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A viagem onírica em Aurélia, de Gérard de Nerval


“O sonho é uma segunda vida”: assim começa o narrador de Aurélia, este livro dividido em duas partes que foi escrito em uma das internações de Gérard de Nerval. O autor, encorajado por seu médico, registra os sonhos e visões que possuía sempre que devaneava. Fatalmente surge a dúvida: autobiográfico ou ficcional? Os limites entre essas duas palavras, em Aurélia, são nebulosos. Cercado de mistérios, o manuscrito foi classificado como “bizarre” pelo editor, que encontrou a segunda parte da história fragmentada em variados pedaços de papel, repletos de figuras cabalísticas.

Entretanto quem ainda assim se aventura a ler Aurélia, encontra uma escrita completamente diferente: cheia de sutilezas e momentos realmente belos. Através dela, vemos o narrador deslindar os acontecimentos de sua vida, numa verdadeira odisseia onírica em busca do perdão genuíno.

A história se inicia com o personagem contando que buscou transcrever “as impressões de uma longa doença” ocorrida nos mistérios de seu espírito. Ele mesmo, aliás, não aceita muito bem utilizar essa palavra, “doença”, pois “nunca passou tão bem de saúde”. Essas impressões, por vezes, são tão vivazes e notavelmente coerentes dentro de si próprias, que nos colocam numa incerteza entre o real e o ilusório. Se lemos Aurélia não como um texto íntimo de Gérard de Nerval, mas como pura ficção, adentramos o terreno do fantástico, descrito pelo crítico literário Tzvetan Todorov como a incerteza entre o natural e o sobrenatural.

Mas se a incerteza é a atmosfera criada por Nerval dentro de seu livro, o Sonho é o grande afluente de toda a obra. Jorge Luis Borges dizia que existem dois tipos de sonho: aqueles inventados pela vigília (que é a literatura) e aqueles inventados pelo sono. Porém, nesta obra, o Sonho não possui fronteiras, pois toma a forma concreta tanto na vigília quanto no dormir. 

Os sonhos descritos são verdadeiros passeios da alma, onde todos os tempos parecem se fundir. Nos seus aparentes delírios, o narrador viaja a outros planos, vê a criação do mundo, a transfiguração de sua amada em uma deusa etc. Nas páginas de Aurélia, importa pouquíssimo onde fisicamente o narrador estava, mas sim onde ele sempre parecia estar. 

Difícil será expor em algumas palavras a complexa obra deixada por Nerval. Em Aurélia, vemos intimamente os estados da mente do protagonista; acompanhamos sua viagem em busca do próprio perdão. Decerto essa jornada psicológica poderia ter sido feita de maneiras distintas. Mas é justamente por isso que este livro consegue ser tão único: pois para perdoar a si mesmo, o protagonista precisou adentrar em uma segunda vida, um segundo mundo. Precisou contemplar imagens grandiosas ou terríveis; reconciliar-se com o espiritual. Praticamente convocado a uma viagem onírica — e, por que não, mística? — adentrou-a para encontrar o consolo que fatalmente não teria nas reais ruas da França. 

Convocado à meia-noite: o início da viagem

O chamado do protagonista acontece de forma indireta. A partir de visões e sonhos que o levam a determinadas conclusões, vemos como se inicia a “efusão do sonho na vida real”. Depois de duas visões que se sucedem à meia-noite, nosso personagem se encontra com outros seres, num mundo quase melífluo. Os capítulos a seguir são todos descrições dos sonhos do protagonista. O início de sua viagem é marcado pelo encontro de pessoas queridas que ou já se foram, ou são seres superiores.

No início de sua viagem, lhe são apresentados os primeiros mistérios que rondam nossa existência humana: onde estariam nossos antepassados? Seria possível visitá-los mesmo em vida? É curioso que Nerval revele ao leitor que uma das características do mundo espiritual não é ser celestial no sentido estrito da palavra, mas sim um lugar familiar e encantador, onde seria possível reconhecer todas as pessoas amadas que já se foram. 

“‘Então é verdade!’, exclamei com entusiasmo, ‘somos imortais e conservamos aqui as imagens do mundo que habitamos. Que felicidade imaginar que tudo aquilo que amamos existirá para sempre ao nosso redor!... Eu andava bem fatigado da vida!’”

Depois disso, os mistérios ficam cada vez mais densos, e muitas verdades são expostas ao personagem. O Sonho também o levou a vislumbrar verdades ocultas, mistérios que não são acessados na vigília. Por meio dele, o personagem se encontrou com outros seres que lhe contou segredos da existência, da criação divina. 

Os relatos de suas viagens espirituais são bastante fluídos. O limiar entre o real e o imaginário é sempre muito tênue. Até poderíamos arriscar dizendo que este livro poderia ser um diário de viagens, pois boa parte dele se concentra justamente nelas e nas visões relatadas pelo narrador. Sendo assim, quase não há espaço para a exposição de muitos eventos cotidianos. 

