A Próxima Vítima: a novela policial-tropical

Quando falamos em romance policial, a primeira ideia que nos vem à mente é uma cidade qualquer dos EUA, de preferência com muita névoa e escuridão, um clima frio. Mas como seria um romance policial ambientado na São Paulo dos anos 1990, em pleno horário nobre? A Próxima Vítima, novela de Sílvio de Abreu, subverteu qualquer imagem que pudéssemos ter sobre tramas noir e detetives ao ambientar sua história na selva de pedra paulistana.

Em março de 1995, os telespectadores se sentaram para ver o primeiro capítulo de A Próxima Vítima. Logo na primeira cena, Arnaldo Roncalho (Reginaldo Faria) morre atropelado. Alguns capítulos depois, mais duas vítimas: Francesca Ferreto (Tereza Rachel) e Hélio Ribeiro (Francisco Cuoco). Estabelecia-se, assim, a história principal da novela: quem havia matado esses personagens? Qual era a ligação entre eles? Todos os personagens pareciam suspeitos. Lembrando que a novela contou ao todo com sete mortes.

Sílvio de Abreu e Jorge Fernando, o diretor da novela, criaram uma trama policial muito brasileira. Para começar, a própria abertura de A Próxima Vítima é um show à parte: vários pontos turísticos de São Paulo aparecem enquanto personagens da novela são alvejados e morrem com um tiro. "Sou vítima da sua janela indiscreta", canta Rita Lee na abertura. O Mercadão de São Paulo e o MASP viraram cenários inesquecíveis, provando que o romance policial tropical é possível.

A fusão quase perfeita entre melodrama e romance policial

Um romance policial pode ter muitas ou poucas páginas. Um filme pode ter algumas horas. No entanto, como sustentar uma trama policial em uma estrutura folhetinesca? A Próxima Vítima tinha esse desafio em mãos. Como fazer com que o público permanecesse interessado em saber quem era o assassino do Opala preto?

A resposta, talvez, resida em uma entrevista de Sílvio de Abreu para o Memória Globo. Nela, ele conta que escreveu a novela em duas frentes: a romântica e a policial. Se o telespectador não quisesse prestar atenção ao mistério, ele podia se concentrar nos romances. Dessa forma, Sílvio e seus colaboradores, Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, conseguiam conduzir o público de duas formas diferentes. Quando a trama policial parecia desinteressante, havia o romance entre os personagens para entreter. Inclusive, um dos pontos mais legais de A Próxima Vítima é que os romances principais se davam entre os personagens mais velhos. Ana (Suzana Vieira) vivia dividida entre Marcelo (José Wilker) e Juca (Tony Ramos), por exemplo.

As irmãs Filomena (Aracy Balabanian) e Francesca Ferreto (Tereza Rachel)

Ao longo dos 204 capítulos da trama, percebemos como Sílvio de Abreu realizou um casamento perfeito entre o melodrama e o romance policial. Ele mistura os dois elementos em diversos momentos, porque ligações amorosas e acertos do passado estão no cerne da resolução do assassino de A Próxima Vítima. Graças a essa fusão quase perfeita, o telespectador quase não sente as chamadas "barrigas", ou seja, quando o autor está "enrolando" o público até aparecer outro plot twist.

Outro detalhe bastante interessante sobre a estrutura da novela é que Sílvio de Abreu revelava, à medida que a novela avançava, seus planos para os colaboradores. Nem eles sabiam quem era o assassino. A novela por si só é uma obra aberta, com participação do público. No entanto, no caso do "whodunnit" de A Próxima Vítima, isso coube inteiramente ao autor.

Do cinema à literatura: uma novela policial-tropical

Em diversos momentos da teledramaturgia, o Brasil parou para desvendar assassinatos em telenovelas. Quem matou Salomão Ayala? Quem matou Odete Roitman?, das novelas O Astro e Vale Tudo respectivamente. Foram "whodunnits" que sacudiram o país. Porém, nenhuma novela jamais havia se concentrado quase que inteiramente em assassinatos. Nesse sentido, A Próxima Vítima foi revolucionária.

Após alguns capítulos, descobríamos que o assassino matava de acordo com uma lista do horóscopo chinês. A lista continha os animais do horóscopo chinês ao lado de datas de nascimento. Dessa forma, se você descobrisse o ano de nascimento, já dava para calcular mais ou menos a idade da próxima vítima.

Até a metade da novela, ainda não existia a figura do Detetive Olavo (Paulo Betti), então Sílvio de Abreu se valeu de uma estratégia muito interessante: ele usou uma de suas personagens, Irene (Vivianne Pasmanter), para ser o público durante a busca pelo assassino. Ela começa a investigar as mortes quando seu pai, Hélio Ribeiro, morre envenenado em uma sala do Aeroporto Internacional de Guarulhos.

Irene é uma espécie de Miss Marple, personagem icônica das histórias de Agatha Christie, de A Próxima Vítima. Como a simpática senhorinha dos livros da Dama do Mistério, Irene é uma pessoa comum, mas com uma inteligência apurada. A jovem estuda Direito, e não é à toa que sua matéria preferida na faculdade é Direito Penal. 

