It - A Coisa: os horrores da infância e da memória


"[...] a infância tem seus segredos doces e confirma a mortalidade, e que a mortalidade define toda a coragem e todo o amor, [...] o que já ansiou pelo futuro também precisa olhar para trás [...] cada vida faz sua própria imitação da imortalidade: uma roda."

It - A Coisa, obra literária de horror do prestigiado autor estadunidense Stephen King, foi publicada pela primeira vez em 1986, e desde então, adaptada para a TV e para o cinema três vezes, uma em 1990, com a minissérie de dois episódios que mais tarde tornou-se um filme, e nas outras duas vezes com estreia nos cinemas, em uma duologia na qual o primeiro filme relata a infância dos personagens e, o segundo, o retorno a cidade de Derry vinte e sete anos após o acontecimento final da primeira parte, lançadas nos anos de 2017 e 2019 respectivamente. (Isso sem citar a série indiana Woh, inspirada na obra, e transmitida em 1998 no país.) No livro ou nas telonas, a Coisa, para além do horror, levou seu público a repensar a infância e as consequências dela na vida futura, caracterizada pela necessidade de se fazer as pazes com o próprio passado e, como literalmente exemplificado por Pennywise e suas muitas formas, com seus medos. 

Desde o início, são os medos os motores do enredo de King. A partir da ambientação da cidade interiorana de Derry, no Maine, entre os anos de 1957 e 1958, conhecemos primeiro Ben Hanscom, um tímido leitor, romântico desde criança, continuamente hostilizado e maltratado pelo colega de escola, Henry Bowers, através do bullying por seu peso. Henry, por sua vez, apesar de antagonista, tem desde o princípio um motivo para a forma como age, muito bem explorado, sendo este a relação com seu pai e as influências que o mesmo possui sobre a criança. De volta ao grupo dos heróis, o pequeno Bill Denbrough vive uma mistura de luto e culpa pela morte do irmão mais novo em uma saída para brincar durante uma forte chuva. A forma como Bill se vê como o responsável pelo ocorrido é fortalecida, assim como com Bowers, pelo jeito como seus pais lidam com a morte do filho mais novo, criando um distanciamento com o mais velho, de apenas doze anos, e um distanciamento entre eles como casal, presos às lembranças de uma vida que já fora mais feliz. 

Henry Bowers não é a única preocupação de Ben Hanscom. Justamente por ser um romântico, Ben conhece o primeiro amor em Beverly Marsh, filha única de um casal cuja relação baseia-se exatamente no medo, visto que a mãe de Beverly teme que o marido fique nervoso com qualquer acontecimento diferente na casa e incentiva a filha a fazer o mesmo, levando Marsh a nutrir uma normalidade para com relações abusivas. Enquanto Ben pode dividir-se entre o ódio de Bowers e o amor platônico de Beverly, Stan Uris não tem a mesma sorte, sendo perseguido pelo "valentão" da escola por ser de família judia, o que também provoca piadas de Richie Tozier, que são toleradas pelo comportamento amigável com todos. Ele é um garoto conhecido por não saber a hora de parar de falar, que também provoca, de forma amiga, Eddie Kaspbrak, um menino asmático e hipocondríaco sempre procurado pelos mais valentes dada a sua sensibilidade. Juntos, os seis formam o Clube dos Otários, até o dia em que adicionam seu sétimo integrante, também uma vítima de Bowers, apesar de não estudar na mesma escola que os outros. Mike Hanlon, perseguido pelo passado de seu pai com o pai de Henry, que o enfrentou e deu um basta nas ameaças racistas que sofria, não impedindo, porém, que o ciclo se repetisse com o filho. 

A junção de todos esses problemas individuais, causas de tantas angústias, é o que os tornam melhores amigos. E se por um lado as crianças possuem a sorte de encontrar a amizade um no outro, o mesmo não pode ser dito a respeito disso ocorrer, dentre tantos lugares no mundo, logo em Derry, uma cidade cujo solo é regado pelo sangue de seus residentes em assassinatos e genocídios, sem que isso seja lembrado ou falado pela população que de tempos em tempos os vivencia. O que então poderia ser apenas um grupo de pré-adolescentes brincando em barragens, apostando corridas em suas bicicletas, maratonando filmes no cinema local e descobrindo o amor, torna-se um clube de testemunhas oculares que de otários não possuem nada, já que são os primeiros a questionar as mortes sem solução de crianças e adolescentes. 

