últimos artigos

As três marias e os 50 anos das Novas Cartas Portuguesas

“Pois que toda a literatura é uma carta a um interlocutor invisível.”

Em maio de 1971, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa decidiram escrever e reescrever, juntas, a obra Cartas Portuguesas, de Mariana Alcoforado. As três marias, como viriam a ser conhecidas por toda a Europa, já vinham sendo perseguidas pelo regime salazarista em Portugal, regime que por mais de 40 anos reprimiu o país e censurou qualquer tipo de manifestação que ferisse a tradição e seus costumes. Maria Isabel Barreno havia denunciado o silêncio da mulher com seu livro Os Outros Legítimos Superiores, Maria Teresa Horta havia reivindicado a autoria feminina e o direito ao desejo na reescrita de cantigas em Minha Senhora de Mim, e Maria Velho da Costa reinventava a fala da mulher em Maina Mendes

Para se protegerem do regime e da força policial que viriam a enfrentar com a publicação do livro, assim como propor um questionamento de autoria semelhante ao que ocorre até hoje com as Cartas Portuguesas, as três marias fizeram um pacto de que nunca revelariam quem escreveu o quê, criando um enlace de vozes em nome de Marias e Marianas. Mariana Alcoforado, a freira que sofrera uma desilusão amorosa por um oficial francês no século XVII, dessa vez passa por uma expansão do seu desejo como ser-mulher, ao mesmo tempo em que marianas são conjuradas para ganharem, enfim, uma identidade pessoal.

O regime salazarista e a censura das três marias

A democracia em Portugal ainda é muito recente. Assolados por uma monarquia extensa e regimes autoritários, os portugueses experimentam “a liberdade” desde o dia 25 de abril de 1974, conhecido como Dia da Liberdade e marcado pelo fim da Revolução dos Cravos. Resultado de uma luta decolonial e de minorias, enfim a censura teria fim, e foi essa censura que quase deu fim às Novas Cartas Portuguesas apenas três dias após sua publicação, no ano de 1972. A obra foi acusada de carregar um “conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública”.

Assim como ocorreu no Brasil durante a ditadura militar, em Portugal as músicas tinham trechos proibidos, rádios não podiam passar notícias e informes que ferissem o regime, livros eram confiscados e destruídos, pessoas eram presas e exiladas, o que causou um déficit cultural imenso por décadas. Enquanto obras como Os Lusíadas, de Luís de Camões, eram exaltadas como patrimônio do país, outras foram perdidas para sempre. 

Com as Novas Cartas Portuguesas não seria diferente, mas quando as autoras perceberam que talvez o livro se perdesse nas mãos da PIDE (Polícia Internacional e Defesa do Estado, a polícia responsável pela repressão durante o regime), nossas marias decidiram então enviar um exemplar do livro para fora do país, aproveitando que um amigo em comum estava de viagem marcada para a França. Esse exemplar em questão chegou nas mãos de ninguém mais, ninguém menos que Simone de Beauvoir, além do movimento feminista como um todo.

As Novas Cartas Portuguesas

Usando as cinco cartas escritas pela freira Mariana Alcoforado na obra Cartas Portuguesas como ponto de partida, Isabel Barreno, Teresa Horta e Velho da Costa produziram nove cartas, poemas e ensaios, além de textos sem gênero definido. As cartas invocam Mariana Alcoforado juntamente à Mariana, Mariana A., Maria Ana e criticam a entidade das Marias, nome mais comum em Portugal na época. A partir de uma história de desilusão amorosa, propuseram um debate com o amor, levando em conta que esse amor e a paixão estão sempre ligados à condição delas como mulher.

As mulheres do século passado ecoam entre as páginas, sendo agora sujeitos e objetos da narrativa, donas do desejo e da fala, com vozes ativas e altas, que gritaram pelo prazer, pela dor, pela raiva e pela revolta. Fruto do que é chamado de uma escrita-cúmplice e de seis mãos escritoras, a pluralidade é quase uma regra no meio do caos organizado das autoras. Logo no início da “Primeira Carta I” temos o estabelecimento desse coletivo que se opõe à relação da tradição e sua construção. 

Em textos como “A Paz”, que é um dos mais eróticos da obra, a mulher guia seu parceiro durante o ato sexual, algo impensável para as mulheres da época, que não tinham o direito de sentirem e almejarem o prazer sexual. Na “Terceira Carta IV”, temos um ensaio que começa questionando a relação do amor e da mulher e termina invocando termos usados por Sigmund Freud e Johann Wolfgang von Goethe: a cristalização da mulher, o estado feminino. Tristão e Isolda, Beatriz e Virgílio, Eva da serpente, corpo sem alma, vampiro do homem, bruxa, a mulher como a que corrompe ou a mulher como ser intocável, semelhante à Virgem Maria, sempre questionando diretamente a mulher como ser social e sua posição quanto à sociedade.