Irene (Vivianne Pasmanter) e detetive Olavo (Paulo Betti)

Quando ela começa a investigar o mistério de A Próxima Vítima, estamos tão no escuro quanto ela. Irene vai se transformando em peça chave à medida que junta as peças e descobre possíveis elos entre as vítimas do assassino do Opala preto. Irene é os olhos e ouvidos do telespectador. É por meio dela que conseguimos acompanhar a história do assassinato. Sílvio de Abreu usa Irene para atualizar o telespectador dos últimos passos e feitos do assassino.

Em A Próxima Vítima, podemos perceber o tempo todo como Sílvio de Abreu e Jorge Fernando são fãs de cinema clássico e tramas policiais. A trilha sonora instrumental da novela inclui o prelúdio que abre um dos filmes de Alfred Hitchcock, Psicose. Os violinos furiosos de Bernard Hermann aparecem quase sempre quando o assassino está por perto ou alguém menciona o crime. Vale destacar que o mesmo prelúdio foi utilizado em Cambalacho, uma novela de comédia do autor, onze anos antes.

Como dissemos anteriormente, A Próxima Vítima mistura melodrama e romance policial. Isso fica bastante evidente quando analisamos a trajetória da família Ferreto ao longo da novela. Os Ferreto são donos de um frigorífico, uma família poderosa de São Paulo e com um nome a zelar. O núcleo principal dos Ferreto é formado por três irmãs: Filomena (Aracy Balabanian), Carmela (Yoná Magalhães) e Francesca (Tereza Rachel).

O melodrama começa pelo fato de que as três irmãs se odeiam. Filomena é uma mulher ambiciosa, que roubou as ações de Carmela para assumir o controle do frigorífico. Já Carmela e Francesca são mulheres infelizes por conta de casamentos fracassados. Dentro da casa dos Ferreto, o ódio é um sentimento muito palpável. 

Nesse sentido, a trama central dos Ferreto lembra muito os melodramas de Douglas Sirk. Em Palavras ao Vento, filme de 1956, temos a história de uma família infeliz, mas dona de um império petroleiro. Ressentimentos e amores são requentados com a ambição por dinheiro. Assim como nos filmes de Sirk, A Próxima Vítima está sempre tentando mostrar os dois lados da família ao opor valores: a riqueza versus a superficialidade, o dinheiro versus a falta de amor.

Sílvio de Abreu, ao criar as três irmãs icônicas, fundiu Douglas Sirk, trama policial e o filme O Poderoso Chefão. Filomena Ferreto é a personificação de Don Corleone, aquela que governa A Família, quase como se fosse uma máfia. Ela protege os seus como ninguém, até mesmo quando eles cometem erros. Talvez esse seja sua maior perdição. Todos temem Filomena, mas no fundo ela também tem suas questões. Um casamento por conveniência e o amor incondicional pela sobrinha são traços que adicionam um toque melodramático e trágico à sua história.

Talvez por causa de tantas semelhanças com o melodrama, exista uma carga muito forte de moralismo quando pensamos nas mulheres de A Próxima Vítima. De certa forma, quase todas elas são punidas ou vítimas do conservadorismo. Basta observar Romana (Rosamaria Murtinho), a quarta irmã do clã Ferreto. Ela morava na Itália, junto com o namorado, Bruno (Alexandre Borges), uma espécie de gigolô que ela resgatou das ruas de Firenze. 

Inspirada no filme Em Roma na Primavera, Romana é uma mulher mais velha diferente das outras. Ela é livre em vários sentidos da palavra. No entanto, seu relacionamento com um homem mais jovem é visto de forma vexatória por sua família e, consequentemente, pelo público. Em uma cena muito forte de A Próxima Vítima, Romana é punida por seu comportamento. Além do conservadorismo, é muito pungente observar como é impossível, para mulheres mais velhas, o amor. Ele sempre vem atrelado à moeda do interesse.

Como todo romance policial e filme noir que se preze, a ambígua figura da femme fatale é presença garantida. Em A Próxima Vítima, não poderia ser diferente. Na novela, a figura da mulher fatal é representada por duas mulheres bastante distintas entre si: Isabela Ferreto (Cláudia Ohana) e Helena Ribeiro (Nathalia do Vale). O mistério que envolve essas duas mulheres é objeto de desejo e perdição dos homens que passam pelo caminho delas durante a novela.

A femme fatale aparece nessas histórias para "acabar" com a vida do personagem, levá-lo à ruína e despertar seu lado mais obscuro. Filmes noir como Pacto de Sangue e O Destino Bate à Sua Porta selaram a imagem de mulheres aparentemente inocentes, mas que escondiam uma grande carga de maldade. O noir literário e cinematográfico, conforme explicamos nesta thread em nosso Twitter oficial, desfez a imagem boazinha e inocente associada às mulheres, ao transformá-las em assassinas impiedosas. 

