Alucarda: entre bruxaria e repressão

Lançado em 1977, Alucarda é um filme que se destaca. Dirigido e roteirizado por Juan López Moctezuma, em parceria de Alexis Arroyo, Tita Arroyo e Yolanda López Moctezuma, é livremente baseado na novela gótica Carmilla, de Sheridan Le Fanu."Livremente" é o termo a ser usado aqui. Embora algumas falas da obra literária estejam presentes de maneira literal nos diálogos, não trata-se de uma história de vampiros, mas sim de um perturbador conto sobre bruxaria e repressão. 


Criada num convento, em meados de 1800, Alucarda (Tina Romero) é uma jovem de quinze anos que tem por companhia somente as freiras do local. Pouco sabemos sobre sua vida ali; só nos é permitido conhecer seu nascimento, dado em circunstâncias misteriosas, quando sua mãe implorou para que ela fosse levada ao convento para afastá-la do demônio. Porém, logo essa cena inicial corta e somos apresentados a uma Alucarda adolescente que conhece Justine (Susana Kamini), outra moça da mesma idade que, após ter perdido os pais, é acolhida no convento. As duas adolescentes se conhecem e não tardam em iniciar uma amizade. Elas tornam-se inseparáveis e o relacionamento desenvolve-se em mais do que amizade em pouco tempo, especialmente após o encontro das duas com um romani (Claudio Brook), que lhes oferece um amuleto e as atrai até uma cripta. 

Lá, as jovens abrem o túmulo da mãe de Alucarda, o que parece despertar a presença de um espírito demoníaco que causa reações extremas nas duas. De volta ao convento, Justine, de cama, é cuidada pelas freiras. Mas Alucarda oferece-se para ficar ao seu lado. Assim que ambas estão sozinhas no quarto, Alucarda arranca o crucifixo da amiga, diz que Deus não pode lhe ajudar e começa a invocar o demônio sob muitos nomes, na presença do romani, que volta magicamente à cena. Ao gritar "Belzebu, Belfegor, Astaroth", ela inicia uma das cenas mais fortes e surrealistas do filme, com direito a raios, trovões e um pacto de sangue orquestrado pela figura enigmática do romani. Vampirizadas, Alucarda e Justine bebem o sangue uma da outra e se beijam, entregando-se a seus sentimentos e desejos.

A partir daí, Alucarda deslancha num frenesi de acontecimentos que envolvem rituais satânicos com orgias, freiras vertendo sangue e um exorcismo brutal. A cena do exorcismo é dura. Nela, as duas meninas estão amarradas em cruzes em frente ao altar e ambas sofrem violência de um padre e de seus assistentes, enquanto as freiras entram numa espécie de transe - não diferente daquele que Alucarda e Justine entraram durante o pacto. No intuito de expulsar o demônio, Justine é assassinada. Mas não antes que possamos refletir sobre o porquê elas sofreram a violência do exorcismo e por que uma delas foi morta. Não é difícil perceber que o intuito do filme é nos mostrar que aquilo que as condenou foi terem assumido seus sentimentos uma pela outra e escolhido outro caminho. Até ali, nenhuma das duas tinha feito nada contra ninguém, apenas haviam aceitado o convite do demônio para juntarem-se aos pagãos, declarando seu amor uma pela outra e unindo-se para sempre.

Tina Romero e Susana Kamini como Alucarda e Justine
E, embora as freiras também manifestem um comportamento bizarro e sobrenatural, elas não são condenadas a nada, pelo contrário: regozijam-se com o sofrimento das jovens. O pecado delas foi seguir outro caminho, um onde podiam ser livres para amar e serem amadas, onde ninguém as julgaria.

Alucarda, ao final das contas, é um filme sobre repressão religiosa e lesbofobia. Desde suas primeiras cenas, onde Alucarda e Justine se apaixonam, até o final, quando o convento é destruído pela fúria de uma adolescente a quem tudo fora tirado, o que vemos é um lembrete constante de onde está o poder - mas também uma mensagem clara que mostra o quanto a realidade pode ser modificada através de apenas o ato de uma pessoa transgressora.





Texto: Mia Sodré

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