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The Green Knight: Sir Gawain e as duas faces da lenda do herói medieval


The Green Knight (O Cavaleiro Verde em tradução livre), filme que teve a direção de David Lowery e foi adaptado a partir de um romance de cavalaria do século XIV intitulado Sir Gawain e o Cavaleiro Verde cujo autor é desconhecido, nos apresenta um Sir Gawain interpretado pelo excelente Dev Patel. Apesar de não citar nomes, o filme deixa claro logo em seu início que a história se passa na época do Rei Arthur (sim, o da távola redonda), uma voz soturna nos indica que aquele reino pertence “àquele que tirou a espada da pedra”. Posteriormente, temos o conhecimento de que aquele reino não somente é o do famoso Rei Arthur, como a personagem principal, Gawain, é seu sobrinho. Antes de prosseguirmos, precisamos avisar que este texto possui possíveis spoilers, então, você pode optar por parar aqui mesmo se ainda não assistiu ao filme; se já o assistiu ou não se importa com spoilers, seguiremos.

Se as pessoas esperam que esse filme seja uma típica narrativa sobre um destemido e honrado cavaleiro medieval, elas vão se decepcionar bastante, pois o Gawain do filme está bem longe do que poderíamos chamar de cavaleiresco e muito se difere do Gawain do romance. Não que isso seja algo ruim, pois a forma como o diretor resolveu dar uma nova roupagem ao cavaleiro medieval nos agradou bastante e, definitivamente, The Green Knight merece um lugar cativo no top 5 melhores filmes de 2021. Pretendemos então traçar alguns paralelos e diferenças entre o romance e a adaptação cinematográfica, a fim de mostrar como a figura cavaleiresca de Gawain é representada de duas formas distintas, a do herói medieval e a do homem real.

As novelas de cavalaria 


Sir Gawain e o Cavaleiro Verde faz parte do ciclo arturiano das novelas de cavalaria, que são aquelas histórias que têm o Rei Arthur e seus cavaleiros como protagonistas. Algumas das lendas tinham cunho nitidamente pagão, principalmente de origens célticas, mas posteriormente tiveram seus símbolos e elementos cristianizados, como é o caso de A Demanda do Santo Graal. Nesta novela, é Gawain quem sugere que todos saiam à demanda (à procura) do Santo Graal. A Demanda corresponde precisamente à reação da Igreja Católica contra o desvirtuamento da Cavalaria, pois os cavaleiros andantes feudais estavam se transformando em indivíduos desocupados, autênticos bandoleiros, vivendo ao sabor do acaso, amedrontando e vagabundeando (isso faz com que se lembrem de alguém?).

As novelas de cavalaria eram como uma tentativa de influenciar os jovens cavaleiros a serem pessoas melhores para seus senhores, a buscarem seguir os exemplos heroicos dos cavaleiros do Rei Arthur, e a serem bons cristãos devotos (claro que depois disso a igreja mandou eles aprenderem a lição nas Cruzadas). Com isso, criou-se a figura heroica do cavaleiro cristão ideal, que não apenas representava os níveis mais elevados do comportamento humano, mas também apresentava as qualidades que o homem e a idade feudal em geral mais admiravam. Ele deveria possuir coragem, humildade, cortesia e lealdade. E além de força e resistência, ele tinha que ser hábil no uso de suas armas e um bom cavaleiro. E quem viu The Green Knight sabe que Gawain não preenche muitos desses requisitos cavaleirescos.

Ilustração de Howard Pyle para o livro The Story of King Arthur and His Knights, 1903

A desmitificação da lenda de Sir Gawain 


Logo em sua primeira aparição, nos deparamos com ele dormindo em uma espelunca e sendo acordado com um balde de água na cara, como se fosse um mero vagabundo. Enquanto ele se encaminha para sair daquele lugar, perguntam a ele se ele já é cavaleiro, ao que ele responde que ainda não está pronto. 

Esse é o grande dilema que Gawain carrega durante todo o filme, ele não se sente pronto para ser algo que as pessoas acham que ele já está destinado a ser desde que nasceu, afinal, ele é sobrinho do grande Rei Arthur e seria mais do que óbvio que ele seguisse os passos de seu tio e se tornasse um homem e cavaleiro honrado e grandioso. Pode-se dizer que esse status de familiar da realeza com futuro já garantido também fez com que Gawain não procurasse desde cedo acertar-se na vida, pois ele vive como uma espécie de playboy da Idade Média, tendo tudo a seu dispor de mão beijada, passando os seus dias sem ter com o que se preocupar, apenas vagabundeando e festejando. Mas sua família tem planos grandiosos para ele, e os dias de vida fácil de Gawain foram bons enquanto duraram.


