Oito e Meio: uma experiência cinematográfica


"O cinema-verdade? Sou mais pelo cinema-falsidade."
(Federico Fellini)

Um engarrafamento começa e, aos poucos, vislumbramos a figura de Marcello Mastroianni dentro de um carro. Ele está entediado, e aquela situação começa a sufocá-lo. Então, sua mente vagueia, e ele vai parar no céu. Enquanto vive sua fantasia por entre as nuvens, alguém o puxa para baixo. É hora de voltar para a realidade. É assim que começa Oito e Meio, um dos grandes clássicos do cinema.

Essa cena dá a tônica da pergunta que virá a seguir e nos assombra durante todo o filme: o que é real? O que é sonho? A realidade é exatamente o quê? Afinal, o que são os filmes? Perguntas que, aparentemente, não são respondidas após duas horas de filme. E quer saber? Isso pouco importa.

Assistir a Oito e Meio é uma experiência. Lembro de algo que se diz bastante sobre peças teatrais: existe um pacto entre o público e a plateia. A plateia acredita que os fatos mostrados são reais e embarca na jornada. Com Oito e Meio é a mesma coisa. Quando se entra na mente de Guido Anselmi (Marcello Mastroianni), desde o momento em que ele está dentro daquele carro sofrendo um bloqueio artístico, até a cena final, em que a quarta parede e quebrada, você aceita se despir de quaisquer amarras. Narrativa linear? Ficção e realidade demarcados? Isso não nos pertence mais.

Os caminhos de Fellini

Desde que revi o filme, fiquei pensando sobre os caminhos que levaram Federico Fellini até Oito e Meio. É notório que existe uma ruptura de estilo quando ele lança esse filme, em 1963. Até então, ele tinha seguido um caminho linear, digamos assim, com A Estrada e As Noites de Cabíria, filmes delicados e que abordavam as questões existenciais de uma forma mais séria. 

Depois de Oito e Meio, uma safra de filmes na mesma seara será lançado a seguir: Julieta dos Espíritos, Amacord, A Cidade das Mulheres, entre tantos outros. Me parece que, a partir de Oito e Meio, Fellini consegue inserir sua verve cômica, suas caricaturas, de uma forma a fugir cada vez mais do "cinema-verdade", a tônica daqueles anos 1950 e 1960.

Mergulhar na vida de Fellini nos ajuda a entender um pouco como ele chegou até Oito e Meio. O diretor nasceu em Rimini, na Emilia Romagna, em 1920. Naquele momento, a Itália tinha sido unificada há apenas 60 anos, mas o povo não se via como italiano. Por isso mesmo, quando chegou o Duce e o fascismo, as pessoas se identificaram com as ideias nacionalistas trazidas por ele.

Fellini tinha duas paixões nos tempos em que morava em Rimini: o desenho e o cinema. Em 1936, suas caricaturas fizeram tanto sucesso que ele abriu uma oficina de desenhos, a Bottega Del Rittrato. Já a paixão pelo cinema era exercitada no Cinema Fulgor, que exibia filmes estadunidenses. O american-way-of-life fazia muito sucesso entre os italianos, mais que os filmes tediosos italianos sobre Roma que passavam no mesmo cinema.

Depois, quando se mudou para Florença, Fellini passou a trabalhar no períodico Marc Aurelio, e de lá saíram muitas das caricaturas que se transformaram em personagens de seus filmes. Já nessa época suas personagens eram baseados em sua vida. 

O contato com o cinema veio por acaso, de forma talvez um pouco ingênua até. O diretor escreveu o roteiro que se tornaria Roma, Cidade Aberta, clássico do neorrealismo italiano, de Roberto Rossellini. Rossellini ficou encantado com o jovem e decidiu chamá-lo para rodar Paisà. Fellini atuou como assistente de direção e roteirista desse filme. Depois de mais alguns trabalhos como roteirista, ele dirige seu primeiro filme, Abismo de um Sonho, ao lado de Alberto Lattuada.

A lição mais importante que Fellini aprendeu com Rossellini foi que era possível sair da caixa. Rodar filmes com liberdade, sem demasiado apego ao roteiro, passou a ser algo que norteou toda a carreira de Fellini. Muitos diálogos de Oito e Meio, inclusive, foram feitos na base da improvisação. 

No entanto, Fellini se distanciaria radicalmente do neorrealismo italiano, cuja premissa era mostrar a realidade como ela era, sem disfarces. O diretor gostava de trabalhar na via oposta: o absurdo o guiava. Quanto mais estapafúrdio, melhor. O mar que aparece em seus filmes é falso, e ele não faz questão de esconder. Foi no estúdio 5 da Cinnecità, a Hollywood italiana, que Fellini discutiu a sociedade italiana, a vida e a morte, por meio de suas obras.

Guido Anselmi, o cinema de autor: a crise de um artista

Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) é nosso o anti-herói de Oito e Meio. Quando o filme começa, o primeiro contato que temos com o personagem é no momento em que ele sobe ao céu e permanece entre as nuvens. Ali, ele tem seu único instante de paz. Logo em seguida ele é puxado por dois homens e começa seu calvário.

Quem são as pessoas que puxam Guido para a realidade? Os produtores de seu filme. Guido é diretor e está passando por uma crise danada de criatividade. Ele precisa rodar seu  filme, uma ficção científica, mas não sabe o que colocar. Está totalmente perdido. Os produtores querem que ele se atenha ao comercialmente seguro, mas a mente de Guido só sabe divagar.

Uma questão que perpassa o filme inteiro é a do cinema de autor. Essa noção ganhou força em 1954, quando François Truffaut, ainda desconhecido do público, escreveu um artigo na Cahiers du Cinéma intitulado Une Certaine Tendence du Cinéma Français (Uma determinada tendência do cinema francês, em tradução livre). Nele, Truffaut expõe que, embora o cinema seja uma arte coletiva, o diretor é o protagonista de todo o processo cinematográfico. Por exemplo, um Roman Polanski jamais rodaria Oito e Meio da mesma forma que Fellini.

