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Carmilla e Lord Ruthven: marcas do vampiresco


Escrito pelo irlandês Joseph Thomas Sheridan Le Fanu, Carmilla é uma das grandes referências da literatura vampiresca. Desde a publicação, em 1872, certamente a obra conquistou diversos leitores e inspirou muitos autores do gótico - um deles sendo Bram Stoker, que usou a vampira de Le Fanu como referência na composição do enredo de Drácula. Carmilla é narrado, em primeira pessoa, por Laura, uma jovem que morava em uma castelo bastante isolado, contando - a princípio - com a companhia apenas do pai e de duas cuidadoras. Sabe-se, logo no início, que o ocorrido descrito deu-se no passado, mas que Laura gostaria de contá-lo ao leitor - desde que este compreendesse a natureza misteriosa dos eventos e acreditasse no que era narrado.

“Vou contar-lhe agora algo tão estranho que será necessária toda sua confiança em minha sinceridade para acreditar nessa história. Não é apenas a mais pura verdade, e sim uma verdade da qual fui testemunha ocular”

Não apenas testemunha ocular, deve-se lembrar, como Laura foi também vítima direta dos tenebrosos episódios que se sucedem a esse início. Mas antes de aprofundar no caráter assombrado de Carmilla, identifica-se, apesar da atmosfera vampiresca ser o mais marcante no livro, algo interessante que se dá ao longo da narrativa, que é a característica premonitória de certas passagens. Logo no primeiro capítulo, Laura conta ao leitor um sonho que tivera aos seis anos, em que via uma bela dama a olhando, parada perto de sua cama, e que a embalou até que voltasse a dormir. Repentinamente, porém, o caráter de sonho se esvai e dá lugar para um pesadelo atormentador: “Fui acordada por uma sensação como se duas agulhas tivessem penetrado profundamente em meu peito ao mesmo tempo”.

Sheridan Le Fanu

Indo adiante, no segundo capítulo finalmente conhecemos a personagem que nomeia a obra: a belíssima Carmilla. Seu surgimento na história se dá quando a carruagem da moça, que levava também sua mãe, tomba em uma ponte perto da moradia de Laura. Preocupados com o acidente, os moradores do palácio se aproximam da cena e percebem que todos os passageiros estavam bem, apesar da jovem - ainda desconhecida - permanecer desacordada. A mãe, porém, sem ferimentos e sem grandes preocupações com o ocorrido, insiste em se mostrar apressada para concluir uma viagem urgente, que agora seria ainda mais prolongada. Laura e seu pai, que raramente recebiam visitas, oferecem o castelo para Carmilla se hospedar até que a mãe retornasse de seu compromisso inadiável, o que é prontamente aceito.

É com o início da estadia de Carmilla que a vida de Laura passa a sofrer sensíveis mudanças, inclusive sentimentais, já que a faceta misteriosa e a beleza primorosa da visitante atraía Laura de todas as maneiras imagináveis, o que certamente é correspondido. As personagens passam a se aproximar, dedicam carinhos uma a outra e tecem uma relação permeada por amor, desejo e admiração. Esse é um dos motivos, inclusive, para Carmilla chamar tanta atenção de muitos leitores: o teor sáfico. Le Fanu infelizmente não se prolonga muito no vínculo criado entre as duas, o que talvez pudesse ser resolvido caso a obra fosse mais extensa, quem sabe. Para além da paixão, Laura repentinamente passa a adoecer. Deixa de ser a jovem saudável e encantadora que era, e começa a ser tomada por uma incessante languidez e melancolia. O motivo de todas essas mudanças, porém, fica a cargo do leitor descobrir. 

Quando se tem um repertório mais diverso da literatura, encontramos semelhanças entre as leituras, o que certamente enriquece ainda mais as obras. A conexão entre os livros nesse tão vasto mundo literário é interessante e instigante. Tirando o foco de Carmilla e observando o universo da literatura vampiresca como um todo, facilmente notamos as características comuns entre os enredos, bem como a formação do próprio vampiro enquanto personagem, que possui alguns aspectos padronizados que os leitores de horror conhecem tão bem. Dentre essas obras com traços semelhantes, podemos destacar a proximidade entre Carmilla e O Vampiro, do autor inglês John William Polidori.

Carmilla e O Vampiro se cruzam

São diversos os pontos em comum entre Carmilla e O Vampiro, e aqui vamos enumerá-las de forma a entender como se cruzam essas narrativas de vampiro, ainda que escritas em momentos diferentes, já que Carmilla foi escrito em 1872, enquanto O Vampiro, em 1819.

John William Polidori

Dentre as similitudes, pode-se notar um aspecto importante da vida desses personagens vampirescos. Carmilla e Lord Ruthven (o vampiro de Polidori) são pertencentes a uma classe aristocrática, ambos membros da elite. Em uma nota de rodapé de Carmilla, publicado pela Editora Wish, que usamos como base para a construção desse texto, tem-se declarado que a raiz aristocrática da personagem de Le Fanu remonta à origem de Lord Ruthven. Assim, é interessante observar não apenas a semelhança entre as figuras, mas também o fato de que certamente o autor irlandês foi leitor de Polidori.