O Gawain do romance de cavalaria é o exemplo perfeito de cavaleiro medieval. Ele possui todas as virtudes anteriormente citadas e soube trilhar seu caminho como um grande cavaleiro da távola redonda desde o inicio, sem dúvidas e sem hesitações. Ele conquistou o seu destino com coragem e esplendor, como atesta Alan M. Markman em seu ensaio intitulado The Meaning of Sir Gawain and The Green Knight

“Não tenho dúvidas de que o encanto e o apelo de Gawain são estes: de todos os campeões que se aventuraram em romances para nos mostrar o caminho, nenhum sobreviveu para melhorar sua reputação tão bem quanto Gawain.”

O acerto da produção cinematográfica de The Green Knight foi nos mostrar uma versão mais humanizada da lenda de Sir Gawain, afinal, nenhum ser humano consegue atingir níveis tão elevados de perfeição. Não possuímos certeza sobre o que realmente somos ou queremos ser e, assim como Gawain, nos colocamos em situações que nos fazem mal apenas porque achamos que é o que os outros esperam que façamos ou nos tornemos.

Gawain sabe que ele não possui as qualidades e requisitos para se tornar um cavaleiro da távola redonda, e sua mãe também sabe disso. Ela, como a maioria das mães, espera que seus filhos sejam grandiosos. Ora, a reputação e os meios ele já têm, a mãe dele só precisou dar um pequeno empurrãozinho.

Feitiçaria e o papel da mulher no imaginário medieval 


É através das mãos mágicas da mãe de Gawain que a magia e o sobrenatural se manifestam na história. No dia de Natal, um dia sagrado para os cristãos, ela se reúne com outras mulheres em uma espécie de coven de feiticeiras verdes para invocar o Cavaleiro Verde. A presença de feiticeiras se reunindo em um feriado cristão aparece como uma espécie de profanação e resgate das raízes pagãs das novelas de cavalaria, assim, na história, temos o cristão e o pagão coexistindo. Mas por que uma mãe invocaria uma criatura sobrenatural para atormentar seu filho? A questão é que, aparentemente, o desafio não era direcionado para Gawain, mas para o rei. Se aceitasse e duelasse com o Cavaleiro Verde, ele logo morreria e deixaria um trono vazio que seria herdado por seu sobrinho. Era o plano perfeito, mas aí não teríamos história, não é mesmo?

Sarita Choudhury como a mãe de Gawain em The Green Knight

Feiticeiros eram figuras bastante comuns em novelas de cavalaria, exercendo papeis de agentes do bem ou do caos. Eles também simbolizam o hábito dos europeus ocidentais da Idade Média em executar magia cerimonial, pois nessa época circulavam muitas traduções de textos gregos, hebraicos e árabes que eram uma espécie de manuais mágicos, contendo rituais, símbolos e práticas. Por volta do século XV e XVI, havia uma grande circulação desses livros de magia ritual nos quais via-se o círculo e o pentagrama como figuras padrões das cerimônias mágicas. O pentagrama penetrou na cultura popular e aparece em muitas partes da Europa ocidental ao final da Idade Média em casas, berços, estrados de camas e pórticos de igreja como um símbolo de proteção. No filme, podemos encontrar o pentagrama nos colares usados pelo rei e seus cavaleiros, entalhado no chão ao centro da távola redonda e também no escudo de Gawain.

A mãe de Gawain não é nomeada no filme, mas no romance ela se chama Morgan le Fay, uma poderosa feiticeira que foi aprendiz e amante do famoso mago Merlin. Toda a trama do filme e do romance é armada por ela ao invocar o Cavaleiro Verde, o que pode ser relacionado com a crença medieval (e atual) de que as mulheres são portadoras do mal, de que elas têm mais facilidade de contatar o sobrenatural por conta de sua natureza maléfica e de que elas são as causadoras de todas as desgraças que podem acontecer aos homens. De Circe e Medeia a Morgan le Fay, elas não foram as primeiras e nem as últimas personagens retratadas como mulheres malignas operando magia potente, pois tais representações não teriam sido escolhidas se não ecoassem, em certa medida, os preconceitos e preconcepções do público-alvo. 

