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Colonialismo europeu em A Tempestade, de William Shakespeare


Quando escreveu sua peça A tempestade, em 1611, William Shakespeare usou diferentes elementos que deram a essa comédia rumos para metáforas e interpretações distintas. Alguns leitores veem A tempestade como uma história sobre as duas faces do uso de magia, da exploração do homem com a natureza à sua volta, ou então uma história sobre vingança, armações e o perdão; e de certa forma, todas as visões estão corretas. Talvez esse seja o motivo de Shakespeare continuar um imortal da literatura, ainda tão popular para pessoas de diferentes idades, pois mesmo mostrando um pouco das características de uma Inglaterra de sua época, seus trabalhos continuaram retratando assuntos muito atuais.

No início da história, o leitor é apresentado a várias personagens que se envolverão na busca por vingança de Próspero, antigo Duque de Milão, exilado a doze anos por seu irmão, Antônio. Para conseguir atrair seus inimigos, o mago cria uma tempestade que fará com que o único destino possível seja naufragar na ilha onde ele mora com sua filha, Miranda. Nos anos em que passou vivendo na ilha, Próspero se envolveu ainda mais com seus livros e magia, se aprofundando nos domínios do seu poder como mago afim de, em algum momento, conseguir novamente o que lhe foi usurpado. A tempestade enviada pelo mago acaba fazendo com que a tripulação que estava junto de seu irmão – incluindo Alonso, rei de Nápoles, e os filhos de cada um – sofressem com as diversas armadilhas que os esperavam naquela ilha.

Apesar de desde o começo Próspero demonstrar ser a pessoa mais poderosa – em todos os sentidos – daquele local e, em consequência, agir como o dono, logo no ato I, cena II, descobre-se que, na verdade, a ilha encantada já era habitada antes do Duque chegar, mas agora os seus nativos viraram servos. Tanto Calibã (filho da bruxa Sycorax, primeira a morar na ilha) quanto o espírito Ariel já eram residentes quando Próspero chegou, e no primeiro momento, as personagens tiveram uma relação amistosa com o Duque, já que o nobre ensinou aos habitantes o que havia aprendido e em troca ia conhecendo cada vez mais a região onde iria morar. Porém com o passar do tempo, Próspero se torna um verdadeiro colonizador, usufruindo do material natural, implantando sua própria cultura europeia e usando os seus companheiros como servos.

“Sim, vocês me ensinaram a
Língua, e meu lucro Foi aprender a amaldiçoar. Que a peste rubra
Destrua os dois, por me ensinarem sua língua!”

Próspero, Miranda e Ariel (1780)

Desde pequenas as crianças são ensinadas sobre as várias faces da colonização. Em alguns países é possível se aprender a versão de que a colonização contou com um grande desbravador que levou evolução a um local inferior; sendo assim, sua chegada é uma verdadeira salvação para aquela região. Mesmo depois de tanto tempo, é visível que esse pensamento advindo de alguns países continua muito firme, mas nada se compara a ter nascido em um país que foi colonizado e saber que tudo isso é uma grande farsa. Ser de um país colonizado nos mostra que nem sempre a história é justa da forma como é contada, e, por isso, a independência se tornou algo tão grande. Qual o real sentido em chamar de descobrimento e comemorar a chegada de europeus em um lugar já povoado, com pessoas que foram obrigadas a perder sua essência e cultura? Infelizmente as consequências de tais ações resultaram num massacre dos nativos do nosso continente, assim como no africano e asiático. Séculos após a independência de alguns países, ainda é possível ver os efeitos de todos esses eventos, pois a visão dos países colonizados como inferiores aos outros continuou firmemente.

Durante as grandes navegações, o eurocentrismo dos colonizadores levou a um verdadeiro massacre de povos nativos, acabando com tribos inteiras em muitos locais. A visão da época era a de que o continente europeu continha tudo o que era necessário para ensinar os outros grupos – seus costumes, idioma, religião. O exemplo disso na América se deu quando Cristóvão Colombo chegou em 1492 a terras já povoadas, e mesmo com as trocas de presentes oferecidas pelos nativos e suas ofertas de paz, via as pessoas ali como um potencial para tornarem-se servos na Espanha, e suas terras propriedades, do país. Além das diferenças culturais no dia a dia e vestimentas, os traços étnicos e dieta alimentar eram outro ponto de divergência entre os dois povos, e os europeus designavam tudo aquilo como bárbaro, chegando ao animalesco. Então se os seres ali não eram à imagem e semelhança da Europa e sua sociedade, eles precisavam ser mudados para serem semelhantes, e só assim considerados civilizados.

