Persona, de Ingmar Bergman


Meu amor pelo cinema veio cedo. Minha mãe sempre foi cinéfila, do tipo que anotava em um caderno todos os filmes que via (hábito que carrego até hoje). Todo fim de semana ela alugava um monte de filmes, e era assim que eu passava meu tempo. Ela também assinava a revista SET, e eu amava decorar nomes de atores e diretores. Aí veio a TV a cabo, e a idade para ir sozinha ao cinema. Lembro que com cinco reais eu via qualquer filme numa tarde de quarta-feira... Bons tempos.

Com a chegada da internet, veio também a descoberta do IMDb, e um mundo novo se abriu para mim. Sempre ficava feliz de conhecer locadoras novas, porque as da minha rua não tinham nada além dos grandes sucessos, e eu já tinha assistido a todos da prateleira de terror. Uma vez, fuçando no Orkut, uma amiga postou que seu filme preferido era Persona, do Ingmar Bergman. Ainda não era tão fácil encontrar filmes "diferentes", então anotei o nome, e assim que eu tivesse algum dinheiro, compraria o DVD.

Em 2006 minha avó me deu R$30 em alguma data comemorativa, e assim comprei minha cópia de Persona. Assisti no dia em que chegou. Além da relação óbvia que fiz entre o filme com Clube da Luta, não sabia se o tinha entendido direito. Fui buscar explicações na internet, mas até hoje tenho meus questionamentos. A mesma coisa acontece com Possessão, que não à toa, é outro dos meus filmes preferidos.

Liv Ullmann é Elisabet Vogler, uma atriz que durante a exibição de uma peça simplesmente para de falar. Ela é levada ao hospital e colocada aos cuidados da enfermeira Alma, interpretada por Bibi Andersson. A médica que cuida de Elisabet não vê sentido em mantê-la ali, e recomenda que ela e Alma passem algum tempo em sua casa de praia.

Juntas elas ficam na praia, cozinham, tomam café e a cada dia Alma começa a se abrir mais, e mesmo sem uma única palavra de Elisabet, ela se sente confortável para desabafar. Tudo corre bem, até que um dia Alma está a caminho da cidade para levar algumas correspondências, e encontra um envelope aberto. Na carta, direcionada à médica, Elisabet conta que Alma fala de seus pecados passados.

A partir disso, Alma se sente traída, e a relação das duas começa a deteriorar rapidamente, partindo até mesmo para episódios de violência física. Em meio a isso, o marido de Elisabet chega ao refúgio das duas e se direciona a Alma como se ela fosse sua esposa. Desconfiada, ela olha para ele e para a companheira, mas logo se entrega aos braços dele, pedindo desculpas, e dizendo que está confusa e com saudades do filho.

Paro por aqui os comentários sobre o filme, porque é necessário assistir para criar uma percepção sobre os acontecimentos. Bergman era um ser humano desprezível, se relacionava com todas as suas atrizes, teve vários filhos e foi ausente com todos, mas sabia como ninguém dirigir seus atores. Claro que as atuações de Ullmann e Andersson são fenomenais, e o conjunto torna este um dos filmes mais especiais da minha vida. Já vi Persona milhares de vezes, e mesmo assim, nunca canso de me surpreender. Em cada revisão descubro uma nova camada e um ponto novo. Acho que clássicos são assim.

Uma curiosidade: Liv Ullmann também é escritora, e publicou dois livros que foram lançados no Brasil: Mutações e Opções. Encontrei ambos num sebo e até hoje são minhas leituras preferidas. Em 2008 a extinta Cosac Naify relançou Mutações, e Ullmann veio ao país para uma sessão de autógrafos. Eu era a segunda da fila. Quando cheguei perto dela, não conseguia parar de chorar. Meu DVD de Persona tem seu autógrafo.


Texto: Michelle Henriques
Imagem de destaque: Tati Ferrari

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