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Como organizar uma biblioteca: caos e amor

Organizar uma biblioteca é tarefa emocional. Pode-se, é claro, partir da CDU - a Classificação Decimal Universal, criada no século XIX e tão amada por bibliotecários. É possível, ainda, partir dos sistemas organizacionais de Dewey e seu CDD, o que é, claro, muito útil em bibliotecas públicas e privadas. Mas uma biblioteca pessoal é algo repleto de emoções - e são estas emoções que ditam os lugares que os livros ocupam. 

É interessante, portanto, que o editor Roberto Calasso tenha misturado as duas esferas em seu livro Como organizar uma biblioteca. A obra, composta por ensaios - sendo um deles o que dá título ao livro -, nos apresenta suas reflexões acerca da organização de bibliotecas, mas também a respeito do livro, da leitura, dos hábitos envolvendo a literariedade ocidental, e, até mesmo, de revistas literárias. Mas ainda que os quatro ensaios que compõem o livro sejam diferentes e não foquem apenas em bibliotecas, todos falam, de uma maneira ou de outra, do amor à literatura - que é o conta, afinal. 

No ensaio-título, o autor se debruça nos possíveis métodos de organização de uma biblioteca. O divertido de tal ensaio é que, ele conclui, talvez as melhores bibliotecas sejam aquelas nas quais a organização é um pouco caótica. Como ele mesmo diz: 

“Na biblioteca perfeita, quando se vai em busca de um livro, acaba-se pegando um que está ao seu lado e que se revela ainda mais útil do que aquele que procurávamos.”

Muitas vezes são os livros que nos encontram - e se a forma como dispomos os livros for muito meticulosa, é difícil que o acaso trace seu caminho por entre as estantes na hora de nos apresentar ao livro de que precisamos e não necessariamente àquele a que procurávamos. 

Na amorosidade dos livros, pensemos em Umberto Eco e sua antibiblioteca - a ideia de que uma biblioteca, o construir de uma biblioteca, não deve nem precisa ser restrito a um número pequeno de livros que vamos ler. É claro que sempre haverá livros que não conseguiremos ler - todavia, uma biblioteca trata-se de possibilidades, não de limitações. 

Os ensaios, para além do ensaio-título, são: Os anos das revistas, Nascimento da resenha e Como organizar uma livraria. O segundo, que fala sobre revistas literárias, é o mais erudito em termos de conhecimentos específicos e obscuros acerca de obras, editores e escritores não tão conhecidos nos dias atuais. Ainda assim, a leitura é interessante: a partir do texto é possível conhecer diversos meandros das publicações literárias na Europa do século XX, com seus bastidores e desentendimentos entre autores, o que sempre nos dá um panorama curioso da arte para além da arte. 

O terceiro ensaio fala da primeira resenha literária feita. O autor conta como a resenha é um gênero literário que tem, de fato, data de nascimento - e foi criada com muito bom humor. Aliás, o livro é repleto de bom humor, o que certamente faz com que a leitura seja fluída e divertida. 

Já o ensaio que encerra o livro retoma o tema da organização, mas, desta vez, voltado a livrarias. O ponto de vista de um homem tão dentro do mercado literário e, ao mesmo tempo, tão apaixonado por literatura, um homem de outra época, nos leva a pensar nas organizações de livrarias e em como elas, cada vez mais, parecem estar pensadas de forma a servir ao capitalismo ao invés de servir ao leitor. 

Esse livro provavelmente não vai mudar a vida de ninguém, mas é uma ótima leitura, especialmente para quem ama livros. 

"Sempre desconfiei daqueles que querem conservar os livros intactos, sem nenhum sinal de uso. São maus leitores. Qualquer leitura deixa rastros, mesmo que nenhuma marca permaneça no papel. Um olho exercitado sabe logo distinguir se um exemplar foi lido ou não."


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Mia Sodré
Mestranda em Estudos Literários pela UFRGS, pesquisando O Morro dos Ventos Uivantes e a recepção dos clássicos da Antiguidade. Escritora, jornalista, editora e analista literária, quando não está lendo escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Vive em Porto Alegre e faz amizade com todo animal que encontra.

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