Os mortos inquietos: Charles Dickens e fantasmas em Doctor Who

Antes dos especiais de Natal tornarem-se uma tradição em Doctor Who, quando a série estava retornando de seu hiatus, houve um episódio que muitas vezes é esquecido quando fala-se sobre DW e o Natal: Os mortos inquietos (The unquiet dead, no original), o 3º episódio da 1ª temporada do New Who (Doctor Who 01x03). 

Nele, o Doctor (Christopher Eccleston) pretende levar Rose (Billie Piper) para passar o Natal em Nápoles, no ano de 1860. Entretanto, a TARDIS possui vontade própria e acaba deixando-os em Cardiff, no ano de 1869. Eles decidem se aventurar pela cidade, aproveitando o clima natalino, e decidem aproximarem-se de o que parece ser um tumulto. É o teatro, onde Charles Dickens (Simon Callow) está fazendo uma de suas famosas leituras. Era costume na época que Dickens visitasse cidades, lendo suas obras para um público numeroso. Enquanto Dickens conta uma história sobre fantasmas, uma senhora levanta-se em meio a multidão, com um aspecto terrível, emanando uma luz azulada e espectral. A cena, que parece ter saído de um livro do autor, assusta o público, que certamente não estava esperando por nenhuma manifestação fantasmagórica naquela noite. 

O Doctor, acostumado a coisas estranhas, vai investigar o que está acontecendo, o que o leva a dividir uma carruagem com Charles Dickens, na qual ele declara-se o fã número 1 do escritor. A conversa entre eles é repleta de piadas literárias e expressões que Dickens, como um verdadeiro homem vitoriano, não compreende. Os mortos inquietos é, afinal de contas, o primeiro episódio que volta ao passado no New Who, e é claro que conceitos como anacronismos entre um viajante do tempo e um nativo são ressaltadas. 

Enquanto isso, Rose acorda subitamente numa funerária, rodeada por corpos de mortos. Assustada, logo ela depara-se com um cadáver se levantando e indo em sua direção. Felizmente, o Doctor e Dickens chegam ao local para resgatá-la. Mas o mistério está a postos: fantasmas tomaram Cardiff na noite de Natal? 

É por pouco que esse episódio não possui tons mais sombrios. Desde suas primeiras cenas, com o agente funerário preocupado com os mortos inquietos, somos levados a crer que existe algo de sobrenatural ali. O início do episódio é quase o de um filme de terror clássico, com uma assombração vitoriana que toma os corpos dos mortos para fins ainda não revelados. Aliás, existe um debate a respeito de qual temporada de Doctor Who é a mais sombria, com mais elementos de terror. Particularmente, creio que a primeira do New Who seja assustadora (quem lembra do nono episódio, A criança vazia?). Todo o arco de Christopher Eccleston é mais sério, o que entendemos melhor depois, quando ficamos sabendo de onde ele veio e qual encarnação do Doctor ele era antes de assumir aquele rosto. 

Os desdobramentos dos fantasmas gasosos levantam questionamentos morais em Doctor Who. Após algumas tentativas de diálogo, o Doctor descobre que eles se chamam Gelth e são uma raça alienígena que procura por permissão para usar os corpos dos mortos da Terra para viverem entre nós. Segundo eles, seu mundo foi destruído e eles não têm para onde ir. Seria ético permitir que os Gelth utilizassem os corpos dos mortos para conseguirem sobreviver? É uma questão perturbadora pontuada no episódio. 

Os mortos inquietos nos lembra da natureza alienígena do Doctor. Ele, como um sobrevivente da Time War, que perdeu todos os seus semelhantes, valoriza a sobrevivência de uma espécie seja lá como for. Mas o julgamento de um alienígena, ainda que seja o Doctor, vale para legitimar que os cadáveres de seres humanos sejam usados como receptáculos de seres gasosos do espaço na Cardiff de 1869? É algo complicado. 

Ainda que um dos grandes destaques do episódio seja Gwyneth (Eve Myles), uma criada e ajudante do agente funerário, que esconde sua mediunidade, é interessante como a figura de Charles Dickens, um escritor famoso, mesmo em sua época, que havia perdido a conexão com sua família e a humanidade em geral, encontrou naquela descoberta de vida para além da Terra um renovar de suas forças e vontades. Doctor Who possui o grato costume de retratar personagens históricos em contextos solitários e um pouco perdidos, mostrando que permitir-se conhecer algo além do contexto a que estão acostumados pode fazer a diferença. 

Seu amigo e biógrafo, John Forster, afirmou que Dickens sempre teve uma queda pelo sobrenatural e somente não se envolveu com o movimento espiritualista da época (com suas sessões espíritas, fenômeno popular naquele momento) porque seu bom senso falava mais forte. Criado ouvindo histórias de terror de sua babá, o escritor levou muito do que cresceu escutando para suas próprias obras literárias, cultivando o interesse pelo oculto durante toda a vida. No entanto, ele permaneceu cético, sentindo-se atraído pelo fenômeno sobrenatural, todavia sem mergulhar nele. 

O episódio brinca com isso, fazendo com que as certezas de Dickens sejam derrubadas durante o encontro com o insólito. Mas não é mostrado que o autor participava do London Ghost Club, um clube destinado a investigar o sobrenatural, cujos membros dedicavam-se a compreender fenômenos paranormais. Porém, seu abraço ao sobrenatural só ocorreu no final de sua vida, quando, ao lado de outras personalidades da época, Dickens juntou-se ao clube - o que não fez, entretanto, com que ele virasse um crédulo. Charles Dickens continuou certo de que as aparições e outros fenômenos semelhantes poderiam ser racionalmente explicados. Contudo, embora ele tenha permanecido cético até o final de sua vida, a figura de um Dickens andando na neve, numa noite de Natal, rodeado por fantasmas, permanece firme e forte na imaginação de seus leitores. 

Referências 




Texto e imagem de destaque: Mia Sodré

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