Nos diálogos entre Próspero, Calibã e Ariel, é possível perceber que para o Duque sua chegada e ensinamentos às duas personagens é vista como uma bênção àquela ilha, oferecendo a oportunidade dos habitantes se tornarem seres civilizados que usufruem dos conhecimentos básicos que Próspero e Miranda tiveram. Enquanto os dois italianos trazem as características dos colonizadores em seu discurso, Calibã traz em sua essência a visão distorcida que o povo latino-americano tinha aos olhos europeus dos séculos XV–XVI. Desde a provável analogia do seu nome com a palavra "canibal" (característica dada por Colombo a alguns povos do continente), as feições da personagem são consideradas animalescas, e por mais que ela pudesse realmente não ser totalmente humana – já que seu pai era um demônio e a ilha cheia de seres mágicos –, fica inevitável não perceber o discurso racista feito pelas outras personagens em cima dela. Quando olham Calibã pela primeira vez, a tripulação de Antônio e Alonso chega a se perguntar se ele era realmente um homem como eles, mas, de qualquer forma, ele poderia servir como fonte de renda em seu país, reforçando a visão de que ele só serve para o trabalho forçado.

Caliban, de Odilon Redon (1881)

Enquanto Calibã representa o nativo que não aceita perder suas terras, costumes, seu pertencimento naquele local, Ariel pode ser a representação tanto da metáfora sobre magia quando a do nativo que acreditava na chance de ter sua liberdade conforme os anos de trabalho fossem passando. Em mais de uma cena é possível ver o espírito barganhando e relembrando a Próspero do combinado de ser livre após ajudá-lo em sua vingança, e, como resposta, recebe sempre o lembrete de que antes da chegada do Duque ali, Ariel era um espírito miserável vivendo naquela ilha. Esse pensamento eurocêntrico recorrente na obra advém do mesmo ponto que tanto é visto nos escritos da época acerca de navegações e invasões aos diferentes territórios do mundo, lugares onde a chance de se tornar uma extensão da Europa compensasse todas as coisas perdidas pelos povos nativos.

Outra passagem que conversa diretamente com os acontecimentos na América é a do momento em que Calibã relembra como conheceu Próspero, e que por ter gostado do Duque teve prazer em lhe mostrar a ilha onde morava, sem imaginar que essa atitude seria usada contra ele futuramente.

“Quero jantar.
Sou dono desta ilha, eu a ganhei De minha mãe, porém, tu me roubaste.
Ao chegares, no início, eras bondoso E me encheste de afagos e elogios; Me deste água adoçada com framboesas;
Me ensinaste a nomear a grande luz E a luz menor, que brilha noite e dia: Eu te amava, e mostrei-te de bom grado
Todas as qualidades desta ilha: As fontes d’água, os poços de salsugem,Tanto os lugares férteis quanto estéreis:
Maldito eu seja, por ter feito isso! [...]
Sou teu único súdito, eu, que um dia Já fui meu próprio rei; e aqui me prendes,
Como se eu fosse um porco no chiqueiro,
Nesse duro rochedo, e me proíbes o restante da ilha.”

Como em qualquer tipo de arte, cada interpretação varia, seja pelo momento quando se absorve o conteúdo presente ou o conhecimento prévio que juntamos ao assunto abordado. Calibã e Ariel mostram durante toda a história que seus esforços para serem aceitos em sua essência são vãos, mas, mesmo assim continuam a lembrar – de formas distintas – da ilha que um dia lhe pertenceu. Por mais que a memória dos povos nativos de toda a América seja uma forte representação, as características da obra remetem a muitas outras civilizações que sofreram com o mesmo tipo de usurpação. Em seu artigo A Tempestade e a AméricaBernardo Ricupero coloca que 

“A Tempestade talvez seja um dos maiores exemplos de como as peças de Shakespeare são trabalhos abertos, que permitem as mais variadas interpretações. Elas talvez revelem mais sobre seus leitores do que sobre os próprios textos. De maneira complementar, a possibilidade dessas leituras alternativas, muitas delas concorrentes entre si, é a maior prova da força da obra do dramaturgo inglês.”

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Referências


Carolina Pereira
Santista, 20 anos, estudante de psicologia e de filosofia. Amante de idiomas, café, mar e tudo o que Edgar Allan Poe tenha colocado no mundo. De vez em quando tem vontade de fugir e viver como um hobbit.

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