Paisagens oníricas: as fantásticas descrições de Nerval

Gérard de Nerval não nos deixa dúvidas quanto a sua capacidade de escrever. Imprime imagens de um modo tão claro que é possível vê-las, sem grandes esforços, em nossa mente. Mesmo as mais difíceis de serem imaginadas se desdobram de modo surpreendentemente límpido. Ao longo da jornada do protagonista, o leitor atravessa diversas paisagens e momentos impressionantes. Em um de seus sonhos, por exemplo, no capítulo sexto, Gérard descreve esta visão:

“Três mulheres trabalhavam ali e representavam parentes e amigos de minha juventude, mas de modo algum se pareciam com eles. Era como se cada uma guardasse os traços de várias dessas pessoas. A silhueta delas variava como a chama de uma lâmpada, e, a todo momento, qualquer coisa de uma passava à outra: o sorriso, a voz, a cor dos olhos, dos cabelos, o tamanho, os gestos familiares permutavam-se entre elas como se tivessem vivido a mesma vida, e assim cada uma era um composto de todas, como esses tipos que os pintores copiam de vários modelos para realizar uma beleza completa.”

O autor poderia simplesmente ter se utilizado de palavras como “translúcidas” ou “efêmeras”, mas preferiu deslindar suas impressões a cada linha, mostrando-as de modo progressivo ao leitor. Nerval repetirá essa façanha diversas vezes ao longo de seu livro, mostrando com exatidão muitos acontecimentos surpreendentes. 

Gérard de Nerval

Aurélia: a confluência de todo o bem

A figura feminina neste livro está sempre associada ao maravilhoso e ao divino. Aurélia, de uma bela dama amável, alcança, ao final da história, proporções divinas. Ela literalmente engrandece; é o ponto que reúne tudo o que há de bom e de belo no mundo. Se o Sonho é o rio que conduz o narrador a outros planos, Aurélia é seu norte; se ele viaja, é para encontrar o perdão que está em sua figura.

É possível associar esta grande admiração à culpa sentida pelo narrador. Ao longo de toda a história, vemos que ele sempre vê Aurélia como uma mulher incapaz de errar. Ele a coloca em um pedestal, e se deprecia por ter falhado com ela. Um dos momentos no qual mais se atesta isso está no capítulo segundo. Em uma reunião de amigos, o protagonista acaba se encontrando com Aurélia. Ela se aproxima dele e estende-lhe a mão, saudando-o. Tamanha era a culpa do narrador que, em sua mente, ela nem mesmo iria lhe dirigir a palavra, pois grande seria o seu ódio por ele. Mas Aurélia fez o completo oposto, surpreendendo — e muito! — nosso personagem. Ele diz:

“Como interpretar esses passos e o olhar profundo e triste com o qual acompanhou a saudação? Acreditei ver nisso o perdão do passado; a ênfase divina da piedade dava às simples palavras que ela me endereçava um valor inexprimível, como se qualquer coisa de religião se misturasse às doçuras de um amor até então profano e lhe imprimisse a marca da eternidade.”

Também é interessante perceber que quanto mais Aurélia cresce aos nossos olhos, mais leva o narrador para além de si mesmo e de sua grande culpa. Ao final do livro, vemos um homem resoluto, conformado consigo mesmo, pois entendeu que visitar outros mundos e ser capaz de ver essa nova e divina face de Aurélia era um verdadeiro presente que valia muito mais do que toda a sua dor. E, desta forma, ele também encontra, para si, o perdão. 

Real ou apenas uma ilusão?

Em Aurélia, existe certa incerteza que sempre nos deixa suspensos. É mesmo verdade o que vê o narrador? Ou tudo é somente alucinação? Na realidade, não conseguimos saber. Mesmo o próprio personagem admite que, em algum momento, houve o delírio. Mas também mantém a certeza de que nem tudo foi apenas um sonho. É como se, dentre toda a narrativa, houvesse o joio e o trigo, ainda sementes. Como diferenciá-los? 

Tzvetan Todorov, em seu livro Introdução à Literatura Fantástica, nos conta que esta história escrita por Nerval é, de fato, um grande exemplo da ambiguidade fantástica. Esta gira em torno da loucura, pois sabemos que o narrador possui episódios de alucinação que o levam a ser internado. Entretanto segundo o próprio Todorov, “trata-se de saber (e é neste ponto que reside a hesitação), se a loucura não é de fato uma razão superior”. Em outras palavras: será que o narrador não está, na realidade, vendo algo a que não possuímos acesso, e que, por este motivo, consideramos loucura? Nerval não se preocupa em responder a essa pergunta. Por isso, o livro finda com o leitor suspenso, sem afirmar se na viagem do personagem há algo de verdadeiro ou não. 

Aurélia é um livro de muitas camadas, sendo somente as mais básicas apresentadas neste texto. Esta viagem do personagem é, podemos dizer, uma viagem interior que transbordou para o exterior. Mas também pode ser uma viagem a algo ainda não descoberto, reservado para poucos, cujas palavras apenas tateiam seu real significado. 

“O sono ocupa um terço de nossas vidas. Ele é a consolação das penas de nossas jornadas ou a pena de seus prazeres; mas jamais achei que o sono fosse um repouso.”


Referências 


Comentários

  1. Oi, Rebeca! Não conhecia esse livro! Muito intrigante a história.

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    1. Oi, Ket! Vale a pena a leitura. Ele é um pouco difícil de achar no mercado, mas com certeza a leitura recompensa a busca!

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