A primeira causa feminista internacional

Acusadas de atentado à moral, no dia 25 de outubro de 1973, iniciava-se o julgamento contra as três marias, já que as Novas Cartas Portuguesas acabaram se espalhando pela Europa de forma impressionante, o que tornou a obra em um manifesto feminista da época. Sendo traduzidas em diversas línguas rapidamente, abraçadas pelo movimento feminista de vários países e pela repercussão por parte da imprensa (jornais como o Le Monde, Times, New York Times, Nouvel Observateur, L’Express, Libération e redes televisas de todo o mundo cobriam passo a passo das audiências), em junho de 1973, a causa foi votada como a primeira causa feminista internacional, numa conferência da National Organization for Women (NOW), em Boston.

Nomes como Simone de Beauvoir, Marguerite Duras, Christiane Rochefort, Doris Lessing e Iris Murdoch foram figuras que fizeram um esforço para o reconhecimento do ato revolucionário que a reescrita dos lamentos de Mariana Alcoforado representavam. 

O julgamento em questão acabou não sendo finalizado, devido ao final do regime salazarista no dia 25 de abril de 1974. Assim as três marias foram absolvidas das acusações.

O resgate pelos estudos feministas e teoria queer

Apesar de todo o impacto causado pelas Novas Cartas Portuguesas, o “manifesto feminista” tornou-se datado e deixou de ser comentado e estudado pela grande massa. A obra passou muito tempo sem uma reimpressão de qualidade, mas após quase vinte anos de sua publicação a grandiosidade das novas cartas viria a ser novamente enaltecida. A obra não tem um gênero literário definido, as três marias foram além das epístolas e criaram uma coletânea de cartas, poemas, ensaios e lidaram com o corpo social do discurso: o corpo do texto era o corpo de quem escreve de quem lê. 

Ana Luísa Amaral, autora e professora portuguesa, em sua obra Arder a palavra e outros incêndios (2019), explica: "o livro denuncia claramente situações discriminatórias que passam pelo sexo e pela sexualidade, o que integra as páginas ao movimento LGBTQ+. A obra desestabilizou centros e tratou sobre as margens, desmantelando o heterossexismo, a ordem patriarcal e os dualismos aos quais a sociedade se constrói"

Hoje as novas cartas são consideradas como parte de “um novo discurso crítico sobre a re/apresentação, a subjetividade e o desejo da mulher, desempenhando a função de definir o feminismo”, como afirma Ana Luísa Amaral.

50 anos depois

Hoje apenas uma das três marias ainda está viva, a poetisa (sim, poetisa, a autora insiste em não abdicar-se do termo) Maria Teresa Horta. Aos 84 anos, foi condecorada pelo presidente da república de Portugal com a Ordem da Liberdade no dia 21 de abril de 2022, dia em que se comemorou os 50 anos da publicação das Novas Cartas Portuguesas, sendo que o título também foi entregue postumamente às famílias de Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa.

Também como parte das comemorações do aniversário da obra, em Portugal agora temos a peça "Ainda Marianas", escrita por Catarina Rôlo Salgueiro e Leonor Buescu, que tem como base o livro que desafiou a ditadura, uma homenagem e vingança das autoras que também são retratadas na peça. As três marias foram homenageadas no último ano pelo Museu do Aljube, com a exposição "Mulheres e Resistência - Novas Cartas Portuguesas e outras lutas"

No entanto, em entrevista no início do ano de 2022, Teresa Horta afirmou: “Temos de lutar. Nada está ganho ainda”

Referências

  • Novas Cartas Portuguesas (Maria Isabel Barreno; Maria Teresa Horta; Maria Velho da Costa)
  • Arder a palavra e outros incêndios (Ana Luísa Amaral)
  • Breve Introdução (Ana Luísa Amaral)

Juliana Toivonen
Licenciada em Letras pela Universidade Federal de São Paulo. Entusiasta da literatura de autoria feminina e do resgate de vozes e narrativas perdidas. Pesquisadora na área da literatura portuguesa. Publicou o livro "palavras roubadas de mulheres mortas" pela Margem Edições em 2021.

Comentários

Formulário para página de Contato (não remover)