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50 anos de horror: O Médico e a Irmã Monstro


Num fim de semana desses eu aproveitei para ver os filmes do meu box do Bela Lugosi que saiu pela Obras Primas do Cinema. Nos extras, estava o documentário The Horror of It All, de 1983, que mostrava entrevistas com diversos atores do gênero. Dentre eles, Martine Beswick, falando sobre o filme O Médico e a Irmã Monstro (Dr. Jekyll and Sister Hyde no original), que eu desconhecia. Mexendo nos meus DVDs, encontrei esse filme na caixa Obras-Primas do Terror 8 e aproveitei para assisti-lo para comentar aqui no especial de 50 anos de horror do Querido Clássico. 

Antes de parar para escrever, resolvi reler a novela O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, que já ganhou diversas adaptações para o cinema e hoje é uma história conhecida na cultura pop. Dr. Jekyll, fascinado com a dualidade do ser humano, começa a pensar muito sobre o fato de termos o bem e o mal dentro de nós mesmos. 

Cientista curioso, ele desenvolve uma fórmula que acaba aflorando o lado "mau", aquele que tentamos esconder a todo custo. Nele, esse lado tem um nome: Mr. Hyde. Mais baixo, esquisito, como se tivesse alguma deformidade da alma. Aos poucos ele começa a tomar o lugar do Dr. Jekyll e não há nada que ele possa fazer para detê-lo. 

Na produção da Hammer, o diretor Roy Ward Baker comete algumas licenças "poéticas". A história se passa na era vitoriana e o Dr. Jekyll busca a vida eterna; para isso, precisa de hormônios femininos roubados de cadáveres frescos. Ele sabe que mulheres vivem mais que homens, então ele acha que esse é o caminho para a imortalidade. 

Ele decide então injetar o soro em si mesmo e se transforma numa bela mulher. Para os vizinhos, ela é a irmã do Dr. Jekyll, e está ali a passeio. Após algum tempo, ele precisa de mais cadáveres para continuar produzindo o soro, e logo começam as notícias de prostitutas assassinadas em Londres. 

Aqui a licença poética: o diretor usa o caso real de Burke e Hare, dois homens que assassinaram diversas pessoas e as venderam para um médico usar em aulas de anatomia. E, além disso, o filme se passa em Whitechapel, local em que Jack, o Estripador cometeu seus crimes. As datas não batem, mas aqui entra o famoso "entrar na história", e, por acaso, deu bastante certo. 


O mal aqui, diferentemente da história original, é uma mulher. É interessante pensar por essa perspectiva, levando em conta o papel da mulher ao longo da história. Lilith, bruxas, esposas do Diabo, todo tipo de maldade estava ligado às mulheres. E a personagem usa apenas roupas vermelhas - o Dr. Jekyll parece gostar de estar na pele de uma mulher e usar de sua sedução para conseguir o que quer. 

A Hammer produziu diversos filmes desses, filhos de personagens famosos, Drácula no mundo da minissaia (Dracula A.D. 1972 no original) e etc. Na maioria das vezes deu tudo muito errado, mas aqui não. É um filme visualmente lindo (como tudo da Hammer), com um enredo que convence e te faz sentir a dualidade enquanto espectador. 




Texto: Michelle Henriques 
Arte em destaque: Mia Sodré 
Michelle Henriques
Formada em Letras, é analista de marketing editorial. É também coordenadora e mediadora do Leia Mulheres. Escreve sobre cinema no site Cine Varda e tem um canal de terror chamado The Witching Hour. Pesquisa sobre cinema e literatura de terror. Mora em São Paulo com seus dois gatos.

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