A fala é encontrar palavras para o inefável. Se as encontramos, racionalizamos a experiência mística, sentimental. Para tal, é preciso olhar com certo distanciamento para si mesmo e para o mundo, não se deixando tomar por completo por aquilo que não pode ser explicado de maneira racional. A racionalidade é o controle, é a necessidade de ordem, ordem esta que orgulha o sujeito da fala ao passo que transforma a experiência dos sentidos, tão íntima, em outro. Essa alteridade existe sob o olhar alheio, num mundo de representação, um palco no qual há de se ter justificativa para aquilo que acontece internamente – onde está a ação? Está no verbo.
O que é escrever? Escrever pode ser entendido como um ato de tradução. Embora vejamos a tradução como o processo de verter um texto de uma língua para a outra, também há linguagem no mundo feroz das emoções. Neste sentido, dar palavra àquilo que é sentimento é um processo tradutório difícil e muitas vezes ineficiente. Não fosse por isso, não encontraríamos nas palavras de outros aquelas tão perfeitas para dizerem aquilo que sempre experienciamos enquanto indivíduos dotados de sensibilidade, mas não necessariamente de palavra. O vocabulário é uma construção. Essa construção constante, iniciada na infância com a comunicação verbal, passa a ter um sentido mais formal, que precisa ser melhor construído de forma a ser entendido enquanto registro permanente — ou até onde pode ir a permanência de algo efêmero — para os olhos alheios. Dessa forma, a tradução do sentimento para a palavra falada, e desta para a escrita, é, por um lado, falha, mas por outro, ganha novos contornos. Escrever é traduzir — é também elaborar o pensamento e colocar lógica em experiências inefáveis. Como dizer aquilo que não tem toque?
Em A paixão segundo G.H., vemos uma narradora — que dá nome ao livro — tentando articular em palavras uma experiência da ordem metafísica dos sentimentos. Nas cerca de 170 páginas do livro, G.H. escreve uma carta em que tenta colocar ordem na experiência recente que mudou seu mundo. Tal espaço pessoal, até então tão monótono, pré-fabricado, agora se encontra transformado. Mas o ato em si da transformação foi coisa comum: uma barata num quarto. O que ele dimensiona, no entanto, vem de dentro e, por vir de dentro, é enorme, como todas as coisas que habitam as profundezas do ser.
A palavra, porém, diminui aquilo que é enorme, trazendo a uma dimensão verbal o que não podemos nomear. O reino dos sentidos deixa de ser o centro espasmódico para ser passível de interpretação. Suas verdades absolutas, quando colocadas em sílabas, saem do particular, do íntimo, para o mundo comum da linguagem. Nesse mundo, os eventos requerem explicações, pois o que aqui acontece acontece por uma causa. A tradução dos sentidos é agora palavra, e a palavra é agora explicação. E em sua explicação coesa de mulher artista, G.H. entra nos abismos do existir para explicar um instinto puro do eros: o de desfazer-se para refazer-se, o de agitar as águas, o de ser equiparada a tudo que é vivo para ela também ser parte do todo, não como uma humanidade soberana, mas como animal, criação, criatura.
“Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra – como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?”(Lispector, 2009, p. 9)
A experiência da desorganização do ser é profunda. E no dia seguinte, ao tentar conciliar a mulher que era com a criatura que foi no momento do confronto com a barata, G.H. busca por uma explicação. Como explicar que a barata era, ao mesmo tempo, artrópode e deus? É um pensamento constrangedor. E para aquilo que constrange a nossa racionalidade intelectualizada, é preciso explicação – e uma explicação bem argumentada, elaborada, que seja coesa o suficiente para que se possa entender o ponto de vista da alteridade. Todavia, eros é fronteira, como diz Anne Carson. Sendo fronteira, ele habita no espaço limítrofe entre uma coisa e outra e, dessa maneira, não pode ser explicado. Contudo, pode causar epifania. Ao caminharmos em não-lugares, iluminamos frestas antes inacessíveis. Eros nos transforma.
