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A casa que pingava sangue: uma antologia de mulheres monstruosas


Lançado em 1971, A casa que pingava sangue (The house that dripped blood no original) trata-se de um daqueles filmes que foram esquecidos pelo tempo - exceto por uma parte muito específica de fãs de horror clássico. Todavia, em seus cinquenta anos de existência, ele envelheceu muito bem enquanto filme cativante, permanecendo magnífico e perturbador em cada história apresentada. 

Um detetive da Scotland Yard chega a uma cidadezinha para investigar um crime ocorrido em determinada casa. O que ele não sabia é que a casa em questão guarda um passado misterioso e macabro, no qual crimes de natureza não solucionável acontecem com frequência. Enquanto prepara-se para ir até o local prosseguir a investigação, o corretor de imóveis da propriedade, sr. Stoker (uma referência direta a Bram Stoker, escritor de Drácula), lhe dá os detalhes de quatro histórias bizarras que aconteceram naquele lugar na tentativa de convencer o detetive a adiar sua partida e possivelmente poupar-lhe a vida. É a partir desse fio condutor que somos apresentados a uma pequena antologia de horror clássico protagonizado por uma silenciosa e sinistra casa e seus habitantes peculiares. 

Contexto: por trás da tela


Com produção da Amicus, A casa que pingava sangue possui todos os elementos do horror da época - criaturas sobrenaturais, o gótico dentro de casa, a narração - aliados a uma estrutura de antologia que já era tão familiar à produtora, mas que atingiu seu ápice com esse filme. Em parte, por conta do elenco, mas também porque, embora as histórias sejam sérias, o tom delas não é necessariamente sombrio. 

Um de seus protagonistas, Jon Pertwee (conhecido como o Terceiro Doctor de Doctor Who), afirmou que o filme havia sido inicialmente pensado e gravado para ser um terrir, uma comédia de horror. Isso é bem perceptível especialmente em sua história, que envolve Pertwee interpretando Peter Henderson, um ator em meio a uma gravação de um filme sobre vampiros. À procura da capa certa para interpretar seu vampiro, ele acaba se deparando com algo além do roteiro. Mas tudo acontece de forma muito leve, divertida - embora a história em si seja séria. 


Muita coisa foi cortada e costurada para que o filme fosse mais horror do que comédia. Todavia, várias piadas internas podem ser captadas, como quando a personagem de Pertwee fala a respeito de seus papeis favoritos e afirma que prefere Bela Lugosi "àquele outro cara que faz o Drácula" - referindo-se a Christopher Lee, seu amigo e companheiro de filme, que atuou em outra história da antologia. 

Com roteiro de Robert Bloch, autor do livro Psicose, que tornou-se icônico por causa do filme dirigido por Alfred Hitchcock, A casa que pingava sangue contou com muitas pessoas talentosas que amavam o gênero de horror trabalhando em um projeto especial. Talvez seja por isso que assisti-lo dá uma sensação, a nós, que gostamos de horror clássico, de conforto. 

As quatro histórias 


Embora a história de Pertwee seja a última a ser contada, ela é a primeira a aparecer. Já no início, o inspetor Halloway chega à cidade para investigar o desaparecimento da personagem de Pertwee, o ator Paul Henderson. O corretor lhe avisa: "Está muito tarde, você não pode ir até aquela casa à noite". E, para convencer - e possivelmente salvar a vida -, o corretor desanda a contar ao inspetor uma por uma as histórias terríveis que aconteceram naquela casa. Assim, a estrutura tradicional do gótico, de uma história dentro de uma história dentro de uma história, é também o alicerce do filme, servindo de fio condutor tanto ao inspetor quanto a nós, espectadores que, assim como o recém-chegado investigador, nada sabemos do que ali acontece. 

A primeira das quatro histórias chama-se "Method for murder". Nela, em termos que mais tarde Stephen King utilizaria em alguns de seus livros, um escritor, Charles Hillyer, é perseguido por uma de suas criações. A trama é surpreendente e possui grande inspiração em filmes noir, tendo uma reviravolta no final. 

Já a segunda história, "Waxworks", nos traz um dos atores mais queridos do horror clássico: Peter Cushing. A estrela da Hammer interpreta Philip Grayson, um homem que, junto de seu amigo, Neville Rogers, é levado à loucura após encontrar a figura de uma mulher num museu de cera local. Os horrores que lá o aguardam conversam com muitas temáticas, mas talvez a que mais prevaleça seja a lenda do encanto fatal das sereias combinada com o mito da Medusa. A estátua possui um poder sobre os homens que a olham - ela os atrai, mas a que custo? Muitas leituras podem ser feitas a partir disso, especialmente psicanalíticas. Não é incomum encontrarmos a mulher como criatura monstruosa dentro do horror - embora, nesse filme, essa representação seja o que une as histórias para além da casa. Seria a casa má ou o local transforma as mulheres que lá aparecem em criaturas monstruosas? 


