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5 contos para conhecer no mês do horror


O conto é um gênero literário de curta extensão, mas que, ainda que sucinto, não deixa de criar para o leitor uma atmosfera imersiva. Para alguns autores, o conto deve ser lido de uma vez, sem interrupções, para evitar que essa quebra faça com que certos elementos se percam no processo. Assim sendo, em contos de romance nos apaixonamos de forma repentina e por inteiro; nos mais dramáticos, nos sensibilizamos quase que imediatamente e até o ponto final do enredo. Com os contos de horror não seria diferente: o clima tenebroso nos toma cuidadosamente no início; nos guia, através das caracterizações grotescas e sombrias, até um abismo. Em seus momentos finais, empurra-nos nessa imensa escuridão abismal e se prende por muito tempo em nossas mentes. Esse é o caso dos contos que separamos na lista a seguir - e sugerimos: leia de uma só vez, para que nada se perca, mas esteja preparado para os assombros que eles causarão. 

O enterro prematuro, de Edgar Allan Poe 

“Pode-se afirmar, sem hesitação, que nenhum evento é tão terrivelmente capaz de inspirar a suprema angústia do corpo e da mente quanto o enterro antes da morte. A insuportável opressão dos pulmões - […] - o abraço rígido da morada estreita - as trevas da Noite absoluta […]”
Há muitos medos comuns que servem de pano de fundo para narrativas de terror. No caso de O enterro prematuro, de Edgar Allan Poe, o inconsciente coletivo de medos se faz presente, ao passo que o narrador conta sobre seu imensurável temor de ser enterrado vivo. Em outros períodos, esse era um medo comum que acompanhava muitas pessoas. Como o próprio protagonista de Poe esclarece, eram conhecidas doenças e complicações que podiam trazer ao homem o aspecto de morto: a pele se empalidecia, a pulsação não mais se notava, os lábios ficavam roxos. Todavia esse estado nada mais era que um curto período de “desfalecimento”. Para comprovar - e, quem sabe, não julgarmos - seu medo, o narrador também nos detalha episódios de que tomara conhecimento; ou seja, pessoas que foram vítimas da inumação em vida.

Edgar Allan Poe

Com esses casos em mente, certamente o leitor passa a também ficar atordoado com a hipótese. Porém seu medo nunca será maior que o do narrador. Isso porque, ao longo de seu depoimento, informa-nos um dos principais motivos para tamanho medo: uma doença chamada catalepsia. A catalepsia, devido seus sintomas, que interferem inclusive na respiração, faz com que o doente adquira o aspecto de um morto. Assim sendo, um episódio de catalepsia poderia facilmente fazer o narrador ser enterrado vivo. De modo a combater seu temor, acaba por construir uma cripta onde deveria ser enterrado; o caixão, para ser o menos claustrofóbico possível, seria acolchoado por dentro; pendurado no teto, e ligado a uma corda a ser amarrada em sua mão, dentro do caixão, encontra-se um sino, que tocaria a fim de alertar que estava vivo.

Diante de todo esse pânico, o que mais haveria de acontecer com nosso tão assustado narrador?

A dama no espelho, de Virginia Woolf

"As pessoas não deveriam deixar espelhos pendurados pela casa." 
Ambientado em uma casa vazia, com um jardim caracterizado de maneira bastante bucólica, conhecemos Isabella. Aos olhos da narradora - que não convém esclarecer quem é -, Isabella parecia ser uma mulher misteriosa, mas certamente feliz e inteira de amor, já que contava com vários amigos e uma vida repleta de viagens. Contudo aquela visão superficial não era suficiente. A narradora queria algo mais: "Era seu mais profundo estado de ser que a gente queria captar e verter em palavras, aquele estado que é, para o espírito, o que a respiração é para o corpo".

Virginia Woolf

A dama no espelho é um conto de Virginia Woolf que, de maneira criativa, faz o leitor se arrepiar, além de gerar o impulso de pensar sobre aquilo que há de superficial: seria, o que enxergamos, a verdade? Ou essa verdade foi criada pela interpretação pessoal de cada um? Trata-se de uma viagem com destino aos questionamentos dos reflexos do leitor e sobre aquilo que não se mostra de forma tão aparente - mas que ainda assim existe. 

