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A psicanálise, o fantástico e o pós-guerra na ficção de Sylvia Plath


Sabemos hoje que Sylvia Plath é conhecida como uma das maiores poetas do pós-guerra. No entanto, o reconhecimento de sua genialidade só surgiu postumamente. Depois de anos lutando por publicações de seus poemas em revistas, e sendo rejeitada, Plath morreu achando que seu trabalho era medíocre. Ela foi um dos inúmeros gênios de nosso mundo cujo trabalho só foi explorado depois da morte. Com a morte de Plath, houve uma urgência para satisfazer o interesse do público sobre aquela mulher que se matou inalando gás butano; e só então sua poesia, sua prosa e seus diários foram publicados. 

Foi a publicação de Ariel, sua coletânea de poemas escrita meses antes de sua morte, que lhe deu a alcunha de poeta genial. Seu único romance escrito, A Redoma de Vidro, que havia sido publicado anteriormente com o pseudônimo de Victoria Lucas, se tornou instantaneamente um clássico da literatura norte-americana, mesmo que Sylvia Plath não tivesse planos de publicá-lo em solo estadunidense. 

Mesmo com a prova de que era uma excelente escritora de textos em prosa, os responsáveis por cuidar do legado de Plath e editar seu trabalho (seu ex-marido Ted Hughes e a irmã dele, Olwyn), optaram por colocar o maior destaque em sua produção poética. Para eles, foi com as poesias de Ariel que Sylvia Plath havia, finalmente, alcançado o seu verdadeiro eu artístico. Sendo assim, sua extensa produção em prosa (contos, ensaios, artigos) foi jogada à margem de seu cânone, e algumas obras permanecem até hoje guardadas em bibliotecas universitárias, sem publicação para o grande público. 

Algumas de suas produções em prosa foram publicadas pela primeira vez em 1977, doze anos após as publicações de três coletâneas de suas poesias — a já mencionada Ariel, Crossing the waters e Winter trees —, sob o título Johnny Panic e a Bíblia dos Sonhos. Aqui no Brasil, essa coletânea foi publicada em 2020, em uma edição caprichosa pela editora Biblioteca Azul, com excelente tradução de Ana Guadalupe.

Na introdução da coletânea escrita pelo ex-marido, Ted Hughes, vemos sua tentativa de tentar guiar nossa leitura ao afirmar que os textos que leremos não passavam de meras tentativas de uma escritora tentando achar sua voz. Ao fazer isso, Hughes busca fazer com que não levemos a sério a prosa de Sylvia, pois somente sua poesia alcançou a genialidade que ela tanto buscou em vida. Na introdução, ele diz que: 

“É certo que Sylvia renegou vários dos contos aqui reunidos, de forma que são hoje publicados contra sua vontade. Deve-se levar isso em conta. Mas, apesar de seus óbvios defeitos, são contos suficientemente interessantes em si mesmos, mesmo que apenas como notas de sua autobiografia íntima. [...] Sem dúvida, um dos defeitos desses contos mais fracos é o fato de ela não se permitir ser suficientemente objetiva.”

Ao dizer que a própria Sylvia rejeitou seus escritos em prosa, ele tenta justificar o porquê também devemos rejeitá-los. O fato é que Sylvia rejeitou seus textos porque não acreditava que eles eram bons o suficiente. Ela passou boa parte de sua vida escrevendo contos para revistas; alguns foram aceitos e outros rejeitados pelos editores. Mas uma de suas ambições era a de ser publicada por periódicos e revistas como a New Yorker, e essa sua humilde ambição a motivava a continuar a escrever. Dizemos humilde, porque para muitos críticos de literatura, a vontade de Sylvia de querer escrever textos para revistas era algo que a limitava artisticamente, pois exigia-se um padrão de escrita, e fazia-se por dinheiro. É este pensamento que permeia a opinião de Ted Hughes sobre a prosa de Sylvia Plath, que a considera esteticamente inferior, pois foi produzida para esses veículos de literatura popular. Sim, ela gostaria de ser uma escritora de revistas e ganhar a vida com isso. Ela escreveu em seu diário: 

“A grande falha da América... é... expectativa de conformidade... fico horrorizada ao expressar o sonho americano de um lar e filhos... devo trabalhar por uma serenidade e estabilidade interiores que... não dependem de um endereço de rua ao longo da vida a uma curta distância de um supermercado americano... Ironicamente, eu tenho meu próprio sonho, que é meu, e não o sonho americano. Quero escrever histórias de mulheres engraçadas e ternas.”

