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Anne de Green Gables, de Lucy Maud Montgomery

Publicado pela primeira vez em 1908 pela autora canadense Lucy Maud Montgomery, Anne de Green Gables é o primeiro livro de uma série com oito obras (além de outras três com crônicas que revivem personagens do universo), que mostram a vida da protagonista, Anne Shirley, com alguns espaços de tempo, dos 11 aos 53 anos, em Avonlea. Um clássico da literatura juvenil, o livro ganhou maior notoriedade no Brasil ao ser adaptado para uma série de TV pelo serviço de streaming da Netflix em 2017.  

No primeiro livro, conhecemos o pequeno vilarejo de Avonlea, na Ilha Prince Edward, Canadá, um lugar para pessoas discretas e que prezam a vida simples, como a senhora Rachel Lynde, amante do "respeito ao decoro e à decência", parte da família proprietária de um dos vales da ilha, casada com Thomas Lynde, e que para assegurar a ordem do vilarejo, mantem-se informada sobre as novidades nas vidas de seus outros moradores. 

Matthew Cutbert, da propriedade Green Gables, também preza muito pelo respeito entre os habitantes de Avonlea, mas de um jeito diferente do que possui a senhora Lynde: mantendo-se distante da vida particular dos demais. Tímido, Matthew herdou a propriedade do falecido pai, onde passou a residir com a irmã, Marilla. Com ambos solteiros e sem herdeiros para suas terras, os irmãos decidem adotar uma criança da Nova Escócia, para que seja treinada e ajude nos trabalhos com a herança deixada. 

Necessitando, portanto, dessa força de trabalho extra, os irmãos Cutbert não contavam com a adoção de uma menina, ainda mais de uma com "[...] mais ou menos 11 anos de idade, usando um vestido amarelo acinzentado muito curto, muito apertado e muito feio", como acontece quando Matthew vai buscar a criança. No entanto, vendo a estação de trem vazia e sentindo pena da garota deixada ali, Matthew a leva para sua casa, na esperança de resolver o problema com sua irmã, quem sabe, convencendo-a à aceitar Anne. 

Ilustração do livro Anne de Green Gables, editora Autêntica.

A principio Marilla resiste muito à ideia de ficar com uma criança nada semelhante a que idealizou, e sua aspereza com a situação magoa muito Anne, que nunca foi chamada para um lar e sabe que sua idade já é um empecilho para muitos dos que procuram pelo sistema de adoção. No entanto, a personalidade observacionista de Matthew, aliada a mesma característica de Anne (que ao contrário dele, consegue observar e passar para o receptor aquilo que pensa), levam a racionalidade analítica de Marilla para um lado mais empático com as dificuldades encontradas pela criança ao longo de sua vida ainda tão breve. 

Os tantos problemas que Anne enfrentou — a morte dos pais, as poucas oportunidades de estudos, a vida compartilhada com outras crianças para adoção e consequentemente, a permanência estendida no orfanato —, criaram nela não uma casca de pessimismo, mas um olhar tão esperançoso sobre tudo, que beira o exagero. Tudo para a garota tem uma lição a ser aprendida e o sofrimento, muitas vezes no enredo, é conotado por ela como um "trampolim" para mais sabedoria e crescimento pessoal no futuro, o que nem sempre condiz com a realidade: precisamos, desde cedo, mostrar para crianças em formação que nem toda dor tem um porquê ou um motivo para acontecer, mas que o tempo se encarrega de cada uma delas, sem que precisemos sempre lidar com alegria a tudo o que nos acontece quando somos compelidos por tantas outras emoções tão proveitosas quanto esta. 

"Ela me criou com muito sacrifício. A senhora sabe se existe alguma coisa nas pessoas criadas com muito sacrifício que faz com que elas fiquem melhores que as outras pessoas?"

Ao mesmo tempo em que tenta enxergar o mundo exterior com tanta positividade, percebemos o quão Anne foi afetada por suas experiências de vida quando Marilla tenta fazê-la compartilhar coisas sobre si, a fim de conhecê-la mais e quem sabe, reconsiderar a permanência da menina como deseja Matthew. Anne é capaz de falar sobre a beleza do sol, das nuvens, dos riachos e das árvores, mas alega que sua história de vida e quem ela se tornou não são interessantes para ninguém. Tanto abandono sofrido dentro do sistema de adoções (já caracterizado como falho em um livro escrito na primeira década de 1900!) tirou da protagonista algo essencial: seu amor próprio. A recusa explicita de Marilla em manter a criança em Avonlea é só mais um golpe em uma alma já muito calejada. 

"Estava evidente que ela não gostava de falar de suas experiências em um mundo que não a queria."

Não é preciso ir até Avonlea para entender o ponto crítico explorado no livro por Montgomery: no Brasil, a adoção já é considerada tardia quando a criança envolvida ultrapassa os dois anos de idade, de acordo com os perfis mais procurados pelos interessados no processo. Sequer é preciso se aprofundar em estudos psicológicos para entender o que isso causa nas memórias daqueles que passam a infância esperando por um novo lar. 

Apesar dos momentos de dúvida demonstrados no inicio da narrativa por Marilla, a personagem concorda com o irmão e aceita criar Anne ao invés de devolvê-la para conseguir o menino que desejavam. É nítido, a partir de então, seu esforço em educá-la e dar a ela uma vida que mesmo simples, seja rica em sabedorias sobre o convívio com o próximo e as boas maneiras (estas nada parecidas com as da senhora Lynde). E aos poucos, vemos como Anne alegra a casa dos irmãos Cutbert e o quão reciproca é a relação. Não é por acaso que as histórias de Green Gables deram origem a mais livros sobre a sonhadora Anne Shirley.

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Referências



Texto e imagem de destaque: Tati Ferrari 
Tati
Estudante que ainda não sabe o que vai ser quando crescer. Escreve na internet há mais tempo que se lembra. Sonha com um mundo mais literário e justo.

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