A Loteria, de Shirley Jackson: choques da tradição e da cultura


Publicado em 1948 no The New Yorker, o conto A Loteria, da autora estadunidense Shirley Jackson, foi um choque para os leitores. Trazendo uma comunidade bucólica e feliz, a autora subverte a imagem social de um povo que se diz civilizado em relação ao outro e a inversão surpreende por trazer o barbarismo para o centro da comunidade e da família. 

Cartas e telefonemas inundaram o The New Yorker: foram mais de 300 cartas revoltosas. “Eu lamento ser enganado ao ler histórias perversas como A Loteria, disse um dos leitores de Massachusetts. Outros viram algo muito promissor na história, como o professor de sociologia de Harvard, Nahum Medalia, dizendo que “É uma história maravilhosa e me manteve muito frio na manhã quente quando a li".

Até mesmo a autora de ficção científica, Ursula K. Le Guin, contou sobre o impacto da obra para o seu pai. “Minha memória é que meu pai ficou indignado com a história de Shirley Jackson porque, como antropólogo social, ele achava que ela não queria e não podia nos dizer como a loteria poderia vir a ser uma instituição social aceita".

A família de Shirley Jackson também comentou, em carta para a filha: “Papai e eu não nos importamos em nada com a sua história na The New Yorker... Parece, querida, que esse tipo de história sombria é o que todos vocês, jovens, pensam hoje em dia. Por que você não escreve algo para animar as pessoas?”.

O impacto para os leitores foi tamanho que muitos se questionaram se havia cidades com aqueles hábitos estranhos que a autora narrara. O ar realista da obra é o que promove uma atmosfera sombria, e somos deixados com um choque ao fim, provocado por detalhes que crescem e muito por serem mais sugestivos do que gráficos. 

É um conto que, certamente, merece ser lido por um viés antropológico, pois ele demarca muito bem as tradições que se desgastam no tempo e um relativismo nos ritos de passagem baseados em violência. Com a diferença de não se tratar da história de um povo longínquo, estranho ao olhar ocidental, mas da própria exposição da estrutura absurda do capitalismo na sociedade americana. Hoje, o conto é leitura obrigatória nas escolas dos Estados Unidos.

O enredo

No início do conto, somos situados em um evento no dia 27 de junho que, aos poucos, descobrimos acontecer desde tempos imemoriais. As crianças brincam na praça empilhando pedras, aguardando os pais se amontoarem em grupo, para aquilo que unifica a comunidade: uma loteria. 

A caixa preta, pela qual promovem o sorteio, é muito antiga e foi refeita para se adaptar ao envelhecimento do material, com quase nada de sua versão original. As pecinhas de madeira foram substituídas por simples papéis. Ou seja, essa loteria, que é praticamente a um ritual de uma comunidade, não tinha mais ares de simbolismo, o que faria com que um ritual se mantivesse ainda por seu significado.

A tensão vai sendo construída até o instante do sorteio. A família Hutchinson é sorteada e um novo sorteio é iniciado. Uma mancha negra em um dos papéis é o que definirá todos os eventos. Há a interação entre os personagens e vamos descobrindo, aos poucos, o quão conservadora é essa cidade: uma mulher não pode sortear pela família se o marido estiver ausente. O seu filho de menos de 16 anos pode, mas a mãe não. A construção da família em que o homem é o provedor e a mulher a rainha do lar   com poder algum na prática   é bem colocada em frases pontuais pela autora. 

A pergunta mais recorrente da leitura é "por que essas pessoas continuam fazendo esse encontro, essa loteria?". Uma personagem, Tessie, quase esquece que era o dia da loteria. Os outros se juntam sem vínculo algum com a data. Não há festividade, nada que faça um povo se reunir numa roda. É muito distinto de um rito ancestral, em que as diferentes gerações são relembradas do sentido daquele ato. A reunião em roda desses personagens em A Loteria é o exato oposto da roda de uma união histórica e ancestral, é a roda formada pela turba, pelo humano que já se corrompeu em sociedade.

O fim é quando eclode tudo. Uma cidade conservadora, que não debate nem mesmo a tradição que a ergue, o sentimento de viver por aparências, tudo isso é sufocante e culmina no absurdo  absurdo esse para o leitor, pois para os personagens a cidade já está condenada ao automatismo de seu hábito inquestionável. 

Tradição e cultura: a sociedade do conto como um espelho

O choque dos leitores diz muito sobre o quão espelhada na realidade é a sociedade do conto de Shirley Jackson. A verossimilhança é tamanha que o horror se institui bem no limiar entre ser uma sociedade fictícia, não demarcada no mapa, e ter uma tradição que espelha tantas outras.

O fato de não ser posta numa sociedade longínqua é decisivo. Como se fazia frequentemente em muitos contos no século XIX e XX, situações horríveis e misteriosas ocorrendo em países da África ou no dito Oriente  termo esse que reduz e abarca inúmeras culturas  levam ao horror o leitor norte-americano e que se define ocidental, por constatar que se tratam de seus vizinhos. 

Shirley Jackson's "The Lottery": The Authorized Graphic Adaptation, de Miles Hyman

Isso relativiza a concepção de que o bárbaro, o não-civilizado, o selvagem, são os outros. Em guerras, conflitos e a própria estrutura de demarcação de poderes do capitalismo, é muito mais fácil encerrar minorias, culturas com estruturas distintas às bases de uma sociedade estadunidense, na ideia de que o Outro é o estranho, é aquilo que devemos evitar para não cair na marginalidade. Tal discurso permite, na prática, que negros sejam mortos por policiais; o aumento do feminicídio; a exclusão de países por xenofobia em contexto de uma pandemia; enfim, a lista é enorme.

