Meu Querido Mentiroso: quando flertar é melhor que consumar

Cinco dias antes de os alemães invadirem Paris, a criada de Stella Campbell, conhecida como Mrs. Patrick Campbell e famosa atriz do final do século XIX, encontrou uma caixa de chapéus debaixo da cama. Ali, estavam as cartas trocadas pela atriz com o dramaturgo Bernard Shaw. Com medo de que fossem destruídas, Agnès Claudius as levou para a França. Assim salvaram-se as cartas de mais de 40 anos, cheias de ironia, por vezes declarações de amor, entre dramaturgo e atriz, criador e criatura.

Foi a partir dessas cartas, transformadas em livro anos depois, que outro dramaturgo, Jerome Kilty, criou Dear Liar: A Comedy of Letters, rebatizada no Brasil como Meu Querido Mentiroso. Trata-se de um espetáculo que quase ultrapassa a forma teatral, já que as cartas entre Stella e Bernard são lidas para o público. É como se não houvesse muita ação neste tipo de espetáculo.


No entanto, o tipo de espetáculo love letters mobiliza muito a plateia, pois dá a oportunidade de reunir um casal de atores afinado em um cenário módico. A leitura das cartas se encarrega de dar a magia necessária a ação. Um dos exemplos mais bacanas de sucesso das love letters é o espetáculo Private Lives, estrelando Elizabeth Taylor e Richard Burton, já então separados. O público sabia da história de amor entre eles, queria vê-los trocando farpas e usando seus personagens para externalizar velhos rancores. Foi um sucesso na época. 

Meu Querido Mentiroso começa com os dois atores principais entrando no palco, comunicando-se com a plateia como se não estivessem interpretando Bernard Shaw e Stella Campbell. Após contarem a história da sobrevivência das cartas entre eles, Shaw diz:

"Quanto a mim, pois de agora em diante, vamos expressar-nos com as palavras de Bernard Shaw…"

É interessante o uso desse recurso, parece que a ideia é realmente situar a plateia que poderia não entender a história entre os dois. É uma espécie de restauração da quebra da quarta parede. Isso me lembra as sete vezes em que assisti Através da Íris, último espetáculo de Nathalia Timberg. Ela sempre entrava no palco dizendo: "Coragem, Nathalia, coragem". Era só depois de sentar-se em sua poltrona e aquecer a voz, na frente da plateia, que ela encarnava a personagem.

Bernard Shaw, na época em que conheceu Stella, começava a escrever peças teatrais. Ele admirava a grande Ms. Pat de longe. Quando começou a escrever César e Cleópatra, Shaw decidiu chamar a atriz para passar um fim de semana em sua casa de campo, a fim de convidá-la para representar a rainha do Egito em seu projeto.

Desde a leitura da primeira carta entre eles, podemos perceber um clima de flerte. Em um determinado trecho, Shaw diz que está com a fotografia mais recente de Stella: Embora seja maravilhosa, eu a teria fotografado com a seguinte legenda: "Assim se tenta o diabo". A resposta de Stella ao elogio de Shaw é depreciar-se, chamar-se de velha, algo que é uma tônica da personagem ao longo de Meu Querido Mentiroso.

Stella acaba não podendo aceitar o convite de Shaw para ser Cleópatra por conta de uma turnê nos EUA. Ela comenta, durante a peça, que seus filhos já estavam crescidos e casados e que sua carreira como atriz ia de vento em popa. De Hedda Gabler a Bella Donna, Pat prosperava. O que acho incrível é perceber a independência e o desprendimento de tudo e todos em plena Era Vitoriana. A carreira de atriz de Campbell permitia que ela viajasse muito e pudesse deixar os filhos na Inglaterra.

A relação entre os personagens principais de Meu Querido Mentiroso consolidou-se quando Shaw escreveu Pigmaleão especialmente para Stella, em 1911. Foi então que, depois de alguns convites e viagens para os EUA, ela aceitou tomar chá na casa dele. 

