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Dublinenses: James Joyce diante da paralisia de seu povo


No início de 2022, uma das maiores obras desenvolvidas em língua inglesa comemorou seu centenário de publicação. Ulysses, escrito pelo irlandês James Joyce, teve a sua estreia em 1922 nas livrarias parisienses e, atualmente, é admirado por todo o Ocidente. Por mais que tenha seu valor afirmado por diversos leitores, porém, a decodificação da obra é tida como complicada e poucos são os que ousam se aventurar na odisseia. A mesma consideração se faz presente em outra obra do autor, Finnegans Wake, que expõe diversas junções de termos de línguas distintas. Dessa forma, então, James Joyce passou a ser conhecido como um escritor inalcançável.

A partir do emblema em torno de seu nome, a leitura das obras do irlandês é objeto de desejo intelectual daqueles que prezam os cânones. Todavia, o grande labirinto literário frustra a maioria dos leitores, que acabam por não prosseguir com a narrativa até o seu fim. Uma solução para esse problema é a inserção ao universo do autor por meio da antologia de contos Dublinenses (Dubliners no original), escrita entre 1904 e 1912. Dessa forma, os interessados serão capazes de se acostumar com os temas constantes no mundo joyceano e terão suas experiências futuras facilitadas.

Dublinenses é, de certa forma, o livro mais seguro de Joyce, aquele que provavelmente está mais próximo dos cânones da alta literatura de seu tempo. E, nesse sentido, talvez seja o livro mais perfeito de sua obra em prosa.” 

(Caetano Galindo)

Buscando denunciar uma sociedade irlandesa estagnada pela situação política e ideais religiosos da época, James Joyce escreveu as histórias que compõem sua antologia. Durante muito tempo, a Irlanda era colônia da Inglaterra e sofria ataques diretos à sua cultura pelos ingleses. Artifícios como a imposição da língua inglesa sobre o Gaélico e da religião protestante sobre o catolicismo irlandês ilustravam a coerção cultural vigente. As narrativas desenvolvidas em Dublinenses se dão justamente quando parte da nação celta inicia a retomada e afirmação dos valores nacionais, o chamado Irish Literary Revival (Renascimento Literário Irlandês). Assim, a valoração ao catolicismo e à escrita no idioma gaélico passaram a ser meios de resistência por nacionalistas. 

James Joyce, porém, apesar de sua origem, levantava críticas a respeito do panorama geral. Segundo pensamentos do autor, a situação apresentada era uma faca de dois gumes: a Inglaterra colonizadora entorpecia o desenvolvimento nacional, enquanto a valorização exacerbada da religião e antigos valores irlandeses promovia a paralisia moral.

James Joyce
A partir desse princípio, Joyce constrói narrativas diversas, que têm como linha unificadora a estagnação das personagens. Em um lapso epifânico, os protagonistas percebem a prisão de suas vidas rotineiras e o desejo pelo além, mas, diante da possibilidade de mudança, não prosseguem rumo à liberdade, e sim à paralisia total. É possível notar, também, que o único meio de quebrar o ciclo seria saindo de Dublin.

No conto Eveline, por exemplo, é apresentada uma menina que, após a morte da mãe, cuida da casa, dos irmãos e do pai agressivo. A melancolia da jovem se dá através do total roubo de sua autonomia: Eveline não é dona de seu dinheiro, tempo e anseios. Sua vida está sendo conduzida como fora a de sua mãe. Consequentemente, a ideia de viver em eterna infelicidade a leva a traçar um plano de fuga com seu par romântico:

“Em seu novo lar, num país distante e desconhecido, não seria assim. Estaria casada – ela, Eveline. As pessoas a tratariam com respeito. Não seria tratada como a mãe o fora.”

Frank e Eveline fugiriam de Dublin rumo a Buenos Aires. Assim, segundo palavras da protagonista, ela seria respeitada e não acabaria como sua figura materna. As passagens estavam compradas. Ao escutar uma música que vinha da rua, porém, lembra-se da promessa que fez à sua mãe: haveria de manter o lar unido enquanto pudesse. O horário da viagem chega e, apesar da urgência da fuga e do desejo de uma vida melhor, Eveline paralisa no cais. O conto termina em suspensão, mas o leitor pode intuir que Frank viajará sozinho.

“Ele correu para o outro lado do cordão de isolamento e chamou-a para que o seguisse. Gritaram para que fosse em frente, mas ele continuou a chamá-la. Ela o encarou com o rosto pálido, passivo, como um animal indefeso. Seus olhos não demonstraram qualquer sinal de amor ou adeus ou reconhecimento.”

No início do conto, a protagonista tem uma epifania e percebe que, se continuasse a pisar nas pegadas deixadas por sua mãe, iria viver eternamente as mesmas frustrações. Todavia, diante da liberdade e possibilidade de transformação, há o ato físico de paralisia. 

É interessante perceber a inserção de elementos que transpassam a ideia de eternidade e tempo que se arrasta. Há a descrição de uma poeira constante, por exemplo, que jazia independentemente de quantas vezes fosse espanada. O pó simboliza a casa inerte, com moradores parados, que não transformam o seu redor. A constância é expressa também no uso da expressão “tantos anos” ao descrever a rotina de Eveline. A situação não muda, assim como as tradições irlandesas criticadas por Joyce e a situação política do país.