Embora haja essa firmeza em enfatizar as grandes tradições estadunidenses, até mesmo os Estados Unidos possuem diversidade, não podendo ser reduzido às crenças ou costumes de um único estado. 

O conto de Shirley Jackson, em frases muito sutis, consegue estabelecer para nós, leitores, que a estrutura dessa comunidade é patriarcal. O pai de família ou os meninos são quem têm o direito ao sorteio e à liderança. A mulher cumpre seu papel quando se torna mãe, porém é descartável quando envelhece ou quando já pariu a quantidade necessária para que o homem dê continuidade ao seu nome. A hereditariedade é vista como posse masculina: não é a mulher que, ao ter filhos nessa sociedade, está dando continuidade ao seu nome, ou à sua família e aos afetos criados por ela. Mas sim, é o provedor da casa quem tem esse direito, com certo número de crianças que, se forem meninas, serão concedidas como posse para outro homem formar uma família.

Com essa estrutura, tais personagens não têm consciência de fazer parte de um coletivo enquanto um indivíduo com particularidades. O totalitarismo do coletivo é exigido para que, assim, a repetição se consagre: mais uma época de colheita, mais uma loteria, mais famílias se formando. 

Ironicamente, essa sociedade cria o mal a si mesma: o ódio e a repressão devem ser canalizados de outra forma. Porque se isso se voltar ao inimigo real  o patriarcado, o capitalismo , ela assistirá a própria destruição. O fator curioso que o conto nos deixa ao fim é que o ser humano é uma vida vulnerável: sem capacidades de defesa contra o inimigo, somos todos feitos sem proteções, sem ter como nos defender da mesma forma que outros animais o fazem, com suas garras e os instintos para a sobrevivência.

Criamos grupos para poder sobreviver. E, ainda assim, criamos também nossa própria destruição, pois a lógica de uma sociedade que pune a si mesma, criando possibilidades de destruir o outro, ao fim, é realmente uma escolha irracional, visto que enquanto parte da espécie humana somos seres em certa desvantagem com a grandeza da natureza e dos animais. 

O paradoxo está aí: ignorar o que os povos originários sempre compreenderam com suas tradições ligadas à natureza. Instauramos outras para nos afundar, como a estrutura do capitalismo, envolvendo a competição entre famílias. Não somos apenas parte de uma sociedade cultural, somos integrados à natureza e, por isso, destruir a nós mesmos é o grande erro irracional da espécie humana. 

O conto de Shirley Jackson nos deixa com essas últimas reflexões sobre estruturas sem sentido, que continuam sendo repetidas, como a caixa do conto, que é refeita e tem seu material trocado, mas da qual nem se lembram mais o motivo para levá-la todo 27 de junho até a praça e reunir os outros em torno dela. 

O final do conto

Atenção, essa parte do texto contém spoilers do enredo final.

Entre as cartas do público que leu o conto, havia muitos curiosos com a morbidez do final. Tal curiosidade vinha também de um desejo muito particular pela violência, pela morte e a destruição. De assistir a tudo isso, de saber se em alguma cidade estadunidense estava acontecendo algo idêntico àquilo que foi contado.

Shirley Jackson fotografada por Erich Hartmann / Magnum

Quando a comunidade se amontoa para apedrejar Tessie, há uma construção de atmosfera anterior a isso que já nos dá o tom de terror do conto. A pedra pesada demais para carregar nos dá o verdadeiro sentido das pedrinhas sendo empilhadas por crianças no início da narrativa. Se antes parecia inocente, agora o choque está no fato de que até crianças podem matar e morrer naquele cenário. A pedra é tão pesada que ajudam a carregá-la sem culpa alguma. 

O terror se anuncia nisso: pedras serão usadas pelas pessoas para matar outra aleatoriamente, e é um costume repetido todo ano. Como algo tão grotesco e sem sentido pode ser significado para a abertura do período de colheita, algo tão positivo?

O contraste com a natureza é bem claro. A terra dá algo e, em vez de haver uma celebração em torno da vida que ela cede, uma comunidade criou a necessidade de reduzir sua população, um a um, pelas próprias mãos, para não dividir o que será obtido. Da fartura vamos a um regime de exclusão pela morte. E a palavra “justiça” já perdeu o sentido. 

O conto não é apenas uma trama sobre gênero, pois qualquer um pode morrer naquela roda. Mas faz pensar na escolha da autora: será que em um primeiro momento, quando um chefe de família foi morto, houve algum choque, um abalo? Eles já chegaram a se importar com alguma perda? Se for uma mulher, haverá lamentação? Da mesma forma que a mulher e a natureza criam vidas, ao fim ambas servem apenas para a exploração, no contexto da comunidade. Não importa, no fim, se a terra foi fértil, se um casamento gerou filhos: a estrutura patriarcal continua sendo nociva em todos os seus âmbitos e influências. Todos vão sentir esses reflexos. Shirley Jackson nos deixa com essas questões e com a angústia de que o conto é semelhante demais aos nossos tempos. 

Referências bibliográficas




Imagem de destaque: Mia Sodré

Matéria escrita a partir da leitura coletiva que participei, pelo Querido Clássico, em parceria com o Clube Cidade Solitária, no dia 28 de outubro de 2020. 

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