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Tóquio proibida: as tradições no submundo


Tóquio proibida
é um livro que deve estar na lista dos leitores apaixonados por true crime e que gostam de investigar o desconhecido. Escrito por Jake Adelstein, um repórter estadunidense que se dedicou ao jornalismo no Japão durante parte considerável de sua carreira, a leitura faz com que embarquemos não apenas nos bastidores do universo midiático, mas sobretudo no submundo perverso e obscuro de Tóquio. O sucesso da obra foi tamanho que acabou por inspirar a criação da série Tokyo Vice (2022), que conta com Ansel Elgort como protagonista. Como um grande testemunho, Tóquio proibida revela questões mais sensíveis das cenas de crime acompanhadas por Jake - essas que refletem alguns costumes e tradições dos japoneses -, além de sua perigosa proximidade com um dos grupos historicamente mais temidos por muitos: os yakuza.

Nos capítulos iniciais, acompanhamos Jake na tentativa de se tornar parte da equipe do jornal Yomiuri Shimbun, uma das maiores fontes de notícia do Japão. Apesar de ser um gaijin (termo usado para se referir a um estrangeiro, não-japonês), Jake ganha destaque em sua entrevista e se torna um dos novatos - só na superação desse grande desafio o leitor já se sente mais tentado a conhecer sua trajetória, não? Nos primórdios dessa carreira, que se constrói com certo sufoco, vários obstáculos devem ser vencidos em nome de um furo perfeito para ser publicado no jornal: manipular policiais, levar sorvete aos filhos de um possível informante, e até auxiliar um yakuza.

É esperado, porém, que seu uniforme de repórter não seja o suficiente para mantê-lo longe do raio de perigo dos yakuza. Entrar em contato com membros das facções e investigar casos em que estejam envolvidos é mergulhar no submundo de Tóquio de maneira imprudente - mas, afinal, é sabendo desse risco que a narrativa prende cada vez mais: o que Jake estaria disposto a fazer? Até onde poderia se arriscar antes de ser colocado na lista de ameaças? Isso certamente fica a cargo do leitor descobrir, e fica o aviso: as descobertas são grandiosas e chocantes.

Indo além da relação com os yakuza, a apreensão causada pelo enredo recai também na riqueza de detalhes sobre o Japão. De fora, olhando para uma cultura, dificilmente compreende-se todos os costumes e tradições de um povo. Jake Adelstein, então, fornece ao leitor curiosidades interessantes sobre a sociedade japonesa. É fato que, devido ao teor do livro, essas curiosidades irão se relacionar a crimes com que o gaijin se deparou, então convém certo cuidado caso o leitor seja mais sensível a esse tipo de tema. Aqui, portanto, segue uma seleção desses casos perturbadores e o que havia em suas entrelinhas.

Os manuais japoneses


O capítulo em que aborda os manuais japoneses, que leva o nome O perfeito manual do suicídio, certamente é um dos mais tristes do livro. Talvez o leitor se pergunte o que seriam esses manuais. Bem, são o que o próprio nome diz: um punhado de instruções, um guia. Esses compilados de orientações, como diz Adelstein, têm espaço significativo na sociedade japonesa: “Os japoneses acreditam que existe uma maneira certa de viver, amar, provocar o orgasmo feminino, decepar o dedo mínimo, tirar os sapatos, girar um bastão de beisebol, escrever uma matéria sobre homicídio, morrer - e até acabar com a própria vida”. Para se aprofundar nesse hábito, Jake explica como essa questão do “como fazer” está diretamente ligada ao desejo de tudo ser executado de acordo com os livros, refletida pela crença de que a palavra detém grande poder.

“As pessoas acreditavam que o kotodama - a alma ou espírito da língua - residia em cada palavra; que ao manifestar um pensamento a pessoa lhe dá vida; que as palavras têm um poder espiritual. Essa crença atribuía à língua escrita e falada uma condição mística e estimulava uma reverência pela palavra escrita maior que no Ocidente.”

