A comédia do cotidiano e a tragédia padronizada em Playtime, de Jacques Tati


Em Playtime, Jacques Tati faz uma síntese do cotidiano nas grandes cidades olhando para a Paris dos anos 1960. O encanto do turista com os detalhes, a comicidade dos acontecimentos corriqueiros e a descaracterização da cidade são alguns dos temas tratados na mais célebre obra de Tati, estruturada em seis sequências longas. Assistir a Playtime é estar na condição de observador de uma dinâmica urbana criada, de algumas realidades produzidas pelo diretor. A sutileza da direção é balanceada com o caos sonoro que emula como é estar no centro de uma capital. As cenas deixam o espectador perdido, desorientado com o barulho difuso e ininteligível, desconhecidos entrando e saindo de quadro e o exagero de elementos sonoros e visuais que o diretor sobrepõe. 

Sem ter para onde direcionar o olhar, o espectador acaba encontrando uma única referência em meio à confusão enquadrada de Tati: seu personagem habitual, Monsieur Hulot (interpretado pelo próprio diretor). O efeito é proposital. Tati deixava claro que, em Playtime, as grandes cidades estavam ficando cada vez mais iguais e os citadinos cada vez mais perdidos. No filme, Roma, Paris ou Nova York pouco ou nada diferem; a arquitetura urbana caminhava numa mesma direção: as grandes vidraças, as caixas de concreto e o cinza em geral. Essa perda de identidade atinge também os transeuntes, descaracterizados, padronizados e sem personalidade, andando sem rumo, admirando paisagens de uma cidade como qualquer outra. Em Playtime todos falam e ninguém escuta. Voamos de um lado para o outro, compramos quinquilharias por comprar, perdemos tempo no trânsito e nos fixamos em realidades criadas pela TV. No fim, o importante é o cotidiano. A graça, em ambos os sentidos, está nos detalhes. A comédia é o escape das situações desagradáveis. O filme é também um elogio de Tati às minúcias do cotidiano. 


1. O aeroporto de Paris 

Paris é introduzida a partir de seu aeroporto: sem cor e sem alma. Após uma longa cena de uma esposa preocupada com a viagem do marido prestes a embarcar, turistas americanos chegam na cidade e são conduzidos ao ônibus que os levará a um hotel. A peculiaridade da cena acontece quando o ônibus para e os turistas descem admirando a cidade, que, na verdade, é apenas um amontoado de prédios idênticos.

2. Monsieur Hulot e as esperas 

Na segunda sequência, Monsieur Hulot é apresentado. Em uma grande empresa parisiense, aguarda no hall para ter uma reunião com um executivo, mas o que parecia simples se torna uma longa jornada. Estamos acostumados a esperar por um atendimento, por exemplo. Em determinados espaços, esperamos por uma ficha para esperarmos novamente. M. Hulot, aqui, revolta-se contra esse sistema e, ao cansar da espera, vai atrás do executivo. Em seguida, O personagem de Tati entra em uma cena de perseguição tentando encontrar o homem, que foge pois parece ter outras mil atividades mais importantes para atender. A perseguição se estende pelos escritórios padronizados da empresa, o labirinto de repartições onde Hulot acaba desistindo da reunião e termina indo parar em uma exposição de invenções, originando a terceira sequência.

3. A exposição de invenções: a inutilidade precificada 

Na terceira sequência de Playtime, a turista Barbara (Barbara Dennek) ganha destaque pela primeira vez (Barbara e Monsieur Hulot são os únicos personagens relevantes no filme). Barbara tenta tirar uma foto do que, segundo ela, seria a "verdadeira Paris", que nada mais é do que uma vendedora de flores trabalhando. No entanto, Barbara é interrompida diversas vezes por elementos que "descaracterizariam a verdadeira Paris", como punks e pessoas de origens étnicas não brancas. Ao desistir da foto e entrar na exposição de invenções, Barbara vê a Torre Eiffel pela primeira vez através do reflexo da porta. Enquanto isso. Monsieur Hulot é persuadido a comprar uma porta que não faz barulho quando é batida, uma poltrona de escritório e até uma vassoura com faróis. Ao fim da sequência, Barbara vai até uma agência de turismo e protagoniza uma das cenas mais interessantes do filme: Estados Unidos, Havaí, México e Estocolmo são destinos idênticos a Paris.

4. Os apartamentos-vitrine 

Ao escurecer, Monsieur Hulot acaba visitando um antigo conhecido em um dos novos apartamentos de Paris. Com grandes vidraças que parecem vitrines, os apartamentos são todos iguais, as famílias que os alugam também. Na sequência mais silenciosa de Playtime, a câmera fica ao lado de fora mostrando o conjunto dos apartamentos em que todos fazem as mesmas coisas enquanto nós ouvimos apenas o som dos carros.

5. O restaurante Royal Garden 

A sequência que mostra Monsieur Hulot no restaurante é também a maior do filme, ocupando mais de um terço do tempo total de tela. Nela, o restaurante Royal Garden é inaugurado mesmo com as obras ainda em andamento. Ao decorrer da cena, turistas e pessoas da alta sociedade local comparecem ao restaurante e se deparam com trapalhadas típicas de um primeiro dia de serviço. À medida que o tempo avança, a banda começa a tocar, os clientes começam a dançar e o restaurante começa a ceder: o piso descola, a decoração cai e as lâmpadas explodem.

6. O carrossel 

Após passarem a noite no baile do Restaurante, amanhece em Paris. Em um carrossel de carros, Barbara embarca no ônibus de turistas em direção ao aeroporto, dando fim à viagem. A bordo, desembrulha o presente que Monsieur Hulot havia lhe entregado: um lenço com os símbolos da cidade. Neste último momento, notamos como os monumentos característicos de Paris são completamente dispensáveis no universo do filme. Em nenhum momento há interesse em visitar o Louvre ou a Basílica de Sacré-Cœur, os turistas, incluindo Barbara, já internalizaram um conceito de cidade que rejeita tradições.
Concluindo, Playtime foi e ainda é um filme diferente. Segundo François Truffaut, é "um filme de outro planeta". Na verdade, Playtime é um filme sobre a cidade e sobre a vida, sobre como nos relacionamos e como podemos quebrar um padrão atribuindo significado ao cotidiano. Atualmente considerado um dos maiores clássicos do cinema francês, na época, o lançamento foi um fracasso absoluto. A produção francesa mais cara até aquele momento e também o maior desastre da carreira de Jacques Tati, que foi à falência e acabou fechando o estúdio Specta Films. 

No entanto, Playtime entra para a história como a possibilidade de rir da vida mesmo quando ela nos parece monótona e sem sentido. 


Referências 



Texto: Wellinton de Almeida 
Imagem de destaque: Mia Sodré 

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