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Com ternura, Ana C.

Ler Ana Cristina Cesar é como aceitar um convite para o desconhecido. Comprometer-se com o percurso - o que Silviano Santiago chamou de "contínua travessia para o outro", no lúcido ensaio Singular e anônimo, de 1985 -, no entanto, é uma coisa totalmente distinta, exigente e, a muitos leitores de primeira viagem, espinhosa. Não porque escrevesse com farpas, pelo contrário, Ana C. queria “dar a conhecer” a própria ternura - “só leia se estiver com o coração puro e doce”, escrevia aos nove anos em um livro de poemas. É espinhosa, pois é como se atravessássemos um gramado numa noite escura, em busca de um tesouro entre canteiros de rosas. Nesse caso, nosso tesouro é a alma da poeta.

"olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas"

Para embarcar rumo ao desconhecido, é preciso coragem. Reavivar no próprio coração, já não tão puro nem tão doce, a abertura do tipo que só as crianças têm, que com o passar do tempo vai virando fenda, lesão despercebida, obstruindo quaisquer possibilidades de revolução interna. Ana Cristina é poeta para leitores de primeira e de toda viagem, mas nem de longe é leitura de one-night stand (uma só noite). Para ser guiado por ela, deve-se estar atento (“Se você me ama, por que não se concentra?”) e disposto como uma criança, deixando para trás o arsenal de convicções, e partindo somente com a própria pele e espírito. Para encontrá-la, ao menos em uma dessas viagens, o bom é abandonar a norma e olhar de dentro para fora, para dentro dela. Em outras palavras, estar disposto a ser virado pelo avesso.

Hilda Hilst, sua contemporânea por vezes incompreendida, tem um poema que começa assim: “Se te pareço noturna e imperfeita / Olha-me de novo. [...] / Com menos altivez. / E mais atento”. Um olhar de relance, pelo canto do olho, não basta. Nem ao leitor nem a Ana, que ao escrever a partir de um universo particular, demanda atenção profunda para ser revelada, ainda que parcialmente, mesmo que a compreensão do outro seja sempre do outro. Sua complexidade, com efeito, é menos complexa quando optamos por recebê-la de braços abertos, sem hesitar. Ler Ana C. é como ser Alice em um país ilógico aos olhos do estrangeiro, onde certa dose de insensatez é essencial para manter as engrenagens funcionando. “Não tenho razão de ser nem finalidade própria”, ela confessa em Poema óbvio, “Sou a própria lógica circundante”.

estou atrás

do despojamento mais inteiro
da simplicidade mais erma
da palavra mais recém-nascida
do inteiro mais despojado
do ermo mais simples
do nascimento a mais da palavra

Decifro-te, ou me devoras

Ainda recordo a sensação do meu primeiro contato com Ana Cristina Cesar. Eu era caloura na universidade, sofria de uma sede insaciável por poesia e tinha um interesse peculiar por escritoras mentalmente instáveis, em cujas obras permeiam a inquietação da alma. Foi quando me deparei com uma carioca de cabelos claros, cheios e flamejantes, olhos azuis por trás dos óculos redondos e lábios marrom bordô, recitando um poema de amor chamado Samba-canção: “Tantos poemas que perdi. / Tantos que ouvi, de graça, / pelo telefone - taí, / eu fiz de tudo pra você gostar”, e instantaneamente desejei ter aquilo que ela transmitia ao sorrir, sem saber ao certo o que era e, portanto, decidi desvendá-la. 

Em vão. Ana C. é indesvendável, não porque, logo de cara, sua obra pareça enigmática, e sim porque Ana é plural. E o processo de imersão não é uma via de mão única. É bem provável que, na busca por compreendê-la, terminemos conhecendo mais a nós mesmos do que a ela. Mas será necessário decifrar a poeta para amá-la? Quem inventou, afinal, que para compor um poema é preciso saber desenhar? 

Na crônica “Por aquelas escadas subiu feito uma diva”, Caio Fernando Abreu, o Caio F., retratou a amiga como “fugaz, doida, bela, chique, insuportável, irresistível”. Não foi o único a pensar Ana como uma conjuntura de traços variados, por vezes antagônicos, como se nela habitasse várias: há quem a leia e tenha um riso arrancado dos lábios; há quem, debruçando-se sobre o mesmo verso, “não perdoe o hermetismo”, como Gil, de Correspondência incompleta; e há quem, uma vez virado pelo avesso, sinta um ar soturno soprar a nuca, e pressinta o abismo da poeta como um arrepio. Ana está aberta a múltiplas interpretações, assim como não se limita a ser uma só. 

soneto

Pergunto aqui se sou louca
Quem quem saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
Quem é a loura donzela
Que se chama Ana Cristina

E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?

arpejos

Acordei com coceira no hímen. No bidê com espelhinho examinei o local. Não surpreendi indícios de moléstia. Meus olhos leigos na certa não percebem que um rouge a mais tem um significado a mais. Passei pomada branca até que a pele (rugosa e murcha) ficasse brilhante. Com essa murcharam igualmente meus projetos de ir de bicicleta à ponta do Arpoador. O selim poderia reavivar a irritação. Em vez decidi me dedicar à leitura.