Com isso em mente, a fixação por esses manuais permanece até nos dias atuais - e, como consequência, um termo foi dado àqueles que não conseguiam sequer tomar alguma atitude sem checar um manual: eram os manual ningem (“seres humanos de manual”). Fazendo um levantamento desses manuais, o repórter nos fala os temas dos que eram mais vendidos nas livrarias e até mesmo na Amazon japonesa: manual para candidatos à compra de terrenos; manual sobre como argumentar com coreanos; manual sobre estímulo sexual. Há muitos outros assuntos nesses guias, claro, mas um, que estava entre os cinco mais vendidos, é o que mais chama atenção: perfeito manual do suicídio.

Como se já não bastasse o choque e a “insensibilidade” de haver um manual para tal feito, Jake ainda nos conta uma triste situação envolvendo esse material. Em certo dia, ele foi chamado a uma cena de crime em que o morto era um menor de idade. Já no local, Jake e os demais o encontram de costas, deitado num beliche. A primeira ação do gaijin é de ir em direção à vítima e tocá-lo, mas seu gesto de aproximação é interrompido por um colega que lhe diz: “Você não está atento, Jake-san. Quase se matou. Você sabe ler japonês. Olhe direito, idiota”. Assim, Jake nos conta um pouco mais sobre a cena que observava: nas contas do jovem havia uma mensagem que dizia: “Não me toque, por favor. Risco de eletrocussão”.

Ao lado do corpo foi encontrado o tal do Perfeito manual do suicídio, que continha as instruções para que se eletrocutasse. A matéria sobre o caso é publicada sobretudo com o intuito de alertar os pais, já que aquilo era um sombrio estímulo a quem quer que lesse.

Mensagens em uma cena de crime


Em outro capítulo bastante marcante, Jake detalhará alguns aspectos que devem ser reparados numa cena de homicídio. Algumas perguntas, diz ele, apesar de não serem muito “conclusivas”, viriam à tona nas entrevistas com policiais: para que lado os pés estavam apontados, ou se o corpo estava de costas. Dentre essas questões aparentemente desnecessárias, algumas eram de suma importância na investigação: a cabeça apontava para que lado? Esse detalhe de certo preenche mais uma lacuna das sutilezas desse lado obscuro de Tóquio, já que, explica Jake, “os japoneses costumam dispor os corpos com a cabeça voltada para o norte, por isso, se o corpo estivesse nessa posição, o criminoso japonês poderia estar sentindo remorso”.

Ansel Elgort como Jake Adelstein
Não apenas a posição do corpo, como também era significativo o fato de a vítima estar calçando seus sapatos ou não. Para os japoneses, o ato de morrer e se juntar à eternidade exigia decoro; se numa casa japonesa não se entra sem sapatos, entrar na eternidade não haveria de ser diferente. Jake explica ainda uma outra situação mais complexa envolvendo os calçados das vítimas: “se ela estivesse sem sapatos e meias - e se estes estivessem na cena do crime -, abria-se a possibilidade de um duplo suicídio em que o parceiro tivesse se acovardado”.

Yakuzas e tradições


Em seu extenso relato, Adelstein se aprofundará em detalhes sobre os yakuza que tampouco eram de seu conhecimento. Já era fato que esses não eram um único grupo, e no capítulo Enterrem-me numa cova qualquer: a visita dos yakuza, o leitor conseguirá compreender melhor essas raízes e variações dos yakuza. Existem dois grupos maiores e principais, os tekiya (camelôs e pequenos vigaristas), e os bakuto (agiotas, cafetões e especuladores financeiros). Além deles, porém, existe uma outra parte considerável integrada pelos dowa, homens responsáveis pelos serviços mais violentos. Apesar dessas divisões mais específicas, Jake deixa claro ao leitor que essas divisões são mais complexas: “Existem no Japão 22 grupos de yakuzas oficialmente reconhecidos. Os três maiores são os Sumiyoshi-kai, com 12 mil membros; o Inagawa-kai, com 10 mil; e, acima de todos, o Yamaguchi-gumi. Este congrega mais de 40 mil membros, em mais de cem subgrupos” - o crime era realmente bastante organizado.

