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Kiki e os desafios da jovem artista moderna


Provavelmente você já ouviu falar em Hayao Miyazaki e Studio Ghibli, principalmente se você se interessa um pouco por animações. E se você já ouviu esses nomes, é bem provável que tenha conhecimento sobre Serviço de entregas da Kiki (1989). Trata-se de um dos filmes mais famosos do estúdio, com uma protagonista e um gatinho preto bem icônicos (Kiki e Jiji). O filme, hoje um dia um clássico do estúdio, é baseado no livro Entregas expressas da Kiki, escrito por Eiko Kadono, escritora japonesa ganhadora do prêmio Hans Christian Andersen.

Kiki foi inspirada em um desenho de sua filha. Um desenho de uma bruxinha voando pelo céu, ouvindo rádio, o que lembrou a autora de fotos de Nova York vista pelo ponto de vista de pássaros, a fazendo sentir que ali haveria uma história. Kiki teria doze anos assim como sua filha, e somente usaria um tipo de magia: voar com sua vassoura, para assim ter de resolver seus problemas com sua própria mente, igual aos não-bruxos.


Miyazaki é um diretor conhecido por seus belos jardins nas suas animações, suas histórias simples e comoventes, e principalmente por suas protagonistas femininas fortes e cheias de personalidade. O que parece simplesmente um termo comum usado hoje em dia por qualquer mulher chutadora de bundas de um filme hollywoodiano, claro. Mas não é bem o caso aqui. O que torna as meninas Ghibli fortes e boas protagonistas não são sua habilidade de lutar ou qualquer força física, mas sim o fato de serem meninas jovens comuns, com defeitos e qualidades humanas, com uma determinação e teimosia enorme para simplesmente viver e vencer os desafios de seus cotidianos.

"Muitos dos meus filmes têm fortes protagonistas femininas, corajosas, meninas autossuficientes que não pensariam duas vezes antes de lutar pelo que acreditam com todo o seu coração. Elas precisarão de um amigo ou defensor, mas nunca um salvador."

(Miyazaki em entrevista sobre o filme A Princesa Mononoke)

Kiki, por mais que tenha magia, é muito parecida com qualquer garotinha humana. Ela é jovem e tem anseios de explorar o mundo, ver o mar, quer tomar suas próprias decisões sozinha, e por isso briga muito com a mãe, que insiste em fazê-la seguir as tradições de família e das bruxas. Kiki sente-se subestimada constantemente e quer provar para todos e para si mesma que consegue ser independente e se virar sozinha por aí. Ela comete erros o tempo todo ao longo da história, pensa em desistir e chorar para a mãe, mas ao mesmo tempo é orgulhosa demais para admitir a derrota e desistir de seus sonhos e, em vários momentos, também se sobrecarrega em tarefas achando que consegue dar conta de tudo ao mesmo tempo (que atire a primeira pedra a garota do século XXI que nunca fez isso). E é por todos esses motivos que Kiki é uma personagem tão cativante e relevante para os dias de hoje.

Outro ponto muito importante utilizado pelos produtores do filme Serviço de Entregas da Kiki ao retratar suas mulheres e meninas é em seus desenhos. Kiki e as meninas de sua idade parecem menininhas pré-adolescentes asiáticas. As mulheres um pouco mais velhas, como por exemplo a artista Ursula, têm um corpo real e não algo super magro com cinturinha fina etc. que vemos em filmes de estúdios dos EUA. E temos até uma mulher grávida aparecendo no filme, a Osono. Pense em quantas vezes você já viu uma mulher grávida trabalhadora aparecendo em filmes da Disney? Provavelmente nenhuma... 

O filme, assim como na maioria das produções do diretor, possui magia e misticismo, porém os elementos de sua história e seus personagens, como no material fonte, são recheados de temas reais e de problemas reais. Em Kiki, temos uma jovem bruxinha de 13 anos com sua vassoura mágica tentando sobreviver e se manter sozinha (com seu gatinho Jiji) em uma cidade grande e sem outras bruxas presentes por pelo menos um ano. Pois ao passar esse período a bruxa tem permissão de voltar à casa dos pais. 


Sua habilidade de voo é muito boa, mas assim como muitos jovens artistas com sua arte, não é exatamente valorizada como um emprego de verdade, por isso foi necessário ela criar uma forma de valorizá-lo, tornando aquilo um serviço de entregas, mas não apenas: também uma forma de divulgar e mostrar para as pessoas que Kiki é uma bruxa boa e confiável para fazer suas entregas. Então, sim, até uma bruxa que consegue voar precisa fazer networking e marketing se quiser sobreviver em nosso mundo.

Com o passar do tempo, ela se torna somente a menina de entregas para a maioria das pessoas, e constantemente trabalha mais do que o necessário para manter seu negócio. Kiki atribui seu valor ao seu trabalho, à sua arte de voar, sem isso ela não é nada. E é isso que a leva ao seu burnout, sua exaustão mental por algo que ela essencialmente ama.

No filme de Miyazaki, ela chega até mesmo a perder, por um tempo, sua capacidade de voar e de falar com seu gato, Jiji, algo que no livro de Eiko não chega a acontecer, embora sua exaustão ainda seja claramente demonstrada na história. Ela perde seu desejo, sua paixão de voar ao tornar aquilo seu modo de viver. Sente-se cansada, afasta-se de todos e não tem muita vontade de sair de casa. E por mais que ela tenha sucedido em seu negócio e tenha se dado relativamente bem na cidade com todos os seus altos e baixos e cobranças, ao completar um ano por lá e decidir voltar para casa, ela não sente que realmente sua missão foi bem-sucedida. Kiki não sente a felicidade e a realização tanto quanto achou que sentiria ao conseguir exatamente o que queria.


Mas é ao se dar esse tempo na casa de seus pais, ser recebida tão bem por eles, que contempla tudo que conseguiu realizar, percebendo que por mais que voar seja sua forma de expressão e algo tão inerentemente dela, não é tudo que ela é nem tudo que ela capaz de fazer. Ela sente falta de Osono e Tombo e da vida agitada da cidade grande e percebe o quão bem se adaptou e o quanto essas conexões que ela fez, por mais que não fossem tantas, fizeram bem a ela, e é isso que ela levará da cidade para sempre.

Ao não voar por trabalho, ela volta a ter sua paixão pela prática novamente. Pois independentemente do lugar, das pessoas, do sucesso ou não, voar faz parte de quem ela é e é tão importante para Kiki quanto a arte é para o artista.

“Eu acredito que todos têm um tipo de magia dentro deles. Se uma pessoa consegue achar sua magia e amorosamente cultivá-la, ela irá sentir-se verdadeiramente viva todos os dias.”

(Eiko Kadono)
Nicole Hildebrand
2000, carioca de nascença e de coração para sempre (mesmo fora de lá). Universitária cansada. Fã de carteirinha de fantasia e sci-fi desde pequena e sempre fascinada por boas histórias, independente de gênero. Escreve umas coisas por aí nas horas vagas.

Comentários

  1. Kiki é o um dos meus filmes prediletos da Ghibli. Fiquei muito contente ao saber do desenvolvimento de Kiki no livro e agora gosto ainda mais do filme. Excelente texto!!!

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