Ukiyo: o Mundo Flutuante de Yukio Mishima


A obra de Yukio Mishima é a expressão do mundano. Esse adjetivo pode ser descrito como "aquilo que é próprio do mundo material", ou "aquilo próprio da sociedade em sua superfície". É justamente nesta superfície que aparece a obra do autor. Nascido em 1925, ele se formará num mundo de propaganda nacionalista que deixará de existir de uma hora para outra com o fim de 1945.

A tradição contra os tempos


Assim como muitos outros de seu tempo, Mishima teve que lidar com uma virada completa na cosmovisão de uma sociedade. Inconformado pelo abandono dos seus ideais de juventude pela sociedade, ele se voltará para um passado ainda mais distante: o da obra Hagakure, de Yamamoto Jōchō. Ele também lançou uma versão própria desse livro em 1967, O Hagakure: a Ética dos Samurais e o Japão Moderno. No Brasil, seria lançado em 1987, pela editora Rocco. Mishima considerava a fonte de sua releitura de Jōchō “o único livro que existe para mim”:

“Foi especialmente depois de ser a leitura socialmente obrigatória da época de guerra, que a sua luz começou a brilhar no meu interior. (...) O livro que iria me proporcionar constante orientação espiritual devia formar a base de minha moral e devia permitir-me aprovar integralmente a minha juventude. Devia ser um livro que pudesse apoiar com firmeza a minha solidão e minha posição anacrônica. E o que é mais, devia ser um livro banido pela sociedade contemporânea.”

Para defender sua existência, o autor não se permite uma mudança de vida, mas uma reafirmação de sua natureza nacionalista, anacrônica e solitária. De maneira não surpreendente, quando fala do Hagakure, Mishima estará na realidade falando de si mesmo, frente a uma sociedade que substituirá, na visão dele, seus valores pelo consumismo e outras ideologias vazias:

“Esse livro, como todos os outros valorizados durante a guerra, chegou a ser considerado um livro desprezível, feio, maligno, um livro maculado, que devia ser apagado da lembrança, atado em pilhas e lançado ao monte de lixo. Assim, nas trevas de nossa era, o Hagakure pela primeira vez irradia sua verdadeira luz.”
     
A consciência da fluidez das relações humanas e da inconstância do mundo é o que origina, na cultura japonesa, o termo Ukyio, ou mundo flutuante. Yamamoto Jōchō também havia nascido num mundo flutuante: no período Edo, onde a paz da unificação do Japão, sob o domínio do clã Tokugawa, havia tornado a casta dos antes reverenciados samurais em apenas um grupo caduco numa sociedade onde a classe média comerciante se expandia como nunca antes.


Entretanto, esta percepção de um mundo em constante metamorfose não é exclusiva do período Edo: Kazuo Ishiguro, nascido em 1954, de uma geração posterior a Mishima, nipo-britânico, tem em seu livro Um Artista do Mundo Flutuante (de 1986, editado no Brasil em 1989 pela Rocco e, mais recentemente, em 2018 pela Companhia das Letras) os dilemas morais de um pintor aposentado de propagandas nacionalistas num Japão pós-guerra onde sua arte — e o que acreditava ser um ideal —, antes incentivada, agora caiu no ostracismo. Contudo, sua relação não é de ataque, mas uma submissão de alguma forma orgulhosa por reconhecer a historicidade da vida, como ele coloca:

“Pelo menos agimos de acordo com aquilo em que acreditamos e fizemos o possível. — Pois embora se possa, nos últimos anos, vir a reavaliar as próprias realizações, é sempre um consolo saber que a sua vida conteve um ou outro momento de verdadeira satisfação”

A moralidade suicida


Mishima nasce quando esses mesmos ideais nacionalistas evocavam a imagem de antigos samurais em prol de um projeto político que levaria à guerra e à derrota — os tempos são, para ele, claramente cada vez mais decadentes. Diferentemente da personagem Masuji Ono criada por Ishiguro, para Yukio Mishima não há resignação. Em Vida à Venda, seu romance de 1968, publicado recentemente pela Editora Estação Liberdade, o protagonista Hanio é um guia em meio à decadência de um Japão noir, onde mafiosos, prostitutas e cidadãos medíocres convivem num mesmo meio.

