A Curva do Sonho e os limites da pesquisa científica


"Uma pessoa que acredita, como ela, que as coisas se encaixam, que há um todo do qual se é uma parte, e que, ao ser parte, se está inteiro, essa pessoa não tem o desejo de, em um momento qualquer, brincar de Deus. Só quem nega o próprio ser anseia por brincar de Deus."

Ursula K. Le Guin, autora de ficção científica nascida em Berkeley, na Califórnia, mostra em suas obras como a ganância humana pelo poder e a vontade de tudo controlar podem ser altamente destrutíveis. Seu livro A Curva do Sonho, publicado pela primeira vez em 1971, é do início ao fim, uma prova disso. 

Ao dar vida para o personagem Geoge Orr, Le Guin o caracterizou, acima de tudo, como alguém que necessita ser ouvido e cuidado. É esta necessidade que o leva a procurar o Dr. Harber, um psiquiatra especialista em sonhos que promete ajudá-lo com sua maior preocupação: toda vez que dorme, Orr relata acordar em um mundo onde seus sonhos se tornaram reais e alteraram a ordem das coisas, e é por isso que há dias, George está sem dormir através do uso de remédios. 

Todo o contexto da sociedade apresentada não facilita a melhora do quadro: a superpopulação levou a um racionamento na distribuição das drogas farmacológicas, cujo controle é realizado a partir de um cartão com limites de uso para cada cidadão. Apesar do método, o sistema é facilmente burlado pelos usuários, que pagam para que pessoas que não utilizam os seus créditos mensais os vendam, e é alimentando esse sistema de pequenas corrupções que George evitou, por tanto tempo, procurar o tratamento adequado, já que quando tentou conversar sobre o que percebia acontecer após suas noites de sono, foi descredibilizado. Seu encontro com o Dr. Harber passa a ser então, sua única chance de melhora quando o profissional o testa e comprova que acontecem alterações fora do plano das ideias após suas noites de sono, aceitando-o como seu paciente. 

A princípio, Harber de fato parece querer ajudar na melhora de Orr, mas conforme o paciente retorna para suas consultas de hipnose aliadas a uma máquina ainda sem aval da comunidade científica que indica quando o paciente sonha para que seja acordado pelo médico, o psiquiatra passa a imaginar como seria ser o responsável por tornar a sociedade em que vive melhor através de George, sem medir as consequências de uma interferência tão séria no curso da história humana, e mais importante ainda, sem considerar a ética de seu trabalho e de uma pesquisa científica feita sem o conhecimento adequado. 

"A característica da sede por poder é, precisamente, o crescimento. O êxito é sua anulação. Para existir, a sede por poder deve aumentar a cada realização, tornando essa realização apenas um passo em direção a outro. Quanto mais vasto o poder conquistado, maior o apetite por mais."

Conforme Harber enxerga, dia após dia, novas problemáticas para solucionar, ele anula também, outros avanços benéficos. Além disso, as consequências de cada sonho guiado não são sempre ótimas, deixando rastros de um efeito borboleta. Cada vez que acerta, o médico se sente mais capaz de continuar usando Orr para interferir na vida real, e cada vez que erra, acredita que apenas interferindo novamente será capaz de tornar a vivência de todos ao seu redor boa novamente. 

Em 2014, durante a premiação do National Book Awards, Ursula disse em seu discurso que tempos difíceis se aproximavam, e que neles, precisaríamos mais ainda das vozes dos escritores para encontrar alternativas ao que vivemos. Falecida em 2018, vítima de um ataque cardíaco, a autora pareceu prever o que vivemos com a atual pandemia e o discurso negacionista cada vez mais forte em um momento que tanto se depende da ciência. Se em A Curva do Sonho o poder sobre George "dado" a Harber o faz perder o controle da ética de seu próprio trabalho, na vida real, o poder de governar parece dar aos homens a completa perda do entendimento sobre o que é ou não uma escolha dentro de interesses próprios que exclua comprovações científicas, como o uso inadequado de remédios ineficazes (e com sequelas sérias) para doenças com tratamentos ainda em testes, e falas que deixam a população insegura sobre o uso de vacinas. 

É importante salientar que no mundo criado por Le Guin, as pessoas já se encontravam em situações que fugiram do controle, e a falta de ética na pesquisa de Harber é só mais uma delas. São muitos os protocolos e os profissionais altamente qualificados e confiáveis que dedicam horas em estudos e laboratórios para que suas pesquisas sejam publicadas e devolvam à sociedade o que é investido nelas. Nenhuma falácia política com interesses tão genocidas deveria nos fazer duvidar disso. 

A décima terceira edição da revista EntreTeses, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), publicada em Outubro de 2020 tratou muito bem sobre o tema do negacionismo científico, aliando, inclusive, a ocorrência da pandemia com questões climáticas, devido a perda de hábitats naturais de animais silvestres. Temos, então, não só a negação da eficácia de vacinas ou de métodos como o isolamento social enquanto o vírus circula: a própria descrença no aquecimento global leva à consequências drásticas como a que estamos vivendo, sendo a perpetuação de noticias falsas e o descrédito do método científico, assim como no universo de Ursula K. Le Guin, a condenação dos humanos. 



Referências



Texto e imagem de destaque: Tati Ferrari

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