O que eles não imaginavam, no entanto, é que sua união através de problemas e medos tão parecidos fosse proposital, e que as mortes em Derry tivessem uma natureza sobre-humana: a Coisa. As ligações entre os assassinatos sem culpado aparente começam a ser traçadas diante de acontecimentos que, se pensados racionalmente, poderiam levar os sete escolhidos à completa loucura. Porém, por estarem saindo da infância e ainda não possuírem restrições socialmente criadas com relação ao que é ou não a realidade, os eventos que para qualquer adulto poderiam ser só frutos de uma imaginação fértil buscando o escape pelo luto são, para os Otários, manifestações do mal que assola a cidade. 

"[...] a realidade é um conceito nem um pouco confiável, uma coisa talvez tão sólida quanto um pedaço de lona esticado sobre cabos entrelaçados como uma teia de aranha."

As desconfianças se iniciam com Bill que vê, no quarto do falecido irmão mais novo, um álbum de fotografias criar vida dentro das imagens, e acaba sendo atacado por Pennywise ao tentar passar a mão pelo papel, tendo-a machucada. Com um dos amigos como testemunha do ocorrido, Bill inicia uma espécie de corrente, levando as sete crianças a contarem suas estranhas experiências, que possuem em comum chamados para que "desçam e flutuem" com os outros assassinados, que os esperam em um local até então desconhecido para eles. A surpresa está na possibilidade de Pennywise ser mais do que um palhaço mórbido, já que cada um deles o vê em uma manifestação diferente, referente aos seus próprios medos e problemas, como quando Eddie, o hipocondríaco, é perseguido por um leproso em situação de rua que o ataca com insinuações sexuais, ou quando Richie é atacado por um lobisomem adolescente, formulado por seu medo de um filme de terror com o personagem. 

No livro The Child, Society and the World, a educadora e pedagoga italiana Maria Montessori defende que "educamos as crianças a sentirem medo quando estão crescendo. Elas têm medo de tudo: dos pais que as desprezam, do professor que pode reprová-las nos exames, do diretor que não está interessado em seus sentimentos", e que, a partir disso, "toda a preparação para a vida é baseada no medo" [tradução livre]. 

Em It - A Coisa, Stephen King parece ter, melhor do que ninguém, captado exatamente o que Montessori alegava, utilizando o medo implantado desde cedo nas crianças por todos os adultos que as rodeiam como base para a educação, na principal forma de mantê-las presas a um monstro que possui vantagens sobre isso, dependendo de tais horrores para gerar suas próprias formas e atrair os mais novos para si como alimento. A repressão através do medo é inclusive personificada nos pais das sete crianças, como, por exemplo, pela mãe de Eddie, que o trata como uma criança extremamente doente, mesmo quando não existem evidências médicas e, a partir disso, o mantém preso a ela. Ou pelo pai de Beverly, que em diversos momentos a agride dizendo que o faz para seu bem. E, ainda mais próximo do exemplo de Maria Montessori, pela professora das crianças, incapaz de enfrentar Patrick Hockstetter, um dos amigos de Henry Bowers que apalpa meninas que se sentam na cadeira a sua frente durante as aulas e guarda moscas em seu estojo para provocar aversão em seus colegas de classe. 

De maneira extremamente inteligente, King identifica os mais comuns horrores da infância e os personifica na Coisa, maior e mais antiga que todos da cidade de Derry, existindo e usufruindo dos medos e ódios humanos para cada vez mais, através dos séculos, se fortalecer e comandar os destinos dos que habitam a cidade. Apesar de identificarem isso ainda pequenos e, de forma involuntária, caminharem até o local onde a Coisa se esconde quando não está em atividade, a atacando e enfraquecendo, as crianças não conseguem derrotá-la em um primeiro momento e, com o propósito de sua união momentaneamente concluído, logo após a batalha que põe fim aos assassinatos por um tempo, elas se afastam, se esquecem uns dos outros e partem de Derry sem lembrar do pacto que fizeram: se os assassinatos na cidade retornarem, o Clube dos Otários voltará a existir, e juntos eles irão pôr fim em Pennywise de uma vez por todas. 

O retorno a Derry 

"Para saber o que um lugar é, realmente acredito que é preciso saber o que ele foi."