Notícia de um homem conhecido ou o diabo em Berlim, de E. T. A. Hoffmann


Conhecido por sua literatura fantástica, E. T. A. Hoffmann escreve um conto que certamente agradará àqueles que gostam de O bebê de Rosemary. A narrativa acompanha um homem, recorrentemente referenciado como “o estrangeiro”, que chamava a atenção de quem cruzava seu caminho nas ruas de Berlim. De aparência refinada, o tal do estrangeiro era gentil com os demais, e, para tanto, constantemente visto em cerimônias particulares - desde as mais deprimentes, como em enterros, mas também nas de grandes felicitações, como em casamentos.

E. T. A. Hoffmann

É com a gravidez da esposa de um conselheiro, Walter Lutkens, que se começa a suspeitar de possíveis forças do mal diluídas na atmosfera da cidade. Mas, Hoffmann nos faz pensar, estaria o estrangeiro atuando sozinho?

“É tão forte o poder do Diabo que só a graça divina é capaz de nos preservar de seus malefícios!”

A morta, de Guy de Maupassant


Ao contrário do que sugere o título da coletânea em que se lê esse conto (Uma aventura parisiense e outros contos de amor), A morta certamente não se trata de um enredo puramente romântico. Logo de início, conhecemos um narrador devoto à sua amada que falecera; nitidamente apaixonado pela mulher, agora se lamentava pela perda de quem um dia lhe acompanhara. Repentinamente adoeceu e faleceu, deixando a todos sem entender ao certo o que lhe ocorrera.

Guy de Maupassant

Em determinado momento da narrativa - que é bastante curta -, o narrador retorna para Paris, onde a amada estava enterrada. Em uma espécie de estado hipnótico, gerado pela tristeza, o protagonista se dirige ao cemitério, pondo-se em frente da lápide, que dizia: “Amou, foi amada e morreu”. Pensando em passar a noite ao lado da sepultura da mulher, tenta ficar pelas redondezas do cemitério; porém, imerso nesse episódio melancólico, perdera a noção do tempo e se percebe ali, perdido, sob uma noite escura em que sequer brilhava a lua. O sombrio, entretanto, não se dá pela caracterização do ambiente, que se torna ainda mais mórbido naquelas horas da madrugada, e sim pelo fato de que os mortos não mais estavam em suas covas. Só assim ele poderia finalmente saber o motivo da morta da amada.

“E percebi, tornando o corpo, que todos os túmulos estavam abertos, que todos os cadáveres haviam saído, que todos tinham apagado as mentiras inscritas pelos parentes sobre a pedra funerária, para restabelecerem a verdade.” 

Aqueles que se afastam de Omelas, de Ursula K. Le Guin


Aqueles que se afastam de Omelas é certamente um dos contos mais diferentes desta lista, pertencendo mais a uma literatura fantástica, porém com um enredo que nos arrepia e nos faz pensar por muito tempo após sua leitura. Omelas é a cidade fictícia do conto da autora Ursula K. Le Guin, um lugar tido como maravilhoso. As descrições feitas pela narradora fazem o leitor adentrar numa espécie de reino paradisíaco: lá as pessoas são felizes, os problemas pouco importam; elas festejam em comunidade, a música ecoa pelas ruas. Omelas é tão surpreendentemente fantástica que a narradora bem sabe que um leitor, imerso num sistema já conhecido por todos, tampouco acreditaria na veracidade daquelas afirmações.

Ursula K. Le Guin

Para a surpresa de todos, a narradora então faz uma interrupção, dando margem ao momento de horror do texto - e isso certamente não poderia ser descrito; contar o que se dá em Omelas substitui o choque de descobrir o que há por trás daqueles tão alegres cidadãos. O texto de Ursula K. Le Guin conquistará o coração de leitores que gostam de grandes reviravoltas, e sobretudo aqueles que, somado a isso, também se interessem por críticas sociais. E, afinal, o que haveria de errado nessa cidade, aparentemente tão feliz, para que haja aqueles que se afastam de Omelas?
“Você acredita nisso? Você aceita o festival, a cidade, a alegria? Não?
Então me deixe descrever mais uma coisa.”

Referências





Arte em destaque: Caroline Cecin 

Angélica Cigoli
Estudante de Letras, é apaixonada por literatura grega, inglesa e norte americana, com um amor incondicional por F. Scott Fitzgerald. Nos tempos vagos, estuda latim e grego com o sonho de ler os clássicos no original.

Comentários

  1. Adquiri recentemente um livrinho do E. T. A. Hoffmann, sem nem conhece-lo. Que bom ver ele sendo indicado aqui!

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