A manifestação do maravilhoso na narrativa de Sir Gawain 


O momento em que o Cavaleiro Verde aparece é quando vemos o realismo se tornar “maravilhoso”. Dizemos que uma narrativa é maravilhosa quando ela é situada em um lugar inventado no qual as confrontações entre natural e sobrenatural não estão colocadas, já que nele tudo é possível — encantamentos, milagres, metamorfoses — sem que as personagens da história questionem sua existência, o que permite que seja algo normal, natural. Gawain não questiona a existência de um cavaleiro em forma de árvore do mal falante, ele apenas decide que está na hora de mostrar ao seu tio que também pode ser um herói e toma a atitude desnecessária de cortar fora a cabeça do cavaleiro. 

"Por que devo hesitar? Contra um destino difícil e terrível, o que um homem pode fazer além de tentar?"
Com a fama estabelecida e a promessa de grandeza, Gawain pega o seu cinto mágico, seu machado e seu cavalo e parte para uma viagem cujo destino é a morte. Pensamos que viria aí a jornada típica do herói medieval, mas não foi exatamente isso o que aconteceu. Vimos o que talvez seriam as atitudes de um homem real perante situações irreais e assustadoras. E durante sua jornada, ele percebe que realmente não entende nada do que significa ser um cavaleiro. Passando pela situação de ser assaltado por um adolescente, ele encontra o fantasma de uma mulher em uma cabana. De acordo com a lenda, essa mulher é Santa Vinifrida, que foi a filha de um chefe nobre galês cujo pretendente ficou enfurecido quando ela decidiu se tornar uma freira e a decapitou. Em uma versão da lenda, sua cabeça rolou até uma encosta e, onde ela parou, uma fonte de cura surgiu. 

Vinifrida pede a ajuda de Gawain para resgatar sua cabeça perdida dentro de um lago, e a primeira atitude do anti-herói foi perguntar o que ele ganharia em troca se a ajudasse. Ela fica confusa e o questiona por que ele perguntaria uma coisa dessas a ela. Ora, ela achou que era dever de um cavaleiro ajudar os necessitados sem querer receber nada em troca. 

Depois de tentar apedrejar raposas fofas, comer cogumelos e ver gigantes, Gawain chega até a Fase da Tentação. Sua chegada até um belo castelo o leva a ser acolhido por um casal de nobres e uma velha sinistra. Percebemos que as coisas nesse castelo são bem delirantes, o próprio dono diz que ali é cheio de estranhezas. Cremos que isso seja por causa da interferência da mãe de Gawain, pois antes de acordar ele encontrou com sua mãe em sonho e a velha sinistra usa uma venda semelhante àquela que a mãe de Gawain usou no ritual para invocar o Cavaleiro Verde. 

Dev Patel e Joel Edgerton em The Green Knight

No romance, Morgan le Fay também faz questão de controlar toda a jornada de Gawain, e a parada do filho nesse castelo estava planejada por ela como mais um dos testes fantásticos pelos quais o cavaleiro deve passar para provar seu valor. No filme, o Lorde do castelo não é nomeado, mas seu nome é Bercilak, e descobrimos mais adiante na trama do romance que ele está sob o feitiço de Morgan le Fay, que o transforma no Cavaleiro Verde. Ele revela que a feiticeira o mandou até a corte do Rei Arthur para testar seus cavaleiros e aterrorizar sua esposa Guinevere até a morte. Assim como no filme, todas as ocorrências maravilhosas do romance, em suma, derivam da magia. Como agente de Morgan le Fay, é a única função de Lorde Bercilak cumprir sua vontade.

Nos dias em que Gawain ficou no castelo do casal, ele tentou resistir um pouco às investidas da esposa do Lorde. Ela o estava testando para saber se ele realmente possuía a lealdade e cortesia de um cavaleiro. Bem, ele não passou no teste e, antes de entregar a ele o cinto mágico de proteção, idêntico ao que a mãe dele fez, ela diz o que ele já sabia: “Você não é um cavaleiro”. Além das leis de cavalaria, Gawain deveria respeitar outro conjunto de leis relativas ao amor cortês. O código de honra do cavaleiro exige que ele faça tudo o que uma donzela pedir. Gawain deve aceitar o cinto da Senhora, mas também deve manter a promessa que fez ao seu anfitrião de que dará tudo o que ganhar naquele dia (isso explica o beijo entre Gawain e o Lorde; como parte do acordo que fizeram ele não dá o cinto, mas dá o beijo). O Gawain do romance não chega a se deitar com a esposa do Lorde, mas opta por aceitar o cinto por medo da morte, quebrando assim sua promessa ao anfitrião, mas honrando a Senhora.
 
