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Mário e o mágico: Thomas Mann e seu flautista de Hamelin

Thomas Mann é um escritor de seu tempo. Mas isto, ao falarmos dos tempos ditatoriais e alinhados à extrema-direita do início do século XX, é, infelizmente, atual. Desta forma, ler Thomas Mann pode, por vezes, nos fazer olhar para a nossa realidade de maneira perceber ali um duplo entre o que vivemos agora e um passado nem tão distante, a apenas um século de diferença no tempo. 

Em Mário e o mágico, encontramos uma novela de Thomas Mann escrita em 1929, há quase cem anos - novela esta que surgiu bem na época da ascensão do fascismo na Europa. O autor, conhecido, posteriormente, para além de sua fama literária como também aquele que escreveu Discursos contra Hitler durante a Segunda Guerra Mundial tinha muito o que dizer acerca da situação que era estabelecida em seu país. 

Filho de mãe brasileira e pai alemão, Thomas Mann nasceu na Alemanha, e muitos de seus escritos refletem a cultura germânica de sua época - tanto para o bem quanto para o mal. A novela em questão, por exemplo, nos mostra uma faceta sombria daquilo que estava se tornando a Europa. 

"Devemos entregar os pontos e nos esquivar da experiência tão logo ela não se demonstre perfeitamente capaz de produzir bom humor e confiança? Devemos 'ir embora' quando a vida se mostra um pouco fora do comum, algo suspeita ou um tanto embaraçosa e mortificante? Não, devemos permanecer, fazer frente a ela e a ela nos expor, justamente nisso talvez haja algo a aprender."

Na história, conhecemos o narrador, que decide passar alguns dias na Itália, juntamente de sua família. Contudo, com o fascismo tomando as ruas, o sentimento nacionalista que, até então, poderia ser considerado uma virtude, transformava-se em ameaça. Sendo um estrangeiro, o narrador sente na pele as problemáticas envolvendo a sensibilidade nacionalista. 

A partir daí, o autor nos apresenta a Cipolla, o mágico da história, que entretém as pessoas em seu show, ao qual a família estrangeira está assistindo. Por mais que haja uma certa interferência do garçom, que não concorda com o que está acontecendo, o mágico tem seu público nas mãos. 

É interessante como Thomas Mann estava criticando o fascismo ao utilizar de uma imagem bem conhecida dos povos germânicos: o conto de fadas O Flautista de Hamelin. De acordo com a história, o flautista foi chamado à cidade de Hamelin, na Alemanha, em1284, para hipnotizar com sua música os ratos, que haviam invadido o local. Tendo feito isso e levado os animais a se afogarem em um rio, ele voltou para receber seu pagamento, contudo, não recebeu o que lhe era devido. Como vingança, decidiu fazer o mesmo com as crianças de Hamelin, tocando sua flauta pelas ruas da cidade e levando uma multidão de crianças hipnotizadas, que foram trancadas em uma caverna. 

Claro que, se tratando do contexto histórico do início do século XX, não estamos falando de um flautista ou mesmo de uma vingança por este não ter recebido o que lhe havia sido prometido - todavia, devemos lembrar da situação da Alemanha pós-Primeira Guerra Mundial, da vergonha que havia caído sobre o país e de como o isolamento e os tratados rompidos com a Europa foram motivadores poderosos para o sentimento crescente de nacionalismo, que expandiu-se de maneira aterradora até transformar-se no nazismo que viria a ser alguns anos depois. Thomas Mann, compreendendo isso, alertou seus leitores acerca do perigo de deixar-se levar por uma figura encantadora, hipnotizante, e que aparentemente merece mais do que tem. Ao darmos nossa atenção a uma figura dessas, estamos dando muito mais do que apenas alguns minutos - estamos permitindo que certos pensamentos infiltrem-se em nossa mente, desencadeando terríveis consequências. 

Os destinos daqueles que cercam o mágico, duplo do Flautista de Hamelin, seguem atuais. Quase cem anos depois, as palavras de Thomas Mann mantêm sua importância. 


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Mia Sodré
Mestranda em Estudos Literários pela UFRGS, pesquisando O Morro dos Ventos Uivantes e a recepção dos clássicos da Antiguidade. Escritora, jornalista, editora e analista literária, quando não está lendo escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Vive em Porto Alegre e faz amizade com todo animal que encontra.

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