Radioactive: quando a arte não imita a vida

Radioactive (2019) é a cinebiografia de uma das mais brilhantes mulheres que já passaram pela face da Terra, Marie Curie, conhecida pela descoberta da radioatividade e de dois novos elementos químicos, o polônio e o rádio. Marie também foi a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel e a única mulher a ganhar em duas categorias distintas — ela ganhou o Prêmio Nobel de Física conjuntamente com seu marido, Pierre Curie, e o cientista Henri Becquerel, em 1903, e em 1911 ela ganhou sozinha o Prêmio Nobel de Química. Também foi a primeira mulher a lecionar da Universidade de Paris. A cinebiografia é uma adaptação da graphic novel escrita por Lauren RednissRadioactive Marie and Pierre Curie: a Tale of Love and Fallout, que foi baseada na história real de amor de Marie com seu marido e companheiro de pesquisa, e conta com a direção de Marjane Satrapi, conhecida por sua animação autobiográfica Persépolis. Satrapi aproveitou para embarcar na onda de cinebiografias que Hollywood transformou no gênero saturado da vez, mas com alguns projetos bem sucedidos envolvendo a adaptação da vida de famosos cientistas como O Jogo da Imitação e A Teoria de Tudo. Infelizmente, no caso de Radioactive, a arte não vai imitar a vida brilhante de Marie Curie. 

No começo do filme vemos uma Madame Curie já idosa, em uma maca dentro de um hospital, onde se desenrola uma típica cena na qual a personagem vê toda a sua vida passando diante de seus olhos enquanto a morte espreita. Suas lembranças a levam direto para o momento em conhece seu marido, Pierre Curie, com quem dividiu os grandes êxitos de sua vida. O primeiro encontro dos dois cientistas acontece através do típico modelo Austeniano de comédias românticas, no qual um esbarra no outro, enquanto ela, distraída, lê um livro de microbiologia (não somos tão bobos a ponto de acreditar que isso realmente aconteceu, mas vamos relevar em nome do romance). 

Como forma de resgatar algum fantasma do passado de Marie, decidiram retratar seu trauma de hospitais causado pela doença e morte de sua mãe, que presenciou quando era criança e da qual supostamente nunca se recuperou. Mas acreditamos que falar de como foi sua educação seja mais relevante do que abordar as causas do trauma de uma mulher com tamanha importância. 

A verdadeira Marie Curie

Seu pai era professor de física, ou seja, foi dele de quem Marie pegou a paixão por fazer ciência. Um dos acontecimentos mais importantes de sua trajetória foi o fato de que ela teve que sair do próprio país natal para estudar no estrangeiro, pois a Polônia naquela época não permitia que mulheres tivessem acesso ao ensino superior; então, Marie vai para França para continuar seus estudos e se dedicar a sua grande paixão: a ciência. O trauma de Marie é jogado no filme como se ele fosse parte de algo importante que a afetaria de alguma forma ou que interromperia ela de seu trabalho, mas isso não acontece e acaba não fazendo sentido algum na narrativa. 

Marie foi uma pioneira, não só no caso da descoberta de dois novos elementos e todas as consequências que viriam disso, ela também foi uma figura que serviria de exemplo para outras mulheres que se interessavam por profissões destinadas aos homens (naquela época, era a maioria das profissões). Durante toda a sua carreira, Marie foi tida por seus colegas e superiores como uma exceção, seus experimentos e descobertas eram incríveis e não havia como negar sua genialidade como cientista, então eles diziam que ela era uma exceção, pois seu gênero era marcado por seres com intelecto inferior cuja opinião ou tentativa de contribuição em qualquer âmbito da vida em sociedade eram avidamente ignorados e desencorajados. Os primeiros artigos escritos por Marie para relatar suas descobertas eram sempre em terceira pessoa, a cientista tinha que esconder que ela havia feito todos os processos e colhido os resultados porque seria ignorada se o nome de seu marido não estivesse ali, ao lado do dela, seu trabalho seria totalmente desconsiderado se o artigo apresentasse somente seu nome. Marie pavimentou o caminho para milhares de outras exceções que mostraram o que elas poderiam fazer quando tinham uma mínima chance e uma pequena oportunidade. 

Apesar de tudo, Pierre e Marie se amaram muito, e junto os dois trouxeram descobertas incríveis que beneficiaram a humanidade. Eles são o melhor exemplo de companheirismo na história da ciência. E é uma grande pena que Radioactive não tenha conseguido convencer o quanto os dois se amavam. Os dois atores que os interpretam (Rosamund Pike como Marie Curie e Sam Riley como Pierre Curie) não conseguiram fazer nutrir uma simpatia pelo relacionamento do casal durante o filme, que é perpassado por uma suposta indecisão de seus realizadores. É possível perceber que eles não conseguiram se decidir se o longa seria uma história de amor ou a história da vida de uma mulher em seu todo. Destaque para as cenas onde Marie namora seu frasquinho verde radioativo, enquanto seu marido tosse ao seu lado na cama; é possível sentir mais química da Rosamund Pike com esse frasquinho do que com Sam Riley. 

