Claro Enigma: os poemas de Carlos Drummond de Andrade


Requerido pela FUVEST como leitura obrigatória desde a prova de 2017, Claro Enigma, publicado pela Companhia das Letras, reúne poemas de Carlos Drummond de Andrade, escritor do movimento modernista da literatura nacional.

Publicada pela primeira vez em 1951, a obra mostra um Drummond mais introspectivo, que reflete sobre perdas e a respeito dos seus próprios fardos. Esse enevoamento do poeta tem seus porquês: as datas dos escritos coincidem com a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. A instabilidade que o momento histórico dava ao autor se mostra, logo de cara, no título escolhido para a antologia, ao nomeá-la como um enigma, algo difícil de se entender, mas que ainda assim, segundo ele, é claro. No movimento barroco, por exemplo, a contradição era usada para demonstrar conflitos pessoais, e o abandono da tentativa de entender à humanidade antes de si. Diante da instabilidade política e social que alastrava todos os continentes, o conflito do poeta modernista se baseava em continuar ou não a ter esperança em tempos melhores e no levante da voz popular. Sem conseguir visualizar um futuro diferente de seu presente, é mais uma vez a escrita seu próprio ponto de encontro. 

"A linguagem poeticamente articulada pode salvar o homem da destruição total, na medida em que o leve ao conhecimento de si mesmo e a perpetrar uma obra que sobreviva ao seu corpo. Pela linguagem, o individuo pode aprisionar o tempo e libertar-se da morte." — Carlos Drummond de Andrade: Análise da Obra, de Affonso Romano Sant'Anna.
Entre os 41 poemas do livro está "A Máquina do Mundo", elegido pela Folha de São Paulo como o melhor poema brasileiro de todos os tempos. Nele, uma máquina silenciosa surge em uma estrada barulhenta de Minas, e é dela a voz do poema. Ao tentar dialogar com um caminhante dali, este a ignora, e a máquina segue seu caminho até o anoitecer, desalentada. 

"[...] assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
'O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.'" 
Trecho do poema A Máquina do Mundo.

O autor 


Nascido em 31 de Outubro de 1902, na cidade de Itabira de Mato Dentro, em minas Gerais, Carlos Drummond de Andrade, formou-se em Farmácia no ano de 1925, e casou-se com Dolores Dutra de Morais. Apesar do diploma distante da escrita, no mesmo ano da formatura e do casamento, fundou junto de outros escritores a Revista, posteriormente muito importante para o modernismo mineiro.

O pontapé para o sucesso nacional veio em 1928, após a publicação do famoso poema "No Meio do Caminho", na Revista de Antropofagia de São Paulo. A partir desta publicação, seus poemas, contos e crônicas, ganharam notoriedade dos principais movimentos atrelados à arte no Brasil. 

Com Dolores, teve dois filhos: Carlos Flávia e Maria Julieta. Carlos, infelizmente, resistiu apenas 30 minutos após o parto, e para ele, Drummond escreveu o poema "O Que Viveu Meia Hora", com seu primeiro verso sendo "Nascer para não viver".

Sua morte foi trágica para além da perda do grande poeta: 12 dias antes do infarto a que não resistiu, sua filha havia falecido vítima de um câncer, e Drummond declarou ter perdido o sentido da vida. 


Referências




Texto e imagem de destaque: Tati Ferrari

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