Indo além, percebe-se como as vítimas das obras, Laura em Carmilla e Aubrey em O Vampiro, são quase que sufocadas por imensurável admiração aos vampiros. Ambos os protagonistas sentem-se curiosos para ir a fundo na figura misteriosa que o até então desconhecido representa, como se desvendá-los fosse trazer um prazer singular. O vampiro representa, em ambas as narrativas, uma espécie de extraordinário - e, inclusive, adjetivos extremamente elevados são usados para descrevê-los. Para evidenciar tal situação, destacam-se alguns trechos - em Polidori, Aubrey “[…] estava prestes a renunciar a seus sonhos, quando o ser extraordinário que descrevemos acima surgiu em seu caminho”; em Le Fanu, Laura confessa: “Fiquei encantada com minha companheira - e em muitos aspectos. Nada de sua boa aparência se perdia à luz do dia - ela era certamente a criatura mais linda que eu já tinha visto”.

Observando agora o comportamento dos vampiros, vê-se que ambos possuem uma forma similar para recompor a saúde: estar exposto aos raios da lua. Carmilla, que parecia estar adoecendo, melhorava, quase que instantaneamente, quando banhada pela lua; o mesmo ocorre com Lord Ruthven, porém num episódio muito mais curioso, este que ajudará na reviravolta do conto. Em certo momento, Lord Ruthven se depara com a morte - e não nos prolongaremos em contar como esse fato se dá, para que o leitor o descubra sozinho -, e, antes de morrer, pede para que seja exposto, no alto de uma montanha, à luz lunar. É esse banho de lua que o fará se recompor e seguir sua vida vampiresca.

Gravura de C. M. Jenkin para desenho de Michael Fitzgerald

Outro fato curioso é a aura de “segredo” que paira nas duas narrativas. A mãe de Carmilla, antes de entregá-la aos cuidados do pai de Laura, deixa claro que nem ela e nem sua filha contariam quem eram, por mais que insistissem para saber a história de ambas. Isso de fato ocorre, apesar de Laura repetidas vezes pedir para Carmilla confiar sua vida a ela. Em O Vampiro, uma situação diferente acontece, apesar de que um segredo também fica em evidência. Quando encontra-se prestes a morrer, Lord Ruthven pede para Aubrey:
“– Ajude-me! Você pode me salvar. Você pode fazer mais do que isso. Não estou falando da minha vida. Importo com a morte tão pouco quanto o dia passa. Mas você pode salvar minha honra, a honra de seu amigo.

– Como? Diga-me como? Eu faria qualquer coisa – respondeu Aubrey.

– Preciso de pouco, minha vida está chegando ao fim rapidamente, não posso explicar como. Mas se você esconder tudo o que sabe de mim, minha honra estará preservada dos comentários maldosos do mundo. E se minha morte não for anunciada na Inglaterra por algum tempo, eu continuaria vivo para eles.

– Ninguém saberá.”
E descobre-se, nos momentos finais do conto, que Lord Ruthven insistiu em fazê-lo prometer que não contaria o segredo pois, com a ajuda da lua, “ressuscitaria” em plenas condições.

Por fim, um recurso narrativo em comum, com finalidade de reconhecimento, é usado pelos dois autores. Em Polidori, contam para Aubrey sobre a lenda dos vampiros que viviam em determinada floresta da região, e, para a surpresa do personagem, as características detalhadas sobre a aparência tradicional dessas figuras muito se assemelhavam às de Lord Ruthven. O mesmo ocorre em Carmilla - apesar de que o pai e Laura não percebem as afinidades entre as mulheres descritas por uma das vítimas da vampira e a hóspede misteriosa. Essa passagem se dá quando um dos personagens secundários conta quando conheceu Mircalla (Mircalla é Carmilla, como se percebe também pelo anagrama feito a partir do nome da personagem), a jovem que levou sua filha a adoecer, que sofreu os mesmos sintomas com os quais Laura estava tendo de lidar.

Assim, fica claro que o universo vampiresco se inicia e se perpetua nele mesmo. A tradição se origina de uma maneira e suas raízes se emaranham nas narrativas até os dias atuais, multiplicando as histórias de vampiro e fazendo com que os leitores sejam eternamente apaixonados por eles.


Referências

  • Carmilla (Sheridan Le Fanu)
  • O vampiro (John William Polidori)




Arte em destaque: Mia Sodré 

Angélica Cigoli
Estudante de Letras, é apaixonada por literatura grega, inglesa e norte americana, com um amor incondicional por F. Scott Fitzgerald. Nos tempos vagos, estuda latim e grego com o sonho de ler os clássicos no original.

Comentários

  1. Eu particularmente gosto muito de Carmilla. Gostaria que houvesse um aprofundamento maior dos sentimentos que as personagens passam a nutrir uma pela outra? Gostaria! Mas só o que já temos é instigante. Darkside também lançou uma edição de Carmilla que ficou sensacional!

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  2. li Carmilla recentemente e adorei! Gostei muito do aspecto social disposto nas figuras de Carmilla e Laura.

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