J. R. R. Tolkien: uma biografia do Senhor da Terra Média

John Ronald Reuel Tolkien não apreciava biografias. Era contra o conceito delas sendo usadas como críticas literárias. Para conhecer um autor, você só precisa ler as obras dele. Conviver com ele. Mas isso foi em Oxford, em 1920. Não temos uma eficaz máquina do tempo para reencontrarmos o escritos de uma das — se não a mais — famosa obra de mitologia ocidental moderna. 

Na falta da magia de Gandalf, um aventureiro, Humphrey Carpenter, decidiu fazer da vida do escritor um estudo. J. R. R. Tolkien: uma biografia também é considerada a melhor feita sobre a vida pessoal do criador da Terra Média, inclusive pela própria família do autor. Mas, para conhecer Ronald primeiro precisamos conhecer o órfão exilado que amava seu irmão mais velho e sua mãe mais do que qualquer coisa. Existem algumas concepções um tanto errôneas rondando por aí graças ao período de vida em que ele existiu. Algumas, infelizmente, são verdadeiras. Outras não passam de invencionices. 

Para aqueles fãs mais apaixonados que consideram a comparação de Galadriel com a Virgem Maria como algo absurdo e forçado, deixe-me falar: Tolkien era um católico fervoroso. Desde a infância. Um homem que não tinha uma garagem após a Segunda Guerra Mundial pois manuscritos e livros tomavam mais espaço em sua casa do que carros. Um professor de voz "estranha, mas profunda", que engole frases e parece falar consigo mesmo a maioria do tempo. Mas esse é um Ronald em seus anos finais, cansado, feliz, cujo legado tinha desfrutado ainda em vida. O Ronald sobre o qual pretendo falar é alguém em crescimento. 

J. R. R. Tolkien era filho de Mabel Suffield e Arthur Tolkien — Mabel deixou a Inglaterra para trás, e foi na África do Sul que se casou com Arthur. Casaram-se em Cabo, em 1891, e, em 1892, tiveram seu primeiro filho. Falar sobre os pais de Tolkien parece um pouco fora de tema, mas sua mãe é um elemento tão vital em sua vida que ressoa em suas histórias, vide uma menção ou outra de que as mulheres na Terra Média são inspiradas nas mulheres em sua vida — Galadriel sendo um bom palpite para a representação materna.

Falando em histórias, sabe o pavor de Tolkien por aranhas nas suas? Quase todo grande épico dele envolve uma. Existem as teorias das aranhas engolidoras de mundos, vindas do ocidente, já que no oriente as aranhas são vistas como seres de melhor reputação. E existe um terceiro conto verídico, algo possível de ser tomado por justificativa ou não: quando Ronald começou a dar seus primeiros passos, foi aterrorizado por uma tarântula. O aracnídeo lhe mordeu, e, se a babá não tivesse sugado o veneno para fora com seus dentes, talvez não houvesse a Comitiva do Anel hoje em dia. Tolkien jurava de pés juntos que esse episódio não teve influência alguma em quantas vezes uma aranha mortal aparece em suas histórias. 

Com a morte do pai e depois a da mãe, começou um rodízio de lares para os irmãos Tolkien. Encontraram paz apenas com o Reverendo Francis, dedicado à educação cristã e acadêmica deles. Mas não foi fácil, nada foi mais árduo do que ter a memória impressa de sua heroína cravada na mente. Mabel era uma mulher extraordinária, e talvez, apenas conjecturando, o respeito que ele tinha pelas mulheres derivou de todo carinho que tinha por sua mãe. Aliás, devido ao contexto cristão do autor, muitos indevidamente comparavam seus personagens a componentes da Bíblia. 

Na época, ele respondia as cartas enviadas por fãs sempre em negativa, e ainda dava exemplos: se você queria comparar Galadriel a alguém, que fosse à mãe dele, Mabel — o que nos leva a teorizar sobre o quão poderosa Galadriel era. “Minha querida mãe foi de fato uma mártir, e não é a qualquer um que Deus concede um acesso tão fácil às suas dádivas como concedeu a Hilary e a mim, dando-nos uma mãe que se matou de trabalho e preocupação para que mantivéssemos a fé.” Foi algo que Tolkien escreveu nove anos depois da morte de sua mãe.