Onde seus olhos estão, as lupas desistem

Embora bebesse da contracultura marginal dos anos 1970 e fosse ativa na luta política, Ana C. era ao mesmo tempo uma outsider. Sua produção poética era uma escrita de si, autoficção e experiência do corpo individual, enquanto lampejava a poesia efêmera e descontraída dos poetas marginais, onde o “pacto com a revolução" - nas palavras de Ricardo Chacal - era superior à construção do verso. E Ana, sem tirar os pés da academia e da literatura erudita, empenhava-se na confecção de uma linguagem híbrida, subjetiva, feita de recortes e jogos de palavras, em um processo de revisão ininterrupta que resultava, segundo ela, numa criação “muito construída, muito penosa”.

Ana Cristina compunha antes mesmo de aprender a escrever. Aos seis anos, ditou para os pais “Uma poesia de criança”, que foi publicada no boletim escolar. Aos nove, brincou de ser jornalista com a criação de O Mundo, um jornal marcado por sensacionalismo, humor e poesia. No mesmo ano escreveu uma carta para o Papai Noel e pediu que ele escrevesse de volta, manifestando seu fascínio pela correspondência - ou como Heloisa Buarque de Hollanda viria a dizer, a mania de cartas - característica de sua linguagem e obra. Conheceu Heloísa em 1975, no breve encontro no qual, consumida pela vergonha, fugiu rubra da professora, que desejava convidá-la para a antologia 26 poetas hoje - que a consagraria como poeta marginal na insurgente Geração Mimeógrafo.

poeminha-minuto 
(para ir de encontro às leis do grupo) 

eu te chamei de sacana porque tenho ciúmes
dos catorze versos você fez
neste fim de semana. 

a lei do grupo 

“todos os meus amigos estão fazendo poemas-bobagens ou poemas-minuto”

Cecília Meireles é homem

Ao longo dos séculos, escritoras publicaram sob pseudônimos para que suas vozes pudessem ser respeitadas. Charlotte, Emily e Anne Brontë eram os irmãos Currer, Ellis e Acton Bell; Mary Ann Evans era George Eliot; Louisa May Alcott assinava como A. M. Barnard nas narrativas “menos femininas”, e, mais recentemente, Joanne Rowling assumiu J.K. Rowling por conselho de seu editor, para que seu gênero não “afetasse” o alcance de Harry Potter no público masculino. Aquelas que fugiam à regra corriam o risco de serem julgadas como “femininas demais” ou “pouco femininas”. Por isso, ao ser questionada sobre a razão pela qual escrevia daquele modo, "e não como Cecília Meireles", Ana Cristina respondeu: "Cecília Meireles é homem”. Em outras palavras: “eu escrevo sobre o que é ser mulher”.

Consciente da própria transgressão, Ana deleitava-se com o fato de ser uma “mulher do século XXI disfarçada de século XX”, a “loura donzela” que confessava acordar com “coceira no hímen”. Ao criar uma ficção hermética de si mesma, conseguia ser mais real do que muitos que se propõem ao verso objetivo, em que um olhar “mais atento” não se faz necessário. Uma poeta capaz de executar tal proeza nunca parte, não de verdade. Armando Freitas Filho, poeta, melhor amigo e organizador de sua obra, conta ter recebido uma ligação de um escritor brasileiro que planejava fazer uma antologia “exclusiva para poetas vivas”. O escritor leu a lista dos nomes e, perplexo, Armando perguntou por que Ana não estava inclusa. “Ela está viva”, contestou ele. “Talvez mais viva do que todas essas.” 

Para encontrá-la, basta assentir ao pedido feito pela pequena Ana, compromisso que permanece vivo com ela: só leia se estiver com o coração puro e doce. Sejamos ternos.

Referências

Diana Joucovski
Escritora e entusiasta da arte em suas múltiplas linguagens. Sonha tanto acordada quanto dormindo e, quando não devaneia uma realidade própria, transita pelo universo do cinema e da literatura. Queria ter algo de culta, mas não pode evitar ter nascido à beira do século em que Stephanie Meyer escreveu Twilight.

Comentários

  1. Ótimo texto! Eu conhecia muito pouco sobre Ana Cristina César(cheguei a ler algo dela a muitos anos atrás), seu texto me despertou vontade de ler mais e me aprofundar nas obras dela. Obrigado

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