Assim como a história do Clube dos Otários foi dividida em dois filmes na adaptação mais recente, o livro, com 1.102 páginas, é divido em cinco partes, sendo a terceira caracterizada pelo retorno dos personagens a Derry vinte e sete anos depois do primeiro encontro com a Coisa, através de um chamado feito por Mike Hanlon, o único que permaneceu na cidade após o pacto com o propósito de acompanhar de perto se os assassinatos voltariam a acontecer. Em sua fase adulta, Mike tornou-se um bibliotecário, o que facilitou seu acesso à história de Derry, tornando-o conhecedor de diversos genocídios ocorridos em anos anteriores e da coincidente pausa de anos entre cada um deles. Mantendo um diário de anotações com cada descoberta sobre o passado da cidade e sobre o modus operandi dos assassinatos que voltam a ocorrer, Mike é, do início ao fim, o mais persistente acabar com a sede de sangue de Pennywise, mais até que Bill Denbrough que na infância, com o assassinato do irmão mais novo, era o mais ávido dos sete a terminar a maldição do local. 

Se na primeira fase dos heróis de Derry o principal horror utilizado por King eram seus medos de infância, em seu retorno o pior que poderia ter acontecido a eles é lembrar do que passaram durante aqueles anos. Para os adultos, a memória que insiste em os levar ao passado é o principal a se temer. Tanto o é que Stan Uris, ao receber a ligação de Mike que o relembra do pacto feito e do comprometimento em retornar à cidade assim que fosse necessário, não é capaz de suportar as lembranças do que vivenciou ao encontrar a Coisa e não consegue simplesmente negar a ajuda aos amigos. É assim que sabemos que Stan não retornará para Derry, mas também não retornará para si, porque as memórias que possui são fortes e negativas demais para que sejam simplesmente ignoradas. 

"[...] você paga pelo que recebe neste mundo. Talvez seja por isso que Deus no fez crianças primeiro e nos colocou mais perto do chão, porque Ele sabe que é preciso cair muito e sangrar muito pra aprender essa simples lição. Você paga pelo que recebe, você é dono daquilo pelo que pagou... e mais cedo ou mais tarde, o que é seu volta pra casa, pra você."

O retorno acompanhado pelas memórias que todos perderam sem perceberem traz também um medo que já era presente na infância, mas não parecia incomodar tanto os Otários dado a pouca idade que tinham: o medo da morte. A partir do momento em que retornam a Derry, as manifestações da Coisa não são mais aparições de palhaços, lobisomens ou leprosos, mas cabeças decapitadas daqueles que foram assassinados no passado, seus corpos incompletos vagando em direção aos heróis, o chamado mais presente e, pela passagem do tempo, mais próximo e possível de uma ida sem volta para Derry, mas também sem regresso para qualquer outro lugar. 

Além disso, outra mudança notável que King traça para seus personagens é o comportamento motivado pela educação baseada no medo já na fase adulta. Eddie, por exemplo, soube ainda criança que sua asma não existia e que era, na verdade, motivada pela deturpação psicológica que sua mãe fazia, mas retornando para Derry ele continua precisando de sua bombinha de ar em momentos de pânico, além de ter se casado com uma mulher que, segundo as descrições feitas, é parecida com sua mãe, fisicamente e em personalidade. Tais características semelhantes ao que temiam e vivenciaram na infância estão presentes em todos os personagens já adultos. É como se todos eles, com exceção de Mike, tivessem deixado Derry, mas a cidade nunca os tivesse realmente os deixado ir. 

"[...] o lar é o lugar onde, quando você precisa ir lá, eles têm que te receber. Infelizmente, também é o lugar em que, quando você entra, não querem deixar você sair."

Incapazes de relembrar de todos os acontecimentos de 1958, os amigos passam uma noite conversando com Mike, o único que, além dos registros escritos, se lembra do confronto com a Coisa o suficiente para saber o que os aguarda. E a partir desse encontro, se antes o medo apenas a alimentava, o retorno dos Otários também traz lembranças para a própria Coisa, que pela primeira vez se vê sentindo o mesmo medo que tanto a enriquece. Ter ela traços tão humanos é, ao mesmo tempo, o pior e o melhor que poderia acontecer. 

Como, quando e se a derrotarão são as surpresas que precisavam ficar no ar. O que não é motivo de espanto, porém, é o fato de que ser uma criança não levada a sério pelos adultos, ou um adulto fadado ao próprio passado, podem conduzir qualquer um ao horror de sentir-se morto ainda em vida. 


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Imagem de destaque: Mia Sodré

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