J. R. R. Tolkien e seu irmão, Hilary Tolkien

Hilary, de quem fala, é seu irmão. Ambos tiveram caminhos muito distintos. Um escolhendo a trilha das palavras, o outro, da natureza. E, numa outra demonstração de carinho do escritor, dois personagens de seus primeiros livros, Beren e Lúthien, eram… ele e sua esposa. Apaixonou-se por ela da mesma forma que Beren, observando-a dançar. Essas duas mulheres tiveram uma marca profunda na vida, educação e decisões que o futuro J.R.R Tolkien teria. O luto por sua mãe, de certa forma, nunca foi embora. Tornou-se parte dele, mas virou uma raiz. Uma raiz forte, que lhe entregou um futuro espetacular na memória dos leitores de fantasia. Seu amor por idiomas provinha dela, de Mabel, e desde sua perda, seguiu adiante com o seu amor por línguas novas, estudos por muitos desprezados; também foi durante esse período que começou escrevendo diários incessantemente. Diários esses que iam servir no futuro para suas obras, e depois para Christopher Tolkien finalizar algumas daquelas ainda em aberto. Tolkien e seu irmão, ao tornarem-se órfãos, ficaram sob os cuidados do padre Francis, o mesmo homem de fé capaz de garantir a entrada de Tolkien em Oxford. Mas o período ali não durou muito tempo, pois foram tomados pelos cuidados de tios que, no “auge de sua sensibilidade", queimou as cartas, papéis e escritos pessoais da mãe dos meninos. Aquele não era seu lar, e ele continuou perto do padre Francis, fazendo da igreja sua morada. 

A vida em King Edward's

Agora um jovem garoto, teve de entrar na King Edward's, onde fez laços para a vida, mas o maior deles foi observar o amor pelos idiomas. Estudou latim, grego, francês e alemão. E não parou por aí: começou o estudo da filologia e foi adiante no anglo-saxão. 

Sua dedicação pelas palavras não poderia ser considerada como um mero hobby, e qualquer dúvida foi colocada para trás quando Ronald deparou-se com Beowulf. Podemos arriscar até e dizer que não fosse essa leitura, ele não teria transformado a visão que tinha da literatura. Primeiro, ele a fez em inglês comum, depois em anglo-saxão, sempre tomando notas. Para os não-familiarizados: em Beowulf, um guerreiro luta com dois monstros e morre após a batalha com um dragão. 

Não apenas com Beowulf ele se encantou, mas também com Sir Gawain e O Cavaleiro Verde. De novo, a influência da sua mãe se escondeu nas profundezas do interesse: o dialeto era similar ao falado pela linhagem dela. Seu próximo passo foi, para o bem da verdade, um dos mais importantes: se arriscou no nórdico antigo. Ali, novamente se encantou com dragões, e agora, com a história de Sigurd— A Lenda de Sigurd e Gudrún, que é um dos livros compostos por ele, provavelmente escrito na década de 1930. De Beowulf, para Gawain e Sigurd, começou a juntar dinheiro para se debruçar em livros de filologia. Livros alemães, robustos, que gritassem seu amor pelas palavras. Não era apenas uma atividade; era uma paixão. E foi assim, apaixonado, que começou a criar seus próprios idiomas. 

O jovem Tolkien

Dentre as línguas cuja formação o jovem Ronald participou, estavam: animálico (com suas primas), nevbosh (novo disparate), desenvolvida ao ponto de criarem poemas cômicos nela. Daí em diante foi apenas desenvolvimento: uma vez adolescente e dominando o grego, pensou: por que não criar algo sério? Sabia latim, grego, inglês, francês, poderia inventar um idioma mais sério para se divertir. Ignorou todos esses e foi se debruçar na biblioteca do padre Francis, usando do espanhol para o esboço do "naffarin"— mas o espanhol foi colocado de lado ao ganhar um exemplar do Manual da Língua Gótica

Como o vocabulário gótico tinha se perdido, lá foi Tolkien a criar palavras góticas complementares. E depois, "partiu para a construção de uma língua germânica supostamente não registrada, porém histórica". Ainda descontente com seu trabalho, começou a criar idiomas de trás para a frente, sentindo-se, assim, um pouco mais correto no que fazia. E, após um longo período de estudos, saiu de férias junto ao irmão e o padre Francis. Quando o padre descobriu a infelicidade dos rapazes na casa da tia, fez arranjos para que morassem noutro lugar, em Duchess Road… Onde conheceu sua futura esposa, Edith, que também era órfã. A paixão foi interrompida quando o padre descobriu tudo, lhe forçando a se separar da mulher por, pelo menos, três anos. Seriam os 21 anos de Tolkien.