Em um ensaio sobre a coletânea de contos em questão, a autora Margaret Atwood comentou sobre a ambição de Sylvia Plath em querer tornar-se uma jornalista de turismo e escritora de revistas com conteúdos destinados às donas de casa. Ela diz que a preciosidade dos contos de Johnny Panic e A Bíblia dos Sonhos é justamente “destruir de vez a ideia romântica da genialidade que brota feito uma flor”. Plath trabalhou arduamente sua escrita nesses contos que seriam publicados em revistas populares, e tal exercício certamente contribuiu para a aperfeiçoação e criação de sua poesia. Como bem aponta Atwood: “Sylvia Plath só ficou famosa depois de morrer. Esses textos foram escritos por uma escritora jovem e desconhecida que tinha deixado de ser estudante para, quase sem intervalo, ganhar outra posição subordinada: a de esposa de um poeta que já era reconhecido como nova promessa da literatura. Suas tentativas desesperadas de escrever textos que fossem dignos de publicação eram tentativas de se afirmar como uma pessoa de verdade, uma mulher adulta merecedora em um mundo que até então tinha falhado em reconhecê-la”. Sylvia viveu boa parte de sua vida sentindo-se contraditória por ansiar ser uma escritora, mãe e boa esposa. E por acreditar que falhara nessas três ambições, ela tirou a sua própria vida. 

Johnny Panic e a Bíblia dos Sonhos é perfeito para quem já teve contato com a obra de Sylvia Plath e gostaria de se aprofundar ainda mais no universo plathiano. Através dos contos, ensaios e excertos de seus cadernos encontramos elementos conhecidos por quem já leu suas obras mais célebres, como Ariel e A Redoma de Vidro. Assim, em Johnny Panic temos toda a mitologia criada por Plath, como o suícidio, as terapias com eletrochoque, a opressão do ambiente hospitalar, o mar, a adorada figura paterna, a solidão feminina, a agonia da maternidade, a submissão do casamento e a ansiedade de ser jovem em um mundo pós-guerra. Essa coletânea também reforça a dificuldade de não associar a vida pessoal de Sylvia com sua obra. A escritora fazia questão de anotar suas vivências e tudo o que via ao seu redor na esperança de que algo servisse de inspiração para a criação de suas histórias. E é aí que percebemos o motivo de sua escrita ser tão singular: porque Sylvia era singular. Sendo assim, sua obra não poderia ter outra característica, visto que possui um alto teor autobiográfico. 

Nosso objetivo a partir de agora é mostrar como os contos de Sylvia Plath também estavam no mesmo patamar de genialidade que sua poesia. Escolhemos o conto que nomeia a coletânea para apresentar nossas ideias, no qual Plath discorre sobre teorias da psicanálise, o fantástico, o contexto pós-guerra dos anos 1950 e suas próprias experiências de vida na criação de uma narrativa curta, mas avassaladora. 

O conto “carro-chefe” da coletânea, Johnny Panic e a Bíblia dos sonhos, é uma narrativa que apresenta elementos fantásticos. Conta a história de uma secretária-assistente do departamento psiquiátrico de um hospital cuja função é anotar os sonhos dos pacientes que vão até a clínica em busca de tratamento para suas perturbações mentais. Muitos dos sonhos descritos pelos pacientes nesse conto foram registrados pela própria Sylvia Plath quando ela foi datilógrafa na seção psiquiátrica do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, durante o outono de 1958. No conto, podemos notar a clara influência do interesse de Sylvia pela psicanálise, principalmente, pelo trabalho de Sigmund Freud, cujos livros foram encontrados em sua biblioteca. 

“Bem, daqui do meu lugar, concluí que o mundo é governado por uma coisa só. O pânico com cara-de-cão, cara-de-diabo, cara-de-bruxa, cara-de-puta, o pânico com letras maiúsculas que nem cara tem — é sempre o mesmo Johnny Panic, seja acordado ou adormecido.”