Com essa história vem também uma série de tradições desses grupos. Uma delas é apresentada ao leitor logo nos capítulos iniciais, quando Jake ainda não se faz tão presente nos casos sangrentos e perigosos. Andando pela rua em busca de uma matéria, o repórter passa a observar um homem, vendedor de bugigangas na rua e também estrangeiro, que entrega dinheiro a um japonês que lhe diz shobadai. Jake, apesar de fluente em japonês, não compreende o termo. Ao voltar para o jornal, comenta sobre o termo que havia ouvido e que não identificara o significado - e assim surge no enredo algo bastante curioso sobre a tratativa dos yakuza:

“O que significa Shobadai?”, perguntei. “É uma gíria para ‘aluguel’. Basho significa ‘lugar’ e , dai, ‘dinheiro’. Em vez de Bashodai, os yakuza dizem Shobadai. Eles gostam de inverter as palavras para que as pessoas de bem não entendam.”

Gen Sekine: o serial killer e criador de cães


Para encerrar esta singela lista de fatos interessantes tecidos ao longo de Tóquio proibida, vale mencionar o serial killer Gen Sekine, que acaba por começar a ser investigado no meio midiático na presença de Jake Adelstein. Sekine era conhecido como Kennel, e teria se envolvido com os yakuza por vender animais selvagens aos criminosos - ou, como uma das fontes de Adelstein diz, por vender animais tão assustadores quanto os próprios yakuza. 

Gen Sekine e Hiroko Kazama

O caso de Sekine vem à tona quando Akio Kawasaki, presidente de uma empresa de manejo de lixo, não retornou para sua casa. A esposa, depois de vários dias, vai à polícia e conta que o marido, antes de desaparecer, tivera um desentendimento com um cuidador de cães. A resposta que recebe das autoridades assombra a sra. Kawasaki: "Se seu marido estava envolvido com Sekine, prepare-se para o pior". Essa foi uma colocação certeira, pois o homem de fato havia sido morto. 

Dentre as vítimas do cuidador de cães estava Yasunobo Endo, um membro dos yakuza. A investigação dessa parte do caso fica sobre responsabilidade de Adelstein, mostrando outra aproximação entre o gaijin e a facção criminosa, o que torna tudo ainda mais eletrizante. O interessante em observar o caso de Sekine em um relato como esse não está em compreender o modus operandi do assassino, mas sim em acompanhar o enorme passo dado pelo jornalista ao entrar em contato com um caso tão mórbido. Sekine precisava ser impedido de continuar seus crimes, e ler Tóquio proibida é como viajar para os momentos dessa caçada. 

“Procuro Yakunobo Endo. Esta é a casa dele, não é?

“Sim, esta é a casa dele, mas ele não voltará.”

“Por quê?”

“Porque morreu”, disse ele, sem rodeios. “Kennel o cortou em fatias, transformou-o em carne moída e deu para os cachorros.”

De forma geral, e graças ao trabalho investigativo dos policiais e dos repórteres, descobriu-se que Sekine havia feito quatro vítimas, além de que atuava junto a sua esposa, Hiroko Kazama - ambos foram presos em 1995 e sentenciados com pena de morte. O caso gerou tanta polêmica na sociedade japonesa que inspirou, em 2010, o grotesco filme Cold Fish, dirigido por Sion Sono. Fica a indicação do longa para quem tem curiosidade (e estômago). 


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Referências

Angélica Cigoli
Estudante de Letras, é apaixonada por literatura grega, inglesa e norte americana, com um amor incondicional por F. Scott Fitzgerald. Nos tempos vagos, estuda latim e grego com o sonho de ler os clássicos no original.

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