“Entre duas pessoas com tais personalidades e em tais circunstâncias, era inevitável que nascesse um romance. Ambos eram órfãos com carências afetivas e descobriram que podiam dar afeto um ao outro. Durante o verão de 1909, chegaram à conclusão de que estavam apaixonados.” 

O romance durou até o fim dos tempos para Beren e Lúthien, que jazem com esses nomes em suas lápides.

O conservadorismo de Tolkien 

Mas, para a formação de sua grande mente, não foi apenas de idiomas, Edith, e igreja o bastante. Tolkien decidiu entrar na Sociedade de Debates. Acreditem, ele não era um bom orador. Pelo contrário: falava constantemente para dentro, consigo mesmo, e, no futuro, em Oxford, brilhava ao representar… Mas nas aulas, vez ou outra, adentrou na caverna de si mesmo e tinha diálogos que pareciam excluir os alunos. Contudo, foi durante seu período de debates onde demonstrou seu desprezo por Shakespeare em palavras nada agradáveis. Além de debates, o rapaz era um bom jogador de rúgbi; a única coisa que ia completamente fora de seu perfil. Todo esse período foi de calmaria, amor, romance às escondidas… E, finalmente, a revelação, aquela que fez o casal se separar por três anos. Para tornar o momento ainda mais infeliz, falhara em sua aplicação de bolsa para Oxford. Era sua primeira tentativa, algo comum de acontecer, mas, em alguém com o caráter determinado de Ronald, teve um efeito devastador. Sendo assim, escreveu em seu diário “Deprimido e nas trevas como nunca estive. [...] Deus me ajude, Sinto-me fraco e cansado”.

Sua salvação veio por intermédio de atividades acadêmicas, as quais conseguiram manter o espírito curioso de Tolkien forte e relativamente sadio. Foi aceito na Primrose League, uma associação conservadora, e, desde então, iniciou sua vida como conservador. Aqui está um dos detalhes mais incômodos àqueles amantes do escritor que não se identificam com o conservadorismo. Não devemos esquecer de seu legado no mundo fantástico, mas, ao mesmo tempo, seria um erro deixar esse lado do autor de lado. Havia, também, um quê de homofobia no grupo de associados de Tolkien; ele mesmo rejeitava com vigor figuras como Oscar Wilde e suas irreverências. 

Na biografia do autor, Carpenter chega a citar as palavras de C. S. Lewis sobre King's Edwards: “era um lugar sem frescos, ou janotas”. Tolkien afirmou que até os dezenove anos sequer sabia o significado, ou tinha ouvido falar, na palavra "homossexualidade". E, apesar de tanto desprezo por homens apaixonados por outros homens, que apreciavam a companhia de outros homens, Ronald é excepcionalmente famoso por suas raríssimas amizades femininas e sua depressão ao separar-se de C. S. Lewis. Foi um homem criado na companhia de outros, mas, curiosamente, continuou fiel a Edith; mesmo sem citar a namorada aos seus amigos. 

Tolkien e sua esposa, Edith

O capítulo chamado T.C, B.S, ETC, descreve o Clube do Chá que Tolkien e os companheiros responsáveis pela biblioteca montaram, uma espécie de irmandade incorruptível para a leitura de poemas, prosas e incentivos intelectuais. Mais ou menos como acontece em Sociedade dos Poetas Mortos. Esse clube, somado à dedicação intensa ao Clube de Debates, levaram-no a ganhar uma bolsa razoável em sua segunda tentativa para Oxford. Padre Francis, sempre solícito, garantiu que ele estivesse a caminho da melhor educação possível. E, durante o verão, antes de embarcar em sua nova aventura intelectual, tirou uma viagem de mochilão com uma família próxima e seu irmão. Por que menciono esse momento trivial? Pois foi ali que ele encontrou Gandalf pela primeira vez. Aconteceu na compra de um inocente cartão de Natal, antes de embarcar de volta para a Inglaterra. Se atraiu por um, cuja pintura era feita pelo artista alemão J. Madelener. E, a fim de que não percam o sentimento da passagem, eis aqui as palavras do autor:

“Chamava-se Der Berggeist, o espírito da montanha, e mostrava um velho sentado em uma rocha sob um pinheiro. Tinha uma barba branca e usava um chapéu redondo de abas largas e uma longa capa. Falava com uma corça branca que roçava o focinho nas palmas de suas mãos e sua expressão era jocosa, porém compassiva. Podiam-se entrever montanhas rochosas ao longe. Tolkien guardou cuidadosamente este cartão-postal e muito tempo depois escreveu no envelope onde o mantinha: 'Origem de Gandalf”."