A entidade descrita como Johnny Panic, que governa o mundo todo descrita pela narradora, pode ser considerada como uma alegoria ao pânico que dominava a sociedade estadunidense no contexto pós-Segunda Guerra Mundial. Nos anos 1950, os Estados Unidos era dominado por um sentimento paranoico de perseguição comunista, que começou com a ultrapassagem da Rússia na construção de uma bomba atômica de enorme escala. Isso colocou abaixo o sentimento de segurança dos Estados Unidos, pois eles acreditavam que a Rússia só seria capaz de lhes ultrapassar se espiões estivessem infiltrados no país para roubar o segredo de sua bomba atômica. O sentimento de vulnerabilidade e medo da morte, somados às sequelas da guerra, tomou conta do país inteiro, e assim o pânico estava instalado. 

No conto, a narradora revela que escrever os sonhos daqueles pacientes em sua bíblia dos sonhos era a sua verdadeira vocação. E aqui Sylvia acena para nós novamente, pois, não seria essa a verdadeira vocação do escritor? A de narrar os medos e as ansiedades da sociedade de seu tempo? Pegando o pensamento de Jean-Paul Sartre no ensaio “Que é Literatura?”, podemos dizer que é responsabilidade do escritor tomar uma posição em relação ao mundo, possuir engajamento político e comunicar sobre a realidade que nos cerca. Nas palavras de Sartre, “o escritor decidiu desvendar o mundo e especialmente o homem para os outros homens, a fim de que estes assumam em face do objeto, assim posto a nu, a sua inteira responsabilidade”.

Sylvia assume a posição de comunicadora de sua realidade ao denunciar o horror originado na guerra e seus danos irreversíveis no espírito e na psique da humanidade. Com a criação da bomba atômica, o medo constante da morte se tornou algo cotidiano. A guerra também serviu para mostrar que Deus havia nos abandonado e nos deixado para sofrer com o mal causado pelo próprio homem. Em seu ensaio O mal-estar na civilização, Freud fala que nosso sofrer é originado a partir de três lados: do nosso próprio corpo, pois sabemos de seu declínio e vulnerabilidade perante a dor e o medo; do mundo externo, que pode se abater sobre nós com forças poderosíssimas e destruidoras, como é caso da bomba atômica; e, por fim, das relações com os outros seres humanos, como, por exemplo, a relação traumática com a nossa família, uma instituição que existe para nos amar e proteger, mas que na maioria das vezes é a maior causa do nosso sofrer. 

Em Johnny Panic, Sylvia destaca esse mal-estar sentido pelo homem pós-industrial perante as inovações tecnológicas que, em tese, deveriam ser uma fonte de segurança e conforto. 

“Hoje em dia muitas pessoas sonham que são esmagadas ou devoradas por máquinas. São aquelas figuras que não andam de metrô nem de elevador. Quando volto do meu horário de almoço no refeitório do hospital, muitas vezes passo por elas, ofegantes, subindo as escadas encardidas para chegar ao nosso consultório no quarto andar. Às vezes me pergunto que sonhos as pessoas tinham antes de os rolamentos e os moinhos de algodão serem inventados.”

É o conhecimento da vulnerabilidade de nosso próprio corpo e o medo da morte que nos faz temer a tecnologia. Sendo assim, nossa miséria se origina naquilo que chamamos de civilização. Como aponta Freud, "seríamos bem mais felizes se a abandonássemos [a civilização] e retrocedermos a condições primitivas. A asserção me parece espantosa porque é fato estabelecido — como quer que se defina o conceito de civilização — que tudo aquilo com que nos protegemos da ameaça das fontes do sofrer é parte da civilização”.

Ou seja, criamos a bomba atômica para nos proteger, mas, ao mesmo tempo, acabamos por criar outra fonte de aflição ainda maior. E é nessa espiral pandemônica que se encontra o que chamamos de civilização, a causa do nosso sofrer. 