No caso de A Próxima Vítima, Isabela Ferreto é a menina dos olhos de sua família. Bonita e aparentemente ingênua, ela está prestes a se casar com Diego (Marcos Frota). No entanto, mantém um caso com Marcelo (José Wilker), seu tio. Isabela surpreendeu os telespectadores com sua sordidez; e em uma das cenas chegou a aparecer transando em cima da cozinha com o tio. O apetite sexual e a ambição de Isabela não têm limites. Ela chantageia a secretária do amante, Andréa (Vera Gimenez), para que ela ligue para sua tia Francesca e faça com que Marcelo leve um tiro logo nos primeiros capítulos.

Isabela (Claudia Ohana) e Marcelo (José Wilker)

É interessante perceber como, nesse sentido, Marcelo representa muito o arquétipo dos personagens masculinos em romances policiais. Ele viverá a ruína por causa de Isabela, uma jornada cheia de conservadorismo, regada a doses de violência contra a mulher. Marcelo abandona a outra amante, Ana (Suzana Vieira), com quem tem três filhos, para se casar com a sobrinha. É claro que o público espera uma punição. Marcelo não pode sair impune.

Assim como nos filmes noir, Isabela também receberá uma punição por seu comportamento. Toleramos mulheres sexualmente livres, mas até certo ponto. Dessa forma, Isabela é punida duas vezes durante a novela. São cenas terríveis de feminicídio, nas quais o público vibrou. A Delegacia da Mulher foi acionada nas duas vezes. 

Com tantos acertos, A Próxima Vítima errou muito ao castigar Isabela. Com a intenção de lavar a alma dos telespectadores, Marcelo rasga o rosto da esposa ao descobrir que ela tinha um amante. Existe uma certa "passação de pano" para o fato de que Marcelo era tão canalha quanto Isabela. Lembremo-nos de que ele traía a esposa, tinha uma amante com três filhos, prometia se casar com ela e era mulherengo. Por que o público ficou ao lado de Marcelo, então?

Ao ficar com uma cicatriz enorme no rosto, Isabela perde sua "maior arma": a beleza. Ela adquire uma expressão grotesca, como se a beleza fosse uma máscara que sustentasse sua podridão por dentro. É uma forma misógina de mostrar que Isabela só tem valor por sua aparência. Infelizmente, muitas femme fatale foram relegadas a isso, quando na verdade tinham muitas camadas. Essas convenções estão caindo nos dias de hoje, muito porque teóricas como Julie Grossman estão se debruçando para entender os meandros dessas mulheres.

Já Helena representa o oposto de Isabela, ainda que seja uma femme fatale. Helena é a esposa fiel, dama da alta sociedade, mas que guarda alguns segredos. Seu filho Lucas (Pedro Vasconcelos) tem problemas com drogas, o que é uma fonte inesgotável de culpa materna. Helena começa sua trajetória enquanto femme fatale a partir do momento em que o Detetive Olavo entra na história.

Olavo começa a investigar e descobre que Helena pode ter algo a ver com os assassinatos da trama. É, então, que ele cria em sua cabeça a ideia de que ela é a femme fatale das histórias policiais de que ele gosta tanto. Olavo está disposto a abrir mão de sua ética para ficar com Helena, e mais uma vez isso o coloca com um arquétipo dos detetives das histórias policiais. Olavo flerta o tempo inteiro com o perigo que Helena representa, mas de uma forma mais suave que Isabela, digamos assim.

Um fenômeno de audiência e crítica

Em novembro de 1995, há exatamente 30 anos, era formado todo um aparato na Rede Globo para que ninguém descobrisse o assassino. Sílvio de Abreu visitou o set de gravações nas últimas semanas de novela para revelar quem seria o autor das mortes. Até aquele momentos atores e equipe não tinham a mínima de ideia de quem poderia ser.

Uma dos aspectos mais incríveis de A Próxima Vítimapara mim, é como ela aproxima duas coisas extremamente populares, telenovela e romance policial, e cria algo muito original a partir delas. O fenômeno da novela era tão palpável que encontramos no YouTube reportagens que mostravam os telespectadores realizando apostas para descobrir a identidade do assassino.

Inicialmente, Sílvio de Abreu pensou em exibir a última parte do último capítulo, a revelação do assassino, ao vivo. No entanto, com medo de falhas, eles optaram por outro caminho: gravaram o final duas horas antes de a novela começar. Sendo assim, o final foi gravado às 19h para ser exibido às 21h, no horário nobre. Uma operação digna de romance policial.

Apesar de ter envelhecido mal em muitos aspectos, A Próxima Vitima continua sendo uma das melhores novelas do horário nobre dos anos 90. Com duas reprises no currículo, a novela mobiliza fãs até hoje. As mortes ainda são lembradas, pois foram muito chocantes. Do Opala preto ao elevador, é impossível não se envolver pelo universo criado por Sílvio de Abreu, Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira.

Assim como em A Sucessora, o Brasil não precisa copiar a atmosfera de fora para contar histórias. A Próxima Vítima foi uma novela policial com questões muito brasileiras, como a discussão sobre o racismo e a homossexualidade, sem precisar recorrer a artifícios importados. É o casamento quase perfeito entre uma boa história e uma ambientação impecável.


Texto: Jessica Bandeira 
Imagem de destaque: Mia Sodré 

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