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Rebecca: a busca pela autoafirmação da mulher

Rebecca - A mulher inesquecível foi escrito por Daphne du Maurier em 1938 e conta os misteriosos eventos que acompanham Mrs. de Winter, uma jovem e imatura acompanhante que, após casar-se com o rico Maxim de Winter durante uma viagem a Monte Carlo, passa a se sentir assombrada pela presença de sua falecida esposa quando chega à residência do casal.

Apesar de Rebecca proporcionar grandes análises sobre psicologia, sexualidade e até mesmo gênero, essa trama nos oferece muitos outros pontos para análises e, principalmente, questionamentos. Um deles é sobre como a autora deixa algumas lacunas a respeito de sua personagem principal, Mrs. de Winter. Muitas pessoas acreditavam que isso se dava ao fato de, na verdade, Mrs. de Winter ser a própria Daphne, mas algumas passagens no livro nos fazem perceber que talvez exista algo mais profundo do que tal explicação. Enquanto Mrs. de Winter nunca revela seu nome, Rebecca esconde de todos o seu sobrenome de solteira. Por quê?

Mrs. de Winter é uma narradora que nos oferece pouquíssimas informações sobre si. O mais próximo que temos de realmente conhecê-la situa-se no início da narrativa, quando ela, já madura, agradece a mudança que sofreu em sua vida, deixando de ser a jovem insegura que era ao se casar. Apesar de nos falar um pouco sobre seus gostos e algumas informações sobre seus pais, tudo é muito superficial e não temos nem a chance de saber seu nome. O pouco que sabemos é que ela não gostava de o dizer porque as pessoas sempre o escreviam errado, e que Maxim o adorava pela forma doce de sua pronúncia.

Após a publicação de Rebecca, surgiu um burburinho sobre essa ocultação de Daphne em relação a sua heroína, e não demorou muito para algumas teorias nascerem. A principal delas foi a de que o livro se tratava de uma história quase autobiográfica, e por isso Daphne não revela o nome de sua protagonista. Mesmo nada sendo confirmado, uma passagem do diário de Du Maurier dez anos antes de escrever Rebecca reforçou a crença de que Mrs. de Winter na verdade era a própria autora. Nesse relato, Daphne lamenta ser tão comum quando o que realmente desejava era ser mais ousada e viajante, mostrando uma semelhança com a dualidade que criou entre suas personagens principais no romance.

“É uma pena que eu não seja uma pedinte na face da Terra. Perambulando por cidades estranhas, terras estrangeiras, espaços abertos, lutando, bebendo, amando fisicamente. E aqui estou eu, apenas uma garota tola protegida em um vestido, sem saber absolutamente nada - mas Nada.”

Se esse trecho de seu diário influenciou Daphne em sua escrita, nunca saberemos, mas também podemos crer que a autora ocultou o nome da narradora por um motivo bem maior e importante na trama: enquanto uma esposa era confiante e não deixou seu casamento interferir na vida que sempre teve, a outra era o extremo oposto, e só começou a realmente viver e ser quem sempre sonhou após ele, e é por esse motivo que o uso dos nomes dessas personagens se torna tão importante na dinâmica de diferenças entre ambas.

O lenço com o monograma de Rebecca

Mrs. de Winter realmente amava o marido, isso fica claro, mas durante alguns trechos do livro não é difícil perceber que além de desejar ser uma esposa perfeita – assim como todos falavam que Rebecca foi –, a narradora lutava de forma quase obsessiva por seu desejo inconsciente de infância: Manderley. A personagem possuía uma foto da mansão que viria a ser sua residência (obtida por acaso) desde criança. A partir de então, apaixonou-se pelo lugar, mesmo sem tê-lo visitado. Não é por menos que ela já inicia o livro falando de Manderley, e mesmo depois de anos ainda sonha com ela. Sua obsessão em relação a Rebecca sempre vinha acompanhada da insegurança a respeito de Maxim ainda pensar nela. Mas, acima de tudo, ela era atormentada por acreditar que a presença da outra ainda estava em todos os cantos daquele lugar, tirando dela a chance de também o chamar de seu.

