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Noite no paraíso: outros contos de Lucia Berlin que criam morada nas estantes


Ao ler a obra de Lucia Brown Berlin, é possível pensar em algo posto por Horácio, na Arte Poética, versos 99-103: “Não satisfaz o poema bonito, mas doce requinte, para também levar onde queira a mente do ouvinte. […] Se quer que eu chore, primeiro sofra você, e assim os seus infortúnios me afetam”. Ou seja, não importa se o escrito é belo, arte pela arte; é necessário que toque o leitor através da sinceridade que atravessa a leitura: se o autor quer causar raiva, deve antes ser vítima dessa ira; se quer causar tristeza, precisa senti-la plenamente antes de passar para o papel. Talvez seja por isso que Lucia Berlin e seus contos toquem tanto o seu leitor, visto que há diversas nuances autobiográficas em sua prosa.

A escritora morreu aos 68 anos, em 2004, e, infelizmente, só teve seu devido reconhecimento onze anos após sua morte. Apesar do sucesso que veio apenas postumamente, deve-se pontuar que, antes de falecer, três coletâneas de contos foram publicadas pela Black Sparrow Press, editora independente conhecida por ficção literária e poesia. Em 2015, aconteceu a grande publicação de Manual da faxineira, que compilou parte considerável de seus 76 contos. De grande sucesso, essa foi uma edição que jogou holofote em alguém que já deveria estar sob aquela brilhante luz vários anos antes. 

Quando conhecemos os pormenores por detrás da obra de muitos escritores, percebemos como a maioria deles possuiu uma vida turbulenta e complexa, e com Lucia não foi diferente: casou-se três vezes, cuidou de quatro filhos e teve inúmeros empregos, tendo atuado como professora, faxineira, enfermeira, telefonista - mas sempre foi, apesar de todas essas outras profissões, escritora. Além da amargura da pobreza e das demais dificuldades, Lucia ainda teve de enfrentar o alcoolismo. Porém mesmo que essas dificuldades tenham perpassado seus 68 anos, percebe-se algo ao ler sua obra: existe a sinceridade dos sentimentos, mas Lucia não deixa que sua prosa seja trágica, o que certamente atrai e prende ainda mais a atenção do leitor.
 

Noite no Paraíso: mais contos 


Se Manual da faxineira cativou diversos leitores, com a segunda compilação de contos, Noite no paraíso, não foi diferente. Publicado também pela Companhia das Letras, em 2022, a obra traz outros escritos do mesmo gênero literário. É claro que os textos contêm muito do cunho autobiográfico, mas foquemos mais no fazer literário - muitos preferem as lentes que ampliam a biografia das entrelinhas, esquecendo que há uma técnica empregada, uma preocupação na escrita. Das primeiras características que podemos ressaltar, a exposição dos fatos é uma delas. Os episódios narrados não mostram uma linearidade; as idades dos acontecimentos se mesclam, não mostram ordem clara, o que é divertido também, já que nunca se sabe exatamente o que esperar. 

Lucia Berlin (Imagem: reprodução)
O conto que inicia a antologia, As caixas de música para guardar maquiagem, já conquista o leitor a partir dos primeiros parágrafos, sobretudo pela temática que não toca em nenhum clichê literário: trata-se da narração de um episódio em que Lucia e sua amiga, Hope, vendem rifas das tais caixas de música, como menciona o título, em pleno contexto de Segunda Guerra Mundial. Uma situação como essa faz com que pensemos na inocência das crianças frente a eventos catastróficos: ainda que morressem milhares de pessoas a cada hora, a inocência as cegava e podiam aproveitar as rifas e as caixas de música. Ainda assim, a sensação de melancolia que paira na cidade, como sobre àquelas pessoas que abrem suas portas para comprar as rifas, não passa despercebida por Lucia:

"Além das pessoas solitárias e das que achavam a gente uma graça, havia algumas... duas naquele dia... que realmente acreditavam que era um sinal do destino abrir a porta e receber um convite para tentar a sorte, para fazer uma escolha."

 

Há inúmeras marcações da aniquilação da guerra, que ultrapassa os fronts, como no momento em que Lucia e Hope tentam vender rifas para marinheiros e soldados, deitados nas estações de trem, que "pagavam cinco centavos para ter a chance de falar da outra guerra, de alguma pessoa morta". Ainda assim, as duas eram novas demais para compreender os males daquele massacre que acontecia no mundo, por mais que soubessem da existência da guerra - mesmo com suas mentalidades ainda incapazes de tampouco imaginar aquelas atrocidades. Em outro conto da obra, Às vezes no verão, é notável essa exata sensação de que, felizmente, ainda estavam numa idade e em um contexto que "lhe permitiam" que ficassem alheias ao sofrimento. É bonito de ver, por exemplo, como não estar completamente ciente do que se passa no mundo faz com que peculiaridades deleitem Lucia e Hope. É nesse conto, inclusive, que Lucia Berlin mostra como sua escrita é capaz de descrever belamente até as questões mais simples, como a observação de cacos de vidro: "Durante alguns poucos dias, da nossa posição perto do chão, conseguíamos ver por baixo do mato que cobria o terreno bem na hora em que o sol iluminava aquele mosaico de cacos de vidro. Enviesados, os raios de sol atravessavam os cacos, fazendo-os brilhar como uma janela de catedral".

Para além das descrições bonitas e da visão, de algumas personagens, semiencharcada pelo sangue da guerra, Lucia Berlin trata seus temas com humor - mas sabe quando puxar o tapete do leitor, fazendo-o cair numa grande ansiedade. É o que acontece quando acompanhamos Laura em Andado: um romance gótico. Aos 14 anos, a jovem viaja, sem a companhia dos pais, com amigos militares da família, o que por si só já não parece boa ideia. Ao longo da narrativa, um desses homens, Don Andrés, aproxima-se dela com intenções bastante claras, maliciosas, e que perturbam o leitor. Laura, manipulada por tudo o que supostamente aquele homem representava, apaixona-se por Don Andrés, que a estupra após um acidente sofrido por ambos. É impossível não sentir asco. Mais do que isso, sente-se tristeza por ver a confusão que Laura sente após toda essa tragédia, já que o homem diz que a havia arruinado:

"Arruinou? Eu estou arruinada? Por causa daquela coisa tão rápida e confusa? Todo mundo vai saber, só de olhar pra mim? A Dolores está arruinada? As bolhas de Laura doíam tanto que ela tirou as botas. Ele lhe disse para não fazer isso, mas ela o ignorou, fingiu não sentir as pedras e gravetos debaixo dos seus pés. E se tantas mulheres se arriscam a ficar arruinadas, deve haver alguma coisa errada comigo, porque eu mal percebi o que estava acontecendo."

Noite no paraíso é apaixonante aos olhos de quem deseja destrinchar um livro. O leitor passa a desejar que Lucia Berlin soubesse que, para além dos dias agridoces que enfrentou bravamente, agora ela jamais será esquecida; que Lucia Berlin soubesse que sua obra foi elogiada por muitos, que foi traduzida para diversas línguas, que foi escolhida como uma das dez melhores livros do ano pelo The New York Times. Que Lucia Berlin soubesse que sua morte não é obstáculo, pois estará viva em nossas estantes.



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Referências

Angélica Cigoli
Estudante de Letras, é apaixonada por literatura grega, inglesa e norte americana, com um amor incondicional por F. Scott Fitzgerald. Nos tempos vagos, estuda latim e grego com o sonho de ler os clássicos no original.

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