Não é possível negar a influência de A Interpretação dos Sonhos, de Freud, nesse conto. O próprio título e a vocação da narradora nos levam a essa constatação; ela, inclusive, nos dá uma pista ao se referir a “colecionadores de sonhos de olhos fundos e barba cheia que vieram antes de mim”. Para Freud, os sonhos são resultados de desejos reprimidos que tentamos ocultar e que nosso consciente continua a manifestar. Ou seja, tudo aquilo que reprimimos fica guardado no nosso consciente, e pode continuar a nos afetar através dos sonhos. É difícil decifrarmos os nossos sonhos, visto que nosso subconsciente produz atmosferas surrealistas nas quais pouca coisa faz sentido. É o psicanalista que vai nos ajudar a desvendar nossos temores ocultos por trás dos nossos sonhos, como relata a narradora de Johnny Panic sobre um dos pacientes: 

“Esse cara, bom católico que era, jovem e direito e tudo o mais, tinha um tremendo medo da morte. Na verdade, morria de medo de ir para o inferno. Era remunerado por peça numa fábrica de lâmpadas fluorescentes. Eu me lembro desse detalhe porque achei engraçado que esse fosse seu emprego, tendo tanto medo do escuro quanto ele tinha, como depois se descobriu. Johnny Panic confere a esse trabalho um elemento poético que não se encontra por aí. E por isso eu lhe serei eternamente grata.”

Podemos ver que os sonhos revelam nossas contradições, o aquilo que tememos que outros descubram. Aquele rapaz era católico, mas tinha medo de ir para o inferno, então, pode-se supor que suas atitudes ou pensamentos se desviavam da norma cristã ou ele simplesmente tinha perdido a fé em Deus depois de ter visto o mal à solta no mundo. De qualquer modo, são apenas suposições, pois nunca seremos capazes de verdadeiramente decifrar nossa mente ou a de outras pessoas. 

Perto de seu desfecho, o conto vai sutilmente tirando seus pés da realidade e a colocando em suspensão. Como uma forma de acalentar sua obsessão por sonhos, a narradora decide passar a noite no hospital para anotar os sonhos que constam em livros grossos e antigos da clínica. Claro que se trata de uma atividade ilegal, pois ela não tem autorização para mexer nesses registros. Enquanto ela está lá, lendo e anotando sonhos macabros que incluem cabeças de mães decepadas, sua atividade é interrompida por um ar gelado que toca sua nuca e a irradiação de uma luz azul que indica o surgimento do sobrenatural na narrativa. 

Toda narrativa fantástica estabelece um pacto ficcional com o leitor. Desde o começo, aceitamos sem questionar tudo o que o narrador (nesse caso, a narradora em primeira pessoa) nos conta; e  situa as narrativas em ambientes iguais ao do mundo real, do mundo do leitor (nesse caso, o hospital psiquiátrico), com todas as leis imutáveis da realidade que conhecemos. O que vai transgredir essas leis da realidade é justamente a aparição do sobrenatural na narrativa, pois a literatura fantástica é o único gênero literário que não pode funcionar sem a presença do sobrenatural. O fato de Sylvia Plath ter trabalhado nessa mesma função em uma ala psiquiátrica colabora ainda mais para fortalecer a verossimilhança da narrativa. E é da verossimilhança que o fantástico necessita, só para depois desfazê-la em pedaços junto com as nossas convenções. 

Quando a narradora percebe a estranheza no ar, já é tarde demais. Ela é encontrada por um homem que ela crê ser o diretor clínico e levada para além dos corredores, sem saber o que a espera, coisa que nem nós, leitores, sabemos, pois estamos vendo tudo sob seu ponto de vista. Observamos a realidade se desfazendo juntamente com a narradora, até chegar em um ponto em que tudo se assemelha a um sonho, tudo é estranho quando atravessamos a fronteira do real junto da narradora. Ela é capturada por "sacerdotes com jalecos cirúrgicos brancos e máscaras cujo único objetivo é destituir Johnny Panic de seu trono.” Os sacerdotes vêm trazendo uma caixa de metal com fios elétricos, mostradores e medidores, à qual ela chama de “Assassina-de-Johnny-Panic”. É aqui que percebemos, com terror, que ela está prestes a ser submetida a um tratamento com eletrochoque, experiência vivenciada por Sylvia Plath e seu alterego Esther, de A Redoma de Vidro

A narrativa chega a um ponto em que não conseguimos ter certeza se o que está acontecendo é realidade ou fantasia. A narradora está mesmo acordada ou tendo um pesadelo? De qualquer forma, a descrição da situação é nauseante e desesperadora: 

“Me fazem ficar de barriga para cima, estendida na maca. A coroa de arame é colocada sobre a minha cabeça e a hóstia do esquecimento sobre minha língua. [...] No momento em que penso estar perdida, o rosto de Johnny Panic aparece numa auréola de lâmpadas e arco lá no teto. Estremeço como uma folha nos dentes da glória. A barba dele é relâmpago. O relâmpago está em seu olho. A sua Palavra liberta a descarga elétrica e ilumina o universo. O ar crepita com seus anjos de língua azul e halo de raio. Seu amor é o salto de vinte andares, a corda no pescoço, a faca no coração. Ele jamais esquece os seus.”

