últimos artigos

Circe: o retrato da autoconsciência feminina

“Deixe-me dizer o que a magia não é: não é poder divino, que vem com um pensamento e um piscar de olhos. Deve ser feita e trabalhada, planejada e procurada, desenterrada, secada, fatiada e moída, cozinhada, encantada e cantada. Mesmo depois de tudo isso, pode falhar, ao contrário dos deuses.”

A primeira aparição de Circe nos mitos gregos se deu em Odisseia, poema épico de Homero. Na obra, a personagem é descrita como uma “fera deusa de humana voz” que vive sozinha na ilha de Eana, onde estuda e desenvolve variados tipos de venenos e encantos. Em um dos capítulos, ela seduz Odisseu até sua casa e, oferecendo-lhe uma taça de vinho, tenta transformá-lo em um porco, assim como havia feito com o resto da tripulação do herói. A sagacidade do protagonista, entretanto, impede que o feitiço seja consumado e, sob ameaça de morte, Circe acaba implorando-o por misericórdia. 

Neste texto, contudo, não discorreremos sobre Circe, a ninfa derrotada de Homero; mas Circe, a feiticeira multifacetada e intrinsecamente humana de Madeline Miller. Separadas por quase três mil anos, o contraste entre as obras, a primeira sob a perspectiva masculina e a segunda, feminina, é estridente. 

Além de moderna e envolvente, a versão de Miller, autora do aclamado A Canção de Aquiles, trouxe à tona o potencial da bruxa e possibilitou a ressignificação de sua história – que, se ao menos tivesse sido escrita por uma mulher desde o princípio, a teria transformado em uma das personagens mais emblemáticas de todos os tempos. Em Circe: Feiticeira. Bruxa. Entre o castigo dos deuses e o amor dos homens., esse vislumbre ganha vida e, depois de milênios de espera, somos presenteados com o passado, o presente e o futuro da bruxa.

“Quando nasci, o nome para o que eu era não existia. Chamavam-me de ninfa, supondo que eu seria como minha mãe e tias e milhares de primas. Essa palavra, ninfa, marcava a extensão e a amplitude de nosso futuro. Em nossa língua, significa não apenas deusa, mas também noiva.”

A partir do momento em que veio ao mundo, Circe é uma decepção para todos que a cercam. Primeira filha do titã do sol, Hélio, com a ninfa Perseis, o desprezo dos pais é nítido assim que o livro começa.

A indiferença da mãe em relação à primogênita partiu do presságio de que Circe estava predestinada a se casar com um príncipe mortal, o que era uma ofensa àqueles com vida eterna. Assim, no decorrer da infância, ela vive às sombras dos irmãos mais novos, Pasifae, Perses e Aietes, descritos como mais belos, mais poderosos e mais ambiciosos do que ela.

“Adoravam zombar de mim por trás de suas patas de arminho. ‘Os olhos dela são amarelos como mijo. Sua voz é como o guincho de uma coruja. Ela se chama Gavião, mas devia chamar-se Cabra, de tão feia que é’. Essas foram suas primeiras tentativas de farpas – ainda cegas, mas a cada dia se tornando mais afiadas.”

Um dos pontos altos da juventude de Circe é quando conhece o pescador Glauco, que, despropositadamente, desembarca na praia que a deusa costumava frequentar. Encantado pela sua generosidade e beleza, ele passa a visitá-la constantemente e, à medida que as conversas entre os dois fluem, Circe se vê completamente entregue ao mortal. A fim de viver para sempre ao lado do rapaz, ela faz o uso de “flores mágicas”, com a intenção de transformá-lo em um deus. O feitiço dá certo; entretanto, somente mais tarde, ela compreende que a origem do poder que consentiu a imortalidade ao pescador partiu, na verdade, de si própria.

Essa fase da história é baseada no poema romano de Ovídio, Metamorfoses, que, novamente, retrata a deusa como uma figura cruel e inconsequente. Na história original, Glauco pede à deusa que crie uma poção capaz de fazer com que a ninfa Cila, conhecida por sua beleza exorbitante, apaixone-se por ele. Ela aceita o pedido do mortal, mas acaba desenvolvendo sentimentos pelo mesmo. Como consequência, Circe, enciumada, cria um veneno no lugar do encanto, transformando Cila em uma criatura horrenda e maléfica.

Circe invidiosa, de John William Waterhouse (1892)

Na releitura, podemos acompanhar esse mesmo conto pelo olhar ingênuo e carente da protagonista. É impossível, nesse caso, não simpatizar com ela e entender as razões que motivaram tal ato. É como se a autora estivesse, entre as linhas que narram a impulsividade e a paixão selvagem de Circe, questionando o seu leitor: afinal, quem de nós nunca foi vítima de uma ilusão, amorosa ou não, ou agiu influenciado pela intensidade de seus sentimentos? 

Apesar dessa primeira identificação assertiva que temos com a deusa, a tentativa de humanizá-la se concretiza apenas alguns momentos depois, quando, acusada de praticar bruxaria, é intimada por Zeus a deixar sua casa e viver sozinha em uma ilha deserta.

“Era isto que significava o exílio: ninguém estava vindo, ninguém jamais viria. Havia temor naquele fato, mas depois da minha longa noite de terrores, parecia pequeno e irrelevante. O pior da minha covardia fora suado durante a noite. Em seu lugar havia uma fagulha de empolgação. Eu não serei como um pássaro criado em uma gaiola, pensei, entorpecido demais para voar mesmo quando a porta está aberta.

Entrei naquela floresta e minha vida começou.”