“Casa! Correu os olhos pela sala, revendo todos os objetos conhecidos que ela espanava uma vez por semana havia tantos anos, e se perguntou de onde viria tanta poeira.”

Demonstrando que de fato é a permanência na Dublin estagnada que impede a ascensão dos moradores, o conto Uma pequena nuvem apresenta a dualidade entre aqueles que ficam e aqueles que vão. Chandler é um jovem pai que vive a rotina de uma carreira típica de escritório. Seu sonho é ser um escritor reconhecido, mas os dias são sempre iguais e a ele resta apenas melancolia e o refúgio na literatura. Em contrapartida, seu amigo, Gallaher, traçou jornada rumo a Londres e conquistou uma ótima vaga de jornalista. Quando, em uma visita de Gallaher a Dublin, os dois se encontram em um bar, inicia-se em Little Chandler um ciclo de autoacusação e inveja. O protagonista poderia ter sido tudo o que o amigo se tornou, e muito mais, se não tivesse sido preso pelas circunstâncias.

“Sentia de maneira marcante o contraste entre sua vida e a vida do amigo e isso lhe parecia injusto. Gallaher era inferior a ele tanto em termos de berço quanto em questão de educação. Tinha certeza de que seria capaz de superar o amigo, de fazer algo melhor do que tudo o que o amigo fizera ou viria a fazer, algo mais grandioso do que um jornalismo de segunda categoria, se apenas tivesse a oportunidade.”

O sentimento amargo da frustração é intensificado quando volta para casa. Sua mulher está de mau humor, a casa é pequena – assim como tudo em sua vida –, e o filho chora. Chandler gostaria de ser capaz de escrever poemas melancólicos e fazer sucesso no exterior. A fuga é tudo o que o protagonista deseja.

“Havia algo de medíocre na bela mobília por ele comprada a crédito. A própria Annie havia escolhido os móveis e estes faziam-no lembrar da esposa. Eram convencionais e bonitinhos. Um sombrio ressentimento contra sua própria vida cresceu dentro dele. Ele não poderia escapar daquela casinha? Seria tarde demais para tentar a vida audaciosa de Gallaher? Poderia ir para Londres? Ainda não havia terminado de pagar a mobília. Se conseguisse escrever um livro que fosse publicado, quem sabe as portas de abririam para ele.”

O conto finaliza com a criança gritando de tal maneira que o impede de ler a poesia que gostaria de ter escrito. São gritos acusatórios que representam a não realização do sonho. É a estagnação no presente infeliz.

Uma pequena nuvem foi escrito em 1906, quando Joyce tinha apenas 23 anos e era pai de um menino de 6 meses. Esse fato incita suposições de caráter autobiográfico na obra, mas, apesar da semelhança, o autor costumava afirmar a felicidade em ser pai. Por outro lado, são claros seus objetivos com a antologia quando, em uma carta, afirma que gostaria de “trair a alma da hemiplegia ou paralisia que muitos consideram como cidade”. Logo, não é possível afirmar o aspecto autobiográfico da obra, mas pode-se ter a certeza do anseio de James Joyce de espelhar a sociedade irlandesa e suscitar dilemas morais, apontando a inércia em que os habitantes se encontravam devido à situação política e social local.

Ao todo, são quinze curtas histórias que passam por diferentes aspectos e, graças ao pudor literário da época, quase não foram lançadas. Foram nove anos aguardando publicação e, segundo o autor em uma carta citada na introdução, mais de quarenta rejeições. Havia os queriam censurar cenas explícitas, assim como os que tentavam excluir contos inteiros, mas James Joyce persistiu na publicação da maneira idealizada desde o início.

Uma das insistências de Joyce foi a ordem de aparição dos contos na coletânea. As tramas do início têm protagonistas jovens, já as do fim, idosos. Isso acontece porque, a partir da divisão entre contos da infância, juventude, vida pública e maturidade, o autor fez alusão ao período de vida dos indivíduos. 

Ademais, é interessante notar a escolha de narrador aplicada aos contos. As histórias que se passam na época infantil são as únicas com narrador em primeira pessoa. Dessa forma, é como se Joyce afirmasse que apenas as crianças não foram totalmente tomadas pela cidade e ainda estavam em controle pleno de seus atos. Nos contos de outros períodos, a narrativa se dá em terceira pessoa, pela voz de outrem, explicitando que os dublinenses não controlavam nem mesmo o modo como suas histórias são contadas. Para além desse fator, a narrativa indireta livre é admirável, pois permite o entendimento pleno dos sentimentos que invadem as personagens e puxa o leitor para dentro de suas mentes.

Apesar de considerado como porta de entrada ideal ao universo de Joyce, Dublinenses não deve ser resumido apenas à sua acessibilidade. A obra contém sutilezas, simbologias e nuances da vida de pessoas reais inertes pela situação do local onde vivem. É uma obra que, de maneira sucinta, é política e convida o leitor a habitar, mesmo que apenas durante os minutos de leitura, uma parte da Europa que realmente existiu em determinada época. A leitura de Dublinenses equivale a uma viagem entre fragmentos de vida, na qual a presença de cada detalhe tem sentido e significa algo maior.


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