Vemos que Sylvia evocou a teoria de “O Estranho” (Das Unheimliche), de Freud, nesse ponto da narrativa. Para o psicanalista, o estranho (unheimlich) é algo que era familiar (heimlich), e sofreu repressão. O resultado dessa repressão do que era familiar para nós constitui o estranho. Como comentado anteriormente, Sylvia trabalhou como datilógrafa no departamento de psiquiatria de um hospital. Antes disso, ela havia sido diagnosticada com depressão depois de uma tentativa de suícidio, e submetida a diversas terapias com eletrochoque (nos anos 1950, o tratamento efetivo com medicamentos antidepressivos ainda não havia sido desenvolvido), que a levaram a desenvolver insônia crônica e a piorar seu estado depressivo. Então, podemos dizer que o ambiente hospitalar se constituía como um local estranho para ela; era familiar, mas ao mesmo tempo repressor, uma fonte de lembranças e momentos ruins. E tal ambiente, depois de tudo, ainda se tornou seu local de trabalho, potencializando o efeito do estranho. Para a sua personagem foi o contrário: seu local de trabalho se transmutou em um ambiente de opressão, portanto, estranho. De repente, ela era mais uma serva de Johnny Panic. Não sabemos dizer se ela estava alucinando, tendo um pesadelo ou realmente vivenciando aquilo. O propósito de uma narrativa fantástica é ser ambígua, sempre deixar a dúvida pairando no ar, e o conto de Sylvia Plath cumpre esse propósito. 

Sylvia usa o fantástico estranho para relatar os horrores de seu tempo, que ela mesma sentiu na pele, pois tal gênero tem uma estreita relação com as teorias e crenças de uma época. Como bem aponta David Roas em A ameaça do fantástico

"A literatura fantástica traz à luz da consciência realidades, fatos e desejos que não podem ser manifestos diretamente porque representam algo proibido que a mente reprimiu ou porque não se encaixam nos esquemas mentais em uso e, portanto, não são passíveis de racionalização. E faz isso da única maneira possível, por via do pensamento mítico, encarnado em figuras ambíguas tudo aquilo que em cada época ou período histórico é considerado impossível (ou monstruoso)."

A literatura fantástica utiliza os monstros e os fantasmas para representarem o horror presente na nossa realidade. Ela lida com os tabus de uma época e por isso é incômoda. Sylvia Plath compreendeu isso ao construir uma narrativa na qual abordou a saúde mental, a crueldade dos tratamentos com eletrochoque e o pânico pós-guerra, que eram assuntos extremamente interditos naquela época. Assuntos que as pessoas preferiam ignorar, mas que nem por isso deixavam de existir. Eles estavam lá, latejando. Certamente Sylvia se sentia inspirada enquanto lia as obras de Virginia Woolf e Henry James, autores que também produziram uma literatura com pé no fantástico. Inclusive, Henry James é o autor de A Outra Volta do Parafuso, considerada a obra que inaugurou a literatura fantástica. 

Sylvia trabalhava em sua escrita com afinco, e Johnny Panic e a Bíblia dos Sonhos é um dos contos que representa a dedicação da escritora. A afirmação de que seus contos são inferiores a sua poesia é totalmente injusta. Sylvia imprimiu sua alma nesse e em outros de seus contos, assim como o fez com suas poesias. Vemos aqui sua preocupação em não somente relatar suas vivências pessoais, mas também as de outras pessoas, afinal, todos acabam por respirar o mesmo medo que paira no ar e todos nós somos visitados por Johnny Panic durante a noite. 


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Referências


Arte em destaque: Caroline Cecin
Milena
1997. Maranhense de nascença e piauiense de coração. Estudante de letras, mãe de planta e filha perdida da Mary Shelley. Também é o tipo de pessoa que não sai de casa sem levar um livro na bolsa.

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