É interessante captar os bastidores de escrita de Pigmaleão por meio de Meu Querido Mentiroso. Ao criar Eliza, Shaw copiou o jeito de Stella falar: "Sua peste! Escreveu isso para mim, fala por fala, está até imitando a minha voz!". Campbell também nutria um certo desprezo por Eliza, talvez por sua falta de etiqueta, algo que era bem distante dela enquanto mulher da sociedade. Além disso, Stella também não queria convidar um ator muito famoso para interpretar Higgins, o professor, porque poderia ser ofuscada. Shaw relembra que o público da atriz era majoritariamente feminino, logo, era preciso agradá-las com um homem bonito.

Mrs. Patrick Campbell e Bernard Shaw
As cartas são tão intensas que a leitora mais desavisada pode achar que os dois tiveram, de fato, um caso de amor. Não. A história de amor ficou apenas nas cartas, jamais foi consolidada na vida real. Um dos grandes biógrafos de Bernard Shaw, Hesketh Pearson, sempre dizia que "as ligações amorosas ideais são as que só se realizam através dos correios". É por meio das palavras que surge uma relação ideal entre Bernard e Stella, algo que superaria a viuvez e os outros casamentos de Stella. Flertar com palavras é muito melhor que a consumação do ato.

Meu Querido Mentiroso é uma peça de apenas dois atos, mas é incrível como nos divertimos lendo as farpas trocadas pelos personagens. É de ficar pensando como se deu a dinâmica em cena entre Nathalia Timberg e Sérgio Britto, os protagonistas da versão brasileira. Nesse sentido, a pior parte de ler uma peça de teatro é esta: o escrito nunca funciona da mesma forma no palco. O jeito é se contentar com as críticas e relatos da época.

O espetáculo estreou em 1960 em Nova York; em 1963 em Londres e ganhou os palcos brasileiros em 1965. Traduzido por Barbara Heliodora, uma das maiores críticas teatrais brasileiras, o espetáculo brasileiro foi montado três vezes com os mesmos atores originais da primeira versão. De acordo com Sérgio Britto, foi apenas na última vez que ele obteve a melhor interpretação de Bernard Shaw. Não é à toa, já que ele estava no auge de sua maturidade enquanto ator.

A primeira versão brasileira para os palcos começou quando a tradução de Dear Liar caiu nas mãos de Sérgio Britto. Na época, ele queria encenar um espetáculo no antigo Teatro Carioca, na Rua Senador Vergueiro, no Rio de Janeiro, e a peça de Jerome Kilty foi a primeira coisa com a qual tiveram contato. 

De acordo com o livro Fábrica de Ilusão, a tradução da peça de Kilty que Sérgio Britto recebeu era de Agnes Claudius, a mesma pessoa que resgatou as cartas entre Shaw e Campbell. Claudius era amiga de Jerome, e foi a partir dessa amizade que surgiu no dramaturgo a ideia de transformar as cartas em peça de teatro.

Depois de Bárbara Heliodora se encarregar da tradução do espetáculo, foi a vez de chamar a companheira de cena de Sérgio Britto, Nathalia Timberg. Não sei ao certo como se deu o convite, mas, conhecendo o entrosamento entre eles, posso entender por que ele a chamou. Britto e Timberg já trabalhavam juntos há pelo menos uma década no Grande Teatro Tupi, teatro televisionado e embrião das telenovelas. Juntos, tinham uma química estrondosa e uma amizade muito sólida, fatores que, ao meu ver, dão outro toque ao que Jerome Kilty escreveu.

Assim como Shaw e Campbell, a amizade entre Timberg e Britto era recheada de provocações e ironias. Depois desse espetáculo, Sérgio passou a chamar Nathalia de "Deusa de mármore", forma com a qual Bernard refere-se a Stella em diversos momentos da peça de teatro. Meu Querido Mentiroso transformou-se em um ritual entre eles, a reunião entre dois amigos que se amavam, mas amavam muito mais o jogo teatral.

"Estamos sempre correndo atrás do perigo, mas o verdadeiro prazer é escapar dele ilesos", diz a Stella de Jerome Kilty. Essa frase poderia resumir boa parte do que encontramos em Meu Querido Mentiroso. Stella e Bernard nunca chegaram aos finalmentes pessoalmente, mas a graça é simplesmente a idealização do amor que eles criaram por meio das cartas que trocaram. Não é muito diferente da idealização dos dias de hoje, com aplicativos e mais aplicativos de paquera.




Texto: Jessica Bandeira
Imagem de destaque: Mia Sodré

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