Outro ponto que reforça ainda mais esse desejo de ser a única senhora do local é quando Maxim faz uma declaração a sua esposa – no momento de maior reviravolta no livro – e conta sobre a relação de Rebecca com ele e com Manderley. Muitas pessoas podem pensar que a reação de Mrs. de Winter foi a de alívio por descobrir que esteve errada esse tempo todo ao duvidar do amor de seu marido, mas, além disso, ela finalmente percebeu que poderia ser ela mesma, e deixar a casa como o lar que sonhava sem precisar se preocupar com a presença de Rebecca, que nunca foi tão forte e positiva quanto pensava.

Manderley

Em alguns momentos podemos nos irritar com a insegurança dessa personagem, mas desde o começo somos colocados de frente com uma pessoa que é rebaixada pela própria patroa e mesmo após se casar acaba carregando isso consigo e não vendo o menor valor em si. Assim, ao não dar um nome à sua personagem, Daphne nos faz entender que nem a mesma acreditava merecer algum tipo de reconhecimento. Em diversos momentos vemos algumas personagens — como sua cunhada ou algum empregado — falarem diferentes elogios, que acabam sendo distorcidos pelo trauma que a mesma carrega, já que Mrs. de Winter sempre os interpreta como uma crítica direcionada a ela. 

No final, se autoafirmar como Mrs. de Winter deixou de ser a armadura na qual se escondia e virou um motivo de orgulho, provando o contrário para quem desacreditou de seu potencial e do amor de Maxim por ela. Mas principalmente, o sobrenome do marido carregava uma forma de provar a si mesma que era capaz de ser amada e confiante nas suas escolhas, sem ser silenciada ou rebaixada por qualquer pessoa à sua volta.

Outro ponto interessante nessa obra e na dinâmica entre as duas esposas é que, diferente da atual Mrs. de Winter, nossa narradora, no caso de Rebecca nunca descobrimos seu sobrenome de solteira.

Desde o começo, percebemos a influência dela em toda a história – não apenas por ter seu nome no título. Apesar de levar algumas páginas para a personagem ser mencionada, ela é onipresente. Feita a primeira menção, sua presença é imposta e recorrente em toda a obra, como se a personagem esperasse continuar forte, desejada e única mesmo depois de morta.

Quando Mrs. de Winter menciona Rebecca pela primeira vez, já ficamos a par das diferenças entre as duas e de como a governanta fazia questão de reforçar isso em seus gestos e falas. Após algumas lembranças que contextualizam todo o ambiente onde a história começa, presenciamos o primeiro contato de Rebecca com Mrs. de Winter e como esse momento foi marcante. Acima de tudo: forte a ponto de iniciar uma estranha obsessão entre a segunda esposa com relação à primeira.

“Li a dedicatória. 'A Max, Rebecca. Maio 17'. Letra interessante, oblíqua. Pequena nódoa de tinta manchava a página branca do lado oposto, como se quem escrevesse tivesse sacudido a pena com impaciência, para soltar a tinta, a qual saíra um pouco espessa, de modo que o nome Rebecca sobressaía negro e forte, o R, decidido e inclinado, dominando as outras letras.”

Ao procurar o significado do nome Rebecca, a definição mais geral é: do hebraico Rivqah, significa “laço” aquela “aquela que une”; já em uma definição mais religiosa, temos em Gênesis uma Rebeca, a esposa de Isaque e mãe de Jacó e Esaú. Era considerada por todos como uma mulher de muita beleza, por esse motivo, muitas vezes o nome Rebecca também pode significar "mulher com uma beleza que cativa e prende os homens".