Hanio Yamada é um publicitário, um tanto estoico — ou, ao menos, insensível — que, desiludido com uma vida corporativa, solitária e desprovida de significado, decide dar cabo à sua existência. É a falha nesta tentativa que dá início ao romance. Recuperado no hospital, decide seguir a seguinte lógica: como a vida não tem valor, sua morte também é desinteressante, e o processo de se matar é estafante. Sendo assim, quem sabe se vendendo sua vida, num jornal, poderá ver alguma coisa interessante antes de ser morto? Hanio está convicto de que uma pessoa disposta a comprar a vida de alguém há de ter a existência mais baixa que se pode atingir. Ainda assim, ele se entrega resignado:

“Não tinha sido uma ação premeditada, pensada e repensada. A vontade de morrer lhe viera súbito naquela tarde, enquanto lia o vespertino do dia na lanchonete onde costumava jantar.”

O romance, cheio de acontecimentos mirabolantes inspirados em narrativas policiais, estará sempre por colocar o protagonista em situações de quase morte. Por vezes salvo pela pura sorte, Yamada se vê gradativamente mais preso num emaranhado de relações pautadas no desejo sexual e no perigo da morte iminente.

O surpreendente (ou talvez nem tanto), por fim, é que cada vez mais, pela absurdidade das situações, o estoicismo da personagem é abalado. Veremos uma personagem incapaz de seguir, então, o caminho do samurai. A sensação de superioridade frente a seus pares humanos, tão “presos à vida”, cai por terra. Incapaz de ser o samurai idealizado, temos apenas uma das “baratas nas folhas de jornal” como nos dizeres do personagem.

Não há em Vida à Venda uma resignação frente à beleza da vida, mas uma derrota frente ao medo da morte. Yukio Mishima continua sempre firme em seus ideais — Hanio, assim como a maioria de suas personagens, não é um samurai ideal, mas um homem contemporâneo e medíocre, talvez um pouco mais patologicamente estoico, mas ainda assim atado a uma vida imoralmente mesquinha. A superioridade moral dos suicidas segue como o fantasma de suas histórias: vindo do passado mítico da tradição, assombroso, mas ainda assim aparentemente intangível. Não é à toa que a máxima mais repetida no Hagakure é: “O caminho do samurai é a morte”

O mundano contra a moralidade


A representação do mundano no livro de Mishima se repete prontamente em suas outras obras. No pequeno O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar, (de 1963, lançado no Brasil também pela Rocco, em 1985), temos o garoto Noboru Koruda incapaz de lidar com as mudanças de seu pequeno mundo: o surgimento de um namorado para sua mãe viúva. Noboru, aos 13 anos, era convicto de que:

“(...) a morte deitava suas raízes já no momento do nascimento, e o único recurso de que o homem dispunha (...) era diluí-la e cuidar dela. (...) a propagação era uma ficção, e em consequência, também a sociedade era uma ficção; (...) os pais e professores (...) eram culpados de um pecado sério. Portanto, a morte de seu pai, ocorrida quando Noboru tinha oito anos, representava um acontecimento feliz, alguma coisa que se devia orgulhar.”

O que mais surpreende nesse livreto é o ódio que pode se desencadear do interior humano após a violação das aparências mais superficiais: a manutenção destas é percebida pelo autor como modelo de existência humana e social japonesa. Na sociedade que ele vê ao seu redor, já não é possível se apoiar sequer na superficialidade de uma retidão moral vacilante.

Cena de Yūkoku, de 1966; à direita, Yukio Mishima. Ao fundo, podemos ler: "Sinceridade de todo o Coração"

A defesa desse interior-exterior se encontra num tempo tão degradado que se pode apenas agir pelo ataque. A obra de Mishima é seu ataque ao avanço do consumismo e da influência estrangeira em seu sagrado solo japonês. Essa visão de mundo resultará primeiro em ensaio, no curta-metragem Patriotismo (Yūkoku no original), de 1966, dirigido pelo autor. Nele, um jovem oficial do exército japonês, interpretado pelo próprio Yukio, participa de um grupo que dá uma tentativa de golpe num “generalato corrupto contra o imperador“. Porém, a tentativa de golpe falha. Sem poder viver para ver seus amigos e o que ele acredita ser despedaçado, ele comete suicídio ritual com sua esposa.

Em 1970, o autor e alguns seguidores interpretariam então essa peça, agora na realidade, o que resultara não na restauração do poder político ao imperador e um ressurgimento glorioso do passado, mas sim na impossível e anacrônica “morte gloriosa“ neste mundo flutuante.
  


Texto: Mateus Martins
Imagem de capa: Mia Sodré 

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