Um dos pontos positivos do filme foi terem abordado o grande altruísmo de Pierre e Marie ao optarem por não patentearem suas descobertas, mesmo que isso pudesse lhes dar um laboratório novo e riqueza. Eles realmente acreditavam na contribuição da ciência para o desenvolvimento da sociedade como um todo, e criam que suas descobertas mudariam o mundo. Seu desejo era de que elas estivessem ao alcance de todos. 

Teria sido muito interessante se o filme tivesse abordado mais sobre a relação de Marie com suas duas filhas, que seguiram o legado da mãe e se tornaram mulheres extraordinárias. No filme, vemos apenas um pouco da relação de Marie com sua filha mais velha, Irène Joliot-Curie, interpretada por Anya Taylor-Joy. Irène seguiu os passos da mãe como mulher da ciência dando continuidade ao estudos da radiação e trabalhou junto com Marie durante a I Guerra Mundial, instalando máquinas de raio-X móveis nos campos de batalha para que os soldados recebessem um tratamento médico melhor. Irène tinha apenas 17 anos e já atuava como enfermeira radiológica nos hospitais de campanha. Assim como sua mãe, ela também ganhou um Prêmio Nobel de Química, em 1935. Ela dividiu o prêmio com seu marido, Frédéric Joliot, e os dois obtiveram reconhecimento sobre seu trabalho sobre a síntese de novos elementos radioativos.

A filha mais nova, Ève Curie, foi a única que decidiu não seguir os passos de sua família em relação à dedicação à ciência, mas também se tornou uma mulher admirável. Ève era bastante engajada em assuntos políticos e chegou a se tornar uma ativista dos direitos humanos, visitando mais de cem países em desenvolvimento que recebiam assistência da Unicef na época. Além disso, foi Ève quem escreveu a biografia de sua mãe, pois, nos seus últimos dias de vida, Marie se tornou bastante próxima de sua filha mais nova, já que a mais velha tinha que passar o dia trabalhando no laboratório. 

Em 1937, Ève publica a biografia de sua mãe, Madame Curie. O livro se tornou um grande sucesso, concedendo vários prêmios literários e reconhecimento a ela, que ganhou inclusive uma adaptação cinematográfica em 1943. Na biografia de sua mãe, Ève optou por não abordar sobre um caso que Marie teve com um homem casado e que era então aluno de seu ex-marido. Ela considerou que essa parte da história de sua mãe não seria relevante frente à grande mulher que ela foi, e que cometeu erros em um momento em que se encontrava muito fragilizada, nunca interferindo em sua genialidade e em seu legado. 

Para ao realizadores de Radioactive, o escândalo do caso de Marie com um homem casado era extremamente relevante, muito mais relevante do que narrar a sua relação com suas filhas, ocupando uma maior parte do filme em relação ao convívio de Marie com Irène e Ève. Em alguns momentos, quiseram dar a entender que Marie era uma mãe ruim, que preferia se dedicar à ciência do que às suas duas filhas. Deixaram de fora o fato de que tanto Marie como Pierre participaram ativamente em sua educação; elas eram educadas em casa, pois Marie não confiava na credibilidade das escolas de Paris e lecionava aulas de física para as meninas e, quando tinha que se ausentar para ir ao laboratório, Marie chamava seus colegas cientistas para dar aulas para as duas. Por isso não é de se surpreender que Irène e Ève tenham se tornado grandes mulheres e bem-sucedidas em suas profissões, pois sua mãe sabia exatamente o que era essencial para que uma mulher fosse bem-sucedida: uma boa educação e oportunidades. Coisas que lhe foram negadas em alguns momentos de sua vida e que, felizmente, ela pôde proporcionar para suas filhas, tão brilhantes quanto a mãe. 

Radioactive tenta nos mostrar uma versão escandalosa da vida de uma das mulheres mais admiráveis que já existiu; não que seja ruim mostrar uma parte "humanizada" de pessoas com trajetórias e vidas fantásticas, mas deixaram de fora do filme tantos aspectos importantes que contribuíram para a construção de sua narrativa que até pareceu, por um momento, que estavam tentando desmistificar o legado dessa mulher, mas de uma forma bastante errada. Mostrar a bomba atômica em Hiroshima e o desastre de Chernobyl como parte das consequências das descobertas de Marie é bastante desmoralizante; ela não patenteou seu trabalho por uma boa razão e, ao contrário dela, existiram pessoas que não pensavam no bem maior, mas apenas no ganho individual, sem se importarem com as consequências. 



Texto: Milena Machado 
Arte em destaque: Mia Sodré 

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