Percebe-se que a dama e a mãe de Gawain exercem os maiores lugares de poder dentro das duas narrativas. Ambas o manipulam, o desafiam e causam a sua ruína. Em uma passagem do romance,  Gawain atribui a culpa de todos os seus problemas às mulheres e lista os muitos homens que foram vítimas das artimanhas femininas. Sobre a imagem das mulheres na época medieval, George Duby diz que elas eram vistas como "armadilhas  em que os homens, seduzidos por seus encantos, seus enfeites, pelo irresistível atrativo de seus cabelos descobertos, tropeçam. Para todos, de qualquer estado que sejam, a mulher, tentadora e perigosa, é fonte de prazer e causa de perdição". São as mulheres que lembram a Gawain o tempo todo o quão falho ele é em conseguir alcançar as virtudes de um cavaleiro. São as mulheres que revelam a verdade dolorosa. 

Dev Patel e Alicia Vikander em The Green Knight

O que faz um cavaleiro 


Quando está enfim prestes a chegar na capela verde, a raposa que estava acompanhando Gawain tenta impedir que ele prossiga, e ali vemos sua mãe mais uma vez se manifestando para colocar seu filho de volta nos trilhos. Ela lhe diz que não tem problema se acovardar ou voltar atrás com a cabeça erguida e assim viver a vida do jeito que se sempre quis. Mesmo que ele não tenha passado em nenhum dos testes que provaram que ele não possui a grandeza para ser um cavaleiro e futuro rei, ele poderia escolher voltar e viver a vida que sua mãe sempre quis para ele, ninguém iria saber, seu segredo estaria a salvo. 

Todavia, Gawain revolta-se e decide ir até o final, ver a glória de perto e receber a honra, e assim que fica cara a cara com o Cavaleiro Verde, ele percebe que na verdade é tudo uma ilusão, que não era apenas um jogo. Perturbado, ele pergunta, “Isso é realmente tudo o que há?”, ao que o Cavaleiro Verde responde, “O que mais deveria haver?”

Ralph Ineson como o Cavaleiro Verde em The Green Knight

Ali, ajoelhado, Gawain vê diante de seus olhos a vida que poderia ter se seguisse o conselho de sua mãe e voltasse atrás — a vida que o Gawain do romance escolheu ter, apesar da vergonha que sentiu ao saber que o Cavaleiro Verde é na verdade o Lorde do castelo (Bertilak), e que ele conhece o segredo do cinto mágico. Gawain percebe que, embora tenha completado sua missão, falhou em ser virtuoso ao cometer esse pequeno desvio e ceder às artimanhas da feitiçaria (não esqueçamos que esta é uma narrativa de cunho cristão), afinal, um cavaleiro não deve ser desonesto e nem temer a morte. Mesmo assim, ele volta para a corte do Rei Arthur, os cavaleiros da távola redonda o absolvem da culpa e resolvem usar uma faixa verde como um lembrete para serem sempre honestos. Um gesto que diz "te perdoamos, mas não vamos deixar que você se esqueça do que fez".

Por fim, o Gawain cinematográfico percebe que de um jeito ou de outro ele iria perder a cabeça — tendo que viver com o peso da culpa, levando uma vida de mentiras, sustentando a pose do cavaleiro que ele nunca foi e nunca será —, e decide então optar pelo caminho menos doloroso. Com isso, ele tem a sua primeira e última atitude cavaleiresca da narrativa, de coragem e lealdade, como reconheceu o seu oponente, o Cavaleiro Verde.  




Arte em destaque: Mia Sodré (para ver mais, clique aqui
Milena
1997. Maranhense de nascença e piauiense de coração. Estudante de letras, mãe de planta e filha perdida da Mary Shelley. Também é o tipo de pessoa que não sai de casa sem levar um livro na bolsa.

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