É na ilha de Eana que, enfim, conhecemos a verdadeira Circe. Longe das humilhações da família, ela se descobre como uma poderosa bruxa, capaz de se comunicar com animais e encantar ervas. Impossibilitada de ir para qualquer outro lugar no mundo, ela transforma os ricos jardins e as águas tropicais daquela pequena terra em um lar, refletindo sobre os diversos momentos que a fizeram chegar até ali. 

Antes atormentada pela exclusão que viveu na infância, sua versão adulta encontra paz na solitude que a cerca. Por milênios, Circe conviveu com as crueldades que todos à sua volta diziam sobre ela, o que a impediu de formar opiniões a respeito de si mesma. Mas agora, tendo uma leoa de estimação como sua única companhia, a personagem passa a perceber os limites não só de seus poderes como de suas emoções. Ainda que restringida pelas fronteiras daquela ilha, ela abraça sua independência e se enxerga, pela primeira vez, com os seus próprios olhos. 

Circe, por Wright Barker (1889)

Essa outra faceta de sua solidão, que a torna uma criatura capaz de extraordinários feitos, fica ainda mais explícita quando marinheiros começam a desembarcar na ilha. Antigamente, Circe ansiava por companhia, buscando a amizade verdadeira em qualquer um que lhe desse o mínimo de atenção, vide o relacionamento desastroso com Glauco. Ironicamente, após finalmente encontrar conforto na quietude de seu novo lar, desconhecidos insistiam em bater na porta de sua cabana sem que fossem chamados.

No início, a deusa ficava entusiasmada com tais visitas, acolhendo os tripulantes com comida e moradia por tempo indeterminado. Sua gentileza, porém, não era capaz de controlar os hormônios enfadonhos dos homens mortais, que abusavam de sua anfitriã. Como forma de preservar seu corpo do assédio, ela passou a oferecer vinho a seus visitantes – que, é claro, não poderiam suspeitar que o mesmo estava enfeitiçado para transformá-los em porcos.

“Alguns, tão poucos que posso contar nos dedos, eu deixei partir. Eles não me viam como seu jantar. Eram homens devotos, sinceramente perdidos, e eu os alimentava – e se havia algum belo entre eles, até o levava para a minha cama. Não era desejo, nem um pouco. Era um tipo de fúria, uma faca que eu usava sobre mim mesma. Fazia isso para provar que minha pele ainda era minha.”

A facilidade com que Miller descontrói a vilania de Circe é, no mínimo, intrigante. Apesar de ser a heroína dessa história, ela não é uma mocinha indefesa, tampouco uma alma sagaz e sem coração. Circe é a representação perfeita da dualidade humana: nem boa, nem ruim – e é isso que a torna tão cativante. Não precisamos de justificativas comoventes de seus males para adorá-la. Em vez disso, perdoamos os seus erros e os vemos como são: uma consequência do trauma originado pela constante rejeição e pelo medo que a perseguiram durante a juventude. 

“Tinha caminhado pela terra por cem gerações, mas ainda era uma criança para mim mesma. Fúria e luto, desejo frustrado, luxúria, autocomiseração: essas são emoções que os deuses conhecem bem. Mas culpa e vergonha, remorso, ambivalência – esses territórios nos são estrangeiros e devem ser aprendidos pedra a pedra.”

Circe offering the cup to Odysseus, de John William Waterhouse (1891)

Apesar do cenário ser quase sempre o mesmo, a passagem de figuras importantes da mitologia grega torna a vida monótona da feiticeira em uma verdadeira aventura. Conhecemos o deus Hermes, filho travesso de Zeus, e sua irmã, a imbatível Palas Atena; Dédalo, o impecável inventor que construiu o labirinto para o temido Minotauro; temos uma pequena aparição de Apolo; e, é claro, mergulhamos na história de Odisseu, que, aqui, assume o posto de coadjuvante. Esses e outros excertos da literatura grega fazem com que o segundo livro de Miller seja um regalo aos apreciadores do tema, e uma prazerosa iniciação àqueles que não são familiarizados com o assunto.

Ainda assim, o que realmente chama a atenção na trajetória de feiticeira é algo que vai além da habilidade da autora de adaptar, com tanta destreza, uma história antiga. É como se, em uma única personagem, ela espelhasse todas as mulheres: Circe é romântica, sábia, ingênua, frágil, forte, corajosa, preocupada, sedutora, mulher, criança – tudo ao mesmo tempo. Sua caminhada em direção ao autoconhecimento é linda e angustiante; mas, mais do que isso, um abraço apertado em todas que já se sentiram deslocadas, rejeitadas ou perdidas em seus próprios caminhos.

Existe uma esperança silenciosa no coração de todo leitor que, depois de dezenas de capítulos acompanhando-a lidar com a falta de validação emocional de deuses e de titãs, testemunha a aceitação de Circe em relação a sua imperfeição – o que a torna superior, em muitos aspectos, daqueles que se dizem invencíveis.


Se interessou pelo livro? Você pode comprá-lo clicando aqui!

(Participamos do Programa de Associados da Amazon, um serviço de intermediação entre a Amazon e os clientes que remunera a inclusão de links para o site da Amazon e os sites afiliados. Ao comprar pelo nosso link, você não paga nada a mais por isso, mas nós recebemos uma pequena porcentagem que nos ajuda a manter o site.)


Arte em destaque: Mia Sodré

Caroline Cecin
Nascida no verão de 1998 em Mogi das Cruzes. Jornalista e mãe de gato em tempo integral. Apaixonada por palavras, escritoras do século XIX e cantoras dos anos 1970.

Comentários

  1. Ótima descrição. Parabéns e obrigada pelo texto!
    Acabei de ler o livro e já entrou para os meus favoritos desde os primeiros capítulos 💜

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fico muito feliz que tenha gostado! Esse livro ocupa um lugar extremamente especial no meu coração. <3

      Excluir

Formulário para página de Contato (não remover)