Rebecca (2020)

Acredito que a escolha do nome de Rebecca não tenha sido em vão. Daphne não esperava nos apresentar apenas uma personagem forte, confiante e com uma personalidade única, mas que isso fosse simbolizado de todas as formas que conseguisse. Sendo assim, procurou dar a Rebecca um nome que realmente representasse tudo o que ela foi em vida.  Um exemplo disso acontece durante um diálogo entre Mrs. de Winter e Frank, o administrador da família.

“Diga-me: era Rebecca muito bonita? - Frank retardou a resposta. Eu não podia ver-lhe o rosto. Estava com olhos não em mim, mas em direção à casa.

— Sim, respondeu lentamente, sim, creio que era a criatura mais linda que jamais vi em minha vida.”

Durante a leitura, parece estranho Mrs. de Winter descrever com tanta ênfase a personalidade e fisionomia de alguém que ela nunca chegou a ver, tratando Rebecca como uma conhecida que tornara-se sua principal rival. Todo o assombro pela caligrafia, na verdade, sempre foi uma jogada muito óbvia de du Maurier sobre o plot de seu livro, ao colocar o Rebecca sozinho ou simplesmente um R se sobressaindo ao W do sobrenome do marido, diferente do que se era esperado de uma mulher naquela época. Isso coloca a nós, leitores – assim como colocava Mrs. de Winter –, de frente com a real personalidade dessa personagem e sua influência em todos à sua volta, tornando sua assinatura mais do que um mero nome em um papel.

Apesar de tudo, Rebecca realmente era uma mulher à frente de seu tempo, e esse era um dos motivos por que encantava a todos. Não seria um casamento que tiraria dela o desejo de continuar a ser e a fazer o que bem entendia; não é por menos que até o título do livro recebe o seu nome e a coloca como alguém inesquecível.

O plágio jogado para debaixo do tapete

Apesar de Rebecca ser um história relevante para quem quer se aprofundar em temas psicológicos e enxergar como a nossa mente pode ser autodestrutiva, dentre outros diversos temas, não podemos deixar passar em branco que a obra é um plágio de um livro nacional, A Sucessora.

Após publicá-lo, em 1934, Carolina Nabuco esperava que seu trabalho atingisse um reconhecimento internacional. Sendo assim, traduziu sozinha seu livro para enviá-lo a diversas editoras nos Estados Unidos. Depois de ter sua história recusada por tais editoras, Carolina não desistiu e buscou uma nova chance ao enviar seu livro traduzido para um agente na Inglaterra; mas, infelizmente, ninguém demonstrou interesse em publicá-lo. Apesar de ter feito certo sucesso por aqui, A Sucessora teve seu auge mesmo em 1938, quando o romance de Daphne du Maurier foi publicado e chegou ao Brasil, causando dúvida entre as pessoas que haviam lido ambos. A questão de como Daphne havia plagiado Carolina não era apenas fofoca sem fundamentos. As semelhanças descaradas entre as obras, que contava com diálogos inteiros iguais, virou notícia não só aqui, através de Álvaro Lins, em 1939, mas também recebeu a atenção de um repórter no The New York Times dois anos depois.

Nesse meio tempo, entre a reportagem de Álvaro Lins e a do The New York Times, o filme Rebecca, dirigido por Alfred Hitchcock, foi lançado, e não é de se espantar que a história sobre o plágio de du Maurier tenha chegado aos seus ouvidos. No diário de Carolina Nabuco, ela relata a tentativa da equipe de Hitchcock em tentar comprar seu silêncio e afirmar que a semelhança entre os trabalhos eram mera coincidência, mas é claro que Carolina não aceitou.

Essa não foi a primeira história sobre um estrangeiro se aproveitando do trabalho de artistas brasileiros (ou de outros países menos desenvolvidos), e infelizmente não será a última. Apesar de todas as evidências, isso não rendeu nenhuma reparação de Daphne a Carolina, e até hoje muitas pessoas desconhecem a existência desse plágio ou desacreditam inteiramente dele, mas isso não é algo de se espantar em um país que exalta mais a cultura estrangeira do que a sua própria. 

Referências 



Arte em destaque: Sofia Lungui

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