna os diálogos dentro da floresta acalorados e aflora as discussões necessárias para se entender o livro e suas intenções para com quem o lê, despertando-nos a refletir sobre o ciclo histórico em que continuamente vivemos. Afinal de contas, a colonização portuguesa, a língua falada e os problemas levantados não são assim tão destoantes da realidade do nosso país. A expulsão de uma personagem corrupta do Movimento, a ideia da própria utopia discutida, e os medos levantados pelos combatentes com relação a quem serão os futuros governantes e se a libertação haverá de ser afetiva tornam a formação política e o contexto reais, capacidade que, claro, apenas alguém que realmente esteve no Movimento seria capaz, como Pepetela o foi. 

É interessante apontar que, quando a escrita do livro se encerrou, a libertação da Angola ainda não havia sido efetiva. No entanto, Pepetela parece ter previsto o que se daria. 

"— Vocês ganham vinte escudos por dia, para abaterem as árvores a machado, marcharem, marcharem, carregarem pesos. O motorista ganha cinquenta escudos por dia, por trabalhar com a serra. Mas quantas árvores abate por dia a vossa equipa? Umas trinta. E quanto ganha o patrão por cada árvore? Um dinheirão. O que é que o patrão faz para ganhar esse dinheiro? Nada, nada. Mas é ele que ganha. E o machado com que vocês trabalham nem sequer é dele. É vosso, que o compram na cantina por setenta escudos. E a catana é dele? Não, vocês compram-na por cinquenta escudos. Quer dizer, nem os instrumentos com que vocês trabalham pertencem ao patrão. Vocês são obrigados a comprá-los, são descontados do vosso salário no fim do mês. As árvores são do patrão? Não. São vossas, são nossas, porque estão na terra angolana. Os machados e as catanas são do patrão? Não, são vossos. O suor do trabalho é do patrão? Não, é vosso, pois são vocês que trabalham. Então, como é que ele ganha muitos contos por dia e a vocês dá vinte escudos? Com que direito? Isso é exploração colonialista. O que trabalha está a arranjar riqueza para o estrangeiro, que não trabalha. O patrão tem a força do lado dele, tem o exército, a polícia, a administração. É com essa força que ele vos obriga a trabalhar, para ele enriquecer."

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