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Eros, o doce-amargo, na poesia de Safo


A temática erótica possui alguns lugares-comuns (ou seja, temas que se repetem) ao longo de todos os períodos em que escritores se propuseram a falar, desabafar e recitar sobre o amor. Desses temas em comum, podemos ressaltar o amor dilacerante, aquele que cria veias flamejantes no domado por tão incontido sentimento.

Para tanto, na lírica grega arcaica, não era diferente, e nela encontramos uma figura recorrente: Eros. Associado sempre ao desejo e, sobretudo, à falta causada pela não saciedade do lado carnal, Eros pode ser tanto interpretado como o deus do amor e do erotismo - muitas vezes ligado à Afrodite -, mas também como uma espécie de sinônimo para tal sentimento. Safo, uma das poetas desse grandioso período da literatura grega, parecia encarar Eros como uma experiência que unificava o prazer e a dor - percebe-se, portanto, um paradoxo: como há dor onde há prazer? Eros, portanto, divide a mente daqueles por ele submetidos em dois, trazendo polaridade e confusão - ressaltando que o sentimento de confusão mental é também muito comum em poemas e prosas amorosas. O binômio paixão-loucura, como apontado por Giuliana Ragusa, fica claro no Fragmento 51 de Safo, em que temos:

“... não sei o que faço: duas são as minhas mentes [...]”

Para compreender profundamente a ideia paradoxal de Eros, podemos primeiramente citar o Fragmento 102 de Safo:

“... Eros de novo - o solta-membros - me agita,
doce-amarga inelutável criatura…”

O paradoxo novamente aparece no adjetivo “doce-amargo”. Como algo amargo pode ser, ao mesmo tempo, doce? Para Anne Carson, grande estudiosa da área de clássicos, que dedicou um livro excelente sobre o assunto, “Eros, the bittersweet”, aponta duas possíveis interpretações: a primeira delas é que Safo, bem como outros poetas gregos, encarava Eros como uma experiência que se inicia doce e se finda amarga. Quem nunca, afinal, passou por uma relação amorosa que não seguiu exatamente esse percurso de doce para amargura? A segunda das interpretações, que também é bastante interessante, diz respeito ao fato de que, concomitantemente, doce e amargura estarão presentes a partir do momento em que Eros domar suas “vítimas” - nada é completamente amargo, tampouco completamente doce. Essa ambiguidade do amor, a divisão em dois da mente dos amantes, mais uma vez aparece.

Safo e suas alunas, por Amanda Brewster Sewell (1891)

Outro ponto importantíssimo é encontrado nesse mesmo fragmento: o lado dilacerante do amor. Ao apontar que Eros é “solta-membros”, o eu-lírico está apontando para o fato de que esse desejo tem tanta força sobre aquele dominado pelo sentimento, que chega a soltar seus membros, dividindo este em pedaços. E, novamente, quantas vezes não nos sentimos com as pernas bambas e coração tremulante diante ao amor?

Não obstante, os fragmentos em que Eros aparece contam com vocabulários agressivos, demonstrando que o deus/sentimento não surge diante das pessoas com bondade e gentileza: muito pelo contrário, o desejo é domador e os amantes são vítimas de sua lascividade. Assim, observa-se o Fragmento 47 de Safo:

“... Eros sacudiu meus
sensos, qual vento montanha abaixo caindo sobre
[as árvores…”

Eros, enquanto aquele que é violento, sacode os sensos. O verbo “sacudir” aqui é também uma prova dessa violência tão clara. Além disso, o eu-lírico, após ser brutalmente tocado pelo desejo, compara o sentimento, de forma bastante imagética, ao vento que “despenca” sobre as árvores. Todas as imagens aqui criadas, fica claro, são fortes e grandiosas, sem qualquer espaço para delicadezas.

Por fim, também é possível encontrar Eros como aquele que causa dores de amor, o que pode ser facilmente percebido no Fragmento 31 de Safo:

“Parece-me ser par dos deuses ele,
o homem, que oposto a ti
senta e de perto tua doce
fala escuta,
e tua risada atraente. Isso, certo,
no peito atordoa meu coração;
pois quando te vejo por um instante, então
falar não posso mais,
mas se quebra minha língua, e ligeiro
fogo de pronto corre sob minha pele,
e nada veem meus olhos, e
zumbem meus ouvidos,
e água escorre de mim, e um tremor
de todo me toma, e mais verde que a relva
estou, e bem perto de estar morta
pareço eu mesma.”

Esse Fragmento parece enumerar uma série de sintomas a que o amante, que observa a figura diante de si, é acometido: o peito começa a atordoá-lo, a língua se quebra, fogo corre sob sua pele, os olhos se cegam, além de que tudo o que se ouve é um zumbido. O desejo é tanto que o organismo reage contra aquela carga tamanha de sentimentos. É interessante notar duas coisas: a primeira delas é a imagem do fogo, algo muito presente até hoje para se falar do amor erótico e sexual; a segunda é a oitava estrofe, “falar não posso mais”, como observação de que até a fala foi perdida diante de tanta euforia e desejo.

Após analisar esses fragmentos, é interessante verificar como essas características aparecem até hoje em nossa literatura. Mais ainda é reparar que as poesias e os romances não são exatamente sobre a pessoa amada, ou aquele que ama, mas sim da falta, do buraco causado em nosso peito quando o desejo e o amor ainda não foram consumados. De forma poética, Safo formalizou, nesses fragmentos, a dor que sentimos sempre que tropeçamos em paixões ao longo da vida.

“Na imagem sáfica de Eros, projeta-se a concepção grega sobre o desejo, a paixão erótica: prazerosa e doce, mas sobretudo violenta, acre, dolorosa, doença do corpo e mente, força dominadora e intermitente”

(Ragusa)

Referências



Arte em destaque: Caroline Cecin
Angélica Cigoli
Estudante de Letras, é apaixonada por literatura grega, inglesa e norte americana, com um amor incondicional por F. Scott Fitzgerald. Nos tempos vagos, estuda latim e grego com o sonho de ler os clássicos no original.

Comentários

  1. Absolutamente TUDO! Lindo texto 🥺🥺🥺

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  2. Já posso dizer que amei demais suas considerações sobre a obra?! Tudo perfeito!

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