Os produtores do filme de Guido simbolizam o cinema enquanto uma arte comercial, sem espaço para a inovação. O cinema enquanto fábrica, se formos pensar em Hollywood. Para eles, é como se os filmes fossem chapas a serem reproduzidas sem parar. Já Guido quer seguir seus instintos. Ele chega a adoecer por conta dessa crise. Fellini explora como ninguém a questão da autoria, mas sem julgar. O diretor não vilaniza os produtores, ele vai nos mostrando dois caminhos e maneiras de ver o cinema muito diferentes.

O embate entre cinema de autor e cinema comercial se dá principalmente nos diálogos entre Daumier (Jean Rougeul), um intelectual, e Guido. Em certos momentos, parece que Fellini está fazendo troça do cinema de autor, colocando frases de efeito na boca de Daumier e mostrando como talvez ele fosse um idiota por pensar em conceitos difíceis, enquanto Guido só queria emocionar as pessoas com suas histórias. É de ficar pensando.

Guido se liberta dos grilhões de seus produtores e  de sua esposa Luisa (Anouk Aimée) a partir do momento em que começa a fantasiar. E aí que o filme ganha um status diferente. As lembranças de Guido transformam-se em cenas de um filme, ele vê a si próprio recebendo uma educação católica, mas ao mesmo tempo querendo fugir dela ao pedir para que Saraghina (Eddra Gale), uma prostituta, dance. É um jogo interessante, pois Guido é um narrador nada confiável. Ele mostra suas memórias da forma que deseja, sem que exista uma terceira pessoa para mediar o encadeamento dos fatos.

É engraçado ver a influência do catolicismo na vida de Guido, já que ele não pratica os preceitos dessa religião. Guido leva a amante Carla (Sandra Milo) para o hotel em que a produção do filme está hospedada, mas não dá muito bola para ela. Guido tem muitas mulheres em sua vida, mas parece não saber se relacionar com elas. Um dos pontos mais interessantes é quando ele mente para a esposa que terminou seu caso com Carla. Ela e uma amiga Rossella (Rossella Falk) o chamam de mentiroso. Frustrado, Guido refugia-se em suas lembranças, e então temos a apoteose misógina de Oito e Meio: a cena do harém.

Guido está em harém, rodeado por todas as mulheres de sua vida. Sua mãe, sua esposa, Saraghina, Carla, todas desejam satisfazer as vontades dele. Ele está simplesmente no Paraíso. É uma cena tremendamente misógina, mas que resume bastante o relacionamento de Guido com as mulheres de sua vida. Porém, para nossa alegria, uma rebelião feminina começa quando uma das mulheres, Jacqueline (Yvonne Casadei), uma dançarina mais velha, é obrigada a "subir" para o segundo andar. Era regra no harém que, quando uma mulher ficava mais velha, ela era obrigada a subir, ou seja, trata-se de uma metáfora para a morte. Luisa, Rossella e todas as outras começam a implorar para que ela fique, mas Guido não as atende. A apoteose misógina acontece quando ela brande um chicote em cima delas. Pelo menos em seus sonhos ele tinha controle sobre alguma coisa.

Porém, como na vida, precisamos voltar à realidade. Guido é confrontado novamente com a dura realidade mais para fim o filme, quando ele é obrigado a escolher uma atriz para seu novo filme. Os produtores colocam uma série de testes, e ali Luisa percebe que é Carla está retratada na tela. Ao ver a maneira grotesca como ele retrata a amante, e por consequência a si própria, ela decide deixá-lo. Nesta cena em especial, acredito que resida a essência do filme: às vezes as ilusões são maiores que a vida. O cinema era um meio de escape para Guido, e na cena das audições ele percebe que já não é mais possível se refugiar ali.

Em 2010, assisti no cinema ao musical Nine, de Rob Marshall, uma adaptação do musical homônimo da Broadway e inspirado em Oito e Meio. É muito engraçado ver a história transposta para Hollywood. Ela plastifica e glamouriza o universo de Federico Fellini. O número musical Cinema Italiano, cantado pela personagem de Kate Hudson, é o ápice dessa ideia. Nela, ela canta o quanto gosta dos filmes italianos, como Guido retrata homens elegantes e mulheres chiques. Guido vira um mulherengo vazio, quando, mesmo que o odiemos durante Oito e Meio, não é assim. Fora que uma estrofe fala sobre o amor da personagem pelo neorrealismo de Guido. Como disse anteriormente, Fellini fugia do neorrealismo, então não faz sentido algum. É tudo perfeito demais em Nine, e nem a presença de Sophia Loren como a mãe de Guido consegue salvar o filme. Vale a pena para assistir a leitura estadunidense do que Fellini tentou propor em Oito e Meio.

Oito e Meio foi o último filme em preto e branco de Fellini. Depois disso ele continuaria a se aventurar pelo absurdo e o humor em cores. É o início de experiências altamente lisérgicas, que o diga Julietta dos Espíritos. O filme foi muito bem recebido na Itália, e fora dela também. Faturou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Figurino em 1964. 

Até hoje, há quem considere Oito e Meio um filme difícil. Ele o é, mas acredito que exista para nos fazer pensar que outro tipo de cinema também é possível. Um cinema do desprendimento. Talvez o maior desafio de Oito e Meio é fazer com que rompamos os grilhões de um começo, meio e fim. Afinal, se nem a vida é assim, por que esperar isso de um filme?



Texto: Jessica Bandeira 
Imagem de destaque: Mia Sodré 

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