Castelos internos do homem comum 

O aspecto mais fascinante de Tolkien não tinha morada em sua mente brilhante, capaz de  reproduzir, reinventar, criar e interpretar fantasias num tempo onde o próprio gênero não era lá grande coisa na produção britânica. “O Fator Tolkien” que te induz a continuar lendo sua biografia e acompanhar sua vida, é o encanto no que é comum. No quão ordinário esse “homem alto, de fala para dentro, que vive em seu próprio mundo” era. O quão simples aquele homem era. 

É fácil que nós, leitores, nos identifiquemos com essa faceta do escritor, assim como com seu perfeccionismo negativo, algo que o levou a nunca terminar determinadas obras. Não fosse seu filho, Christopher Tolkien, jamais teríamos O Silmarillion compilado do jeito que é, entre outras obras que foram revistas em seus diários e recortes. 

J. R. R. Tolkien

De acordo com um colega de Tolkien, citado na biografia, o inventor de O Senhor dos Anéis por vezes era inseguro, e noutras vezes sequer ligava para o que diziam. Por exemplo: criticar um pequeno trecho poderia acarretar numa mudança completa de capítulo e origem, enquanto críticas mais duras surtiam zero efeito. J.R.R Tolkien, o Pai da Fantasia, sofria da mesma síndrome do impostor que muitos de nós. Ele não enviava manuscrito algum até que estivesse “perfeito”; e sabemos, a perfeição não existe. O escritor também partilhava desse conhecimento, e continuou a sofrer de suas inseguranças até o fim.

Enfim, Oxford

Em Oxford, fez parte do Clube de Ensaios e da Sociedade Dialética. Também de Stapleton, o grupo de debates da universidade. Além disso, criou seu próprio clube: os Apolausticks (amantes da boa vida); parecido com aquele em St. Edwards, mas numa versão mais refinada, apropriada para o local. Tinham palestras, leituras, jantares, debates, e foi lá também que nasceu seu vício em tabaco, algo pelo qual seria marcado por toda vida, em fotografias, principalmente. 

Oxford consolidou seu gosto por mais uma literatura, a germânica, e, a partir de então, passou a considerar grego e latim extremamente entediantes. Mas seu tédio durou pouco tempo, pois, ao adentrar na matéria de filologia, conheceu seu mestre, Edgar Wright — um homem com o qual conseguia se identificar muito. Wright vinha de uma família humilde, trabalhadora, apaixonou-se pela filologia e era autodidata. Para se ter ideia, ele dominava sânscrito, gótico, búlgaro antigo, lituano, russo, nórdico antigo, e o inglês antigo (saxão). Wright não demorou para ter Tolkien como seu aprendiz particular. Nesse ínterim, abandonou as Letras Clássicas, passando a estudar Inglês. E, depois de tanta dedicação, conseguiu um “Alpha Puro” em filologia comparada, sua matéria predileta, algo que o permitia estudar em modo avançado e tornar a mesma sua especialidade. E foi aí que tudo mudou. Podemos chamar esse estudo de “a raiz da Terra Média”. 

Colin Cullis e J. R. R. Tolkien em Oxford, em 1912

No nórdico antigo (islandês antigo), do século IX, ele se deleitou. Leu as sagas de Edda em Prosa, e em todas suas derivações. Por conselho de Wright, também estudou o Céltico; “é aí onde o dinheiro está”. Mas foi no finlandês que encontrou outra de suas literaturas marcantes: o Kalevala. Para falar a verdade, nunca aprendeu o idioma por inteiro, mas ficou tão maravilhado por sua fonética e processo que se lançou a um novo projeto. Um que alguns de vocês devem conhecer profundamente: o quenya, ou alto-élfico. Ele não veio logo de pronto, mas foi no Kalevala que nasceu. Em suas palestras por Oxford, nunca conteve seu amor por mitologia, e a profunda tristeza de que não houvesse uma herança similar na literatura inglesa. Mal sabia o estudante que iria mudar para sempre a história do mundo com seus personagens, sua concepção de amizade, sua criação de universo e sua mensagem de esperança, em tempos onde a luz parece opaca, findando, fraca demais para nos proteger. 

Foi na literatura que Tolkien manteve a sanidade durante a Primeira Guerra Mundial. E é na literatura que, em tempos pandêmicos, em tempos de desesperança, podemos sentir a luz tornando-se forte de novo. Porque de repente, fazemos parte de um novo mundo. 





Texto: Nathália Morais
Imagem de destaque: Sofia Lungui 

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