A terceira história talvez seja a mais perturbadora de todas. "Sweets to the sweet" conta com Christopher Lee no papel principal, interpretando o viúvo John Reid, um homem reservado que age de maneira estranha com a filha. A princípio, pensamos que o problema é ele. Todavia, conforme a narrativa avança, nos damos conta de que a menina possui um lado sombrio e macabro - e que pode levar todos a consequências terríveis. 

A quarta e última história é "The cloak", na qual Paul Hendersen, o ator interpretado por Jon Pertwee, tem um encontro com o sobrenatural sempre que veste a capa que comprou para a personagem de seu filme. 

A manifestação do Mal na mulher monstruosa 


Dificilmente algo no cinema não é proposital. Seja uma cor repetida muitas vezes ou mesmo um nome que curiosamente possui um significado que faz sentido com a trama, coincidências não acontecem tão facilmente. Tudo é pensado com antecedência para que a história que o espectador verá seja coesa, coerente e envolvente. 

Sendo assim, é difícil acreditarmos que o fato de as quatro histórias da antologia A casa que pingava sangue terem mulheres por antagonistas não tenha sido proposital. Especialmente quando olhamos para o elenco escolhido - todos os homens ali presentes desempenharam papeis importantes no cinema clássico de horror, muitas vezes como heróis, os mocinhos que salvavam o dia. E essa imagem, de certa maneira, se mantém na antologia. É como se os nossos heróis macabros tivessem terminado suas jornadas e enfrentassem agora o desafio final, com cada história tendo sido moldada especialmente para eles. 

Existe uma ambiguidade suficientemente bem trabalhada a ponto de não enxergarmos os homens protagonistas como meras vítimas. Eles também têm seus defeitos, e talvez não tenham sabido lidar bem com suas situações. Mas, no final do dia, o Mal usa um rosto de mulher. 


Uma esposa infiel que trama a morte do marido usa a face da viúva de filmes noir. Seu objetivo é fazer com que sua trama pareça sobrenatural, que seu marido pense que está enlouquecendo, enquanto ela herda sua fortuna e recebe a liberdade para viver longe dele. Em outra históira, uma mulher que, em vida, atraiu muitos, tornou-se na morte a própria sereia que segue atraindo homens para a perdição. 

Na primeira história, é Alice (Joanna Dunham) quem está por trás do "enlouquecimento" e assassinato de seu marido. Embora o amante também acabe enlouquecendo e indo além do planejado, Alice era a mente por trás de todo o ocorrido. E, no final, enquanto o assassino ensandecido permanece solto, nos é sugerido que ela tornou-se outra de suas vítimas, sendo punida abertamente. 


De acordo com Sigmund Freud, o medo que o homem possui da mulher advém da crença infantil de que sua mãe é castrada. Em termos gerais, se a mulher não possui o órgão masculino - o pênis -, isso significa que ela seria castrada, ou que, de forma mais assustadora para a mente infantil, seria castradora, arrancando o pênis. Não é à toa, portanto, que muitas das imagens de horror nas quais a mulher é a perpetradora do mal referem-se à vagina dentata. Mas, enquanto o horror causado pela visão pode paralisar, ele também atrai, levando homens à morte. 

Existe uma questão de gênero muito forte no horror. Atualmente, essa questão está sendo ampliada com o reconhecimento de identidades e gêneros LGBTQ+. Todavia, no ano de 1971, ela ainda era mais centrada entre homens e mulheres cisgênero. E o medo da mulher-monstruosa, com seu belo rosto sedutor, agradável, que atrai para a morte os pobres homens desavisados, é algo que permeia todas as narrativas de A casa que pingava sangue


O feminino-monstruoso no filme é uma representação da ligação entre sexo e morte. São os desejos dos homens pelas mulheres - as mulheres erradas, como o roteiro aponta - que os conduzem invariavelmente às consequências desastrosas de seus atos. Talvez a única exceção seja a história de Pertwee, já que ele adquire a capa que o transforma em vampiro por uma questão também bíblica - o pecado da vaidade. Mas é apenas quando a amizade entre ele e a personagem de Ingrid Pitt, também uma atriz, se estreita de modo a revelar um componente sexual latente, que a vampirização de fato acontece. Ela, uma vampira há mais tempo, o conduziu por esse caminho. 

As mulheres, apenas coadjuvantes nas quatro histórias do longa, passam a desempenhar um papel central conforme nos aproximamos de seus desfechos. E o tal papel é sempre o mesmo: a beleza que esconde a maldade, o feminino que abriga o monstruoso. A esposa infiel, a cabeça da morta-Medusa, a criança diabólica e a vampira sedutora são facetas do mesmo Mal e servem à trama para aniquilar seus protagonistas e passar uma mensagem clara: esta é uma antologia de mulheres monstruosas; cuidado para onde olha. 

Referências 






Mia
Jornalista e pessoa da internet há uma década. Editora e analista literária, quando não está lendo escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Pesquisa o gótico no século XIX. Vive em Porto Alegre, onde está há vinte e poucos anos ajudando na entropia do universo.

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