Eros é o deus grego da paixão e do amor. Quando olhamos para o título do livro de Clarice Lispector, pode nos parecer estranho que uma história sobre uma mulher comendo uma barata seja chamada de A paixão segundo G.H. Que paixão é essa? É certamente uma paixão transgressora. Sua narradora comeu uma barata — é isto a paixão? Onde se esconde o sentimento?
Não se esconde. Paixão também pode ser entendida como arrebatamento, e isso está presente no livro inteiro. Em grego, podemos entender o arrebatamento como entusiasmo em seu sentido original: ser tocado, possuído, por um deus. Devemos nos perguntar: G.H. é possuída por um deus? Ela certamente fala muito em Deus e, em certo momento, no momento fatídico do mastigar a barata, entra numa espécie de transe. Dessa maneira, sua paixão é o arrebatamento erótico do ser possuída por uma força maior do que a humana — e o livro é a tentativa de explicar essa força, essa epifania, essa revelação, esse eros.
No entanto, a linguagem escrita é limitada. Que palavra comporta a experiência erótica? G.H. se pergunta, enquanto revela-encobre a experiência ao seu interlocutor:
“O que me acontecia? Nunca saberei entender mas há de haver quem entenda. E é em mim que tenho de criar esse alguém que entenderá”(Lispector, 2009, p. 40)
Eros não quer ser comportado. Ele transborda. As tentativas de dizer o eros sempre terão seus intentos frustrados, pois é na liminaridade que ele se encontra. O eros em si não será dito, mas sim eternamente perseguido, pois o movimento perseguição-fuga faz parte do desejo erótico (Carson, 2022). A palavra que se procura não será totalmente encontrada – ela é sempre velada. Mas se encontrarão outras, e novos significados surgirão a partir disso. É o que faz G.H.: não encontrando razão na palavra escrita que comporte a experiência da paixão mística, ela precisa escrever um livro inteiro no qual encontra outra coisa – a necessidade de dizer. “Mas há alguma coisa que é preciso ser dita, é preciso ser dita. – Vou te dizer o que eu nunca te disse antes, talvez seja isso o que está faltando: ter dito” (Lispector, 2009, p. 105). G.H. encontra a palavra ao encontrar a barata. A palavra, criadora do mundo na mitologia bíblica, é aqui uma expressão de perseguição-fuga, do precisar e do escapar da necessidade, dos ímpetos que tememos em nós mesmos. A palavra, para G.H., é a tentativa da racionalidade da paixão, do descobrir uma nova dimensão em si mesma. Como é dito em Eros, o doce-amargo:
“O que existe de erótico na leitura (ou escrita) é o jogo da imaginação evocado no espaço entre você e seu objeto de conhecimento. Poetas e romancistas, assim como amantes, dão vida a esse espaço usando metáforas e subterfúgios. Os contornos do espaço são os contornos das coisas que você ama, cujas inconsistências fazem a mente entrar em movimento. E ali está Eros, um realista nervoso dentro desse território sentimental, que age por amor ao paradoxo, ou seja, guarda o objeto amado fora de vista em um mistério, em um ponto cego onde o objeto pode flutuar conhecido e desconhecido, real e possível, próximo e distante, desejado e atraindo você para perto”(Carson, 2022)
Assim, o jogo de perseguição-fuga do desejo erótico – que não necessariamente será sexual, mas que pode ser lido como pulsão de vida na teoria freudiana – nunca revela totalmente seu objeto, fazendo com que este permaneça na semi-obscuridade do espaço liminar. No entanto, algo é revelado – mas o é pelas beiradas, numa epifania que leva a narradora a outros lugares, assim como a seus leitores, algo que nunca é plenamente atingido pela palavra, mas que deve ser compreendido pela sensibilidade.
Referências
- CARSON, Anne. Eros, o doce-amargo. São Paulo: Bazar do Tempo, 2022. Tradução: Julia Raiz.
- LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H.. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
- NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos ídolos. São Paulo: Companhia de Bolso, 2017. Tradução: Paulo César de Souza.
- Fotografia da estátua de Eros por Miguel Hermoso Cuesta - CC BY-SA 4.0, Link

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