Bom Dia, Tristeza: um ensaio sobre a solidão


Comecei 2021 lendo o livro Bom dia, Tristeza, de Françoise Sagan, tão curtinho e tão devastador. Eu já tinha ouvido falar do filme, e estava com ele na cabeça desde que ouvi o podcast You Must Remember This especial sobre a Jean Seberg. A vida da atriz não foi nada fácil, Otto Preminger, que levou o romance de Sagan para o cinema, foi um diretor péssimo com suas atrizes. Essa aura toda pairava em minha cabeça desde que terminei a leitura e escolhi um final de tarde de sábado para ver o longa. 

A já citada Seberg interpreta Cecile, uma jovem de 17 anos que está passando férias na Riviera Francesa com seu pai, Raymond. Ele é um playboy que leva sua filha para os bares e jantares, e que troca de mulher assim que bate o tédio. A escolhida para as férias é Elsa, jovem carismática e divertida. Eles passam dias ao sol, em cassinos, se divertem bastante. Cecile começa a sair com Philippe, que também está por lá de férias, e o verão parece ir bem. 

A dinâmica deles muda quando recebem uma carta de Anne, uma das melhores amigas da falecida mãe de Cecile. Anne é interpretada pela maravilhosa Deborah Kerr neste longa de 1958. A visita dela é uma surpresa, pois Raymond não lembrava de tê-la convidado. Ela chega e a princípio fica em choque ao ver que ele está em companhia de Elsa, mas logo se recompõe e decide aproveitar a visita. 

Os quatro seguem as férias, se divertindo, mas claro que Raymond e Anne iam se aproximar. Elsa é descartada e encontra conforto nos braços de Pablo, um bon vivant da América do Sul. Em pouco tempo, Raymond e Anne decidem que vão se casar. Cecile se sente desconfortável, ainda mais quando Anne exige que ela comece a estudar e pare de ver Philippe. Nesse momento, Cecile começa a fazer de tudo para que o noivado do pai com Anne acabe.

Anne é uma estilista famosa, uma mulher séria, que em nada combina com o estilo de vida de Raymond, ainda mais que ele costuma sair apenas com mulheres jovens, e Anne não está em sua faixa etária. Cecile bola um plano para fazer com que seu pai volte com Elsa, e ela possa aproveitar o verão em paz e em companhia de Philippe. 

Jean Seberg foi com toda certeza uma das melhores atrizes que o cinema já teve, e é bastante triste pensar em tudo que ela passou. Seu cabelo curto marcou época e ela se tornou uma referência de estilo. Em Bom Dia, Tristeza, sua atuação é comovente, interpretando uma garota jovem, mimada, sem compromisso com nada e que pensa apenas em si mesma. 

Sua relação com o pai chegou a me incomodar em diversos momentos, eram muitos beijos, muita intimidade, algo estranho e completamente fora da minha realidade. Raymond é apenas um homem rico que consegue tudo aquilo que ele quer. Anne e Elsa são as mais afetadas, que são usadas até que ele não as queira mais, e Cecile participa diretamente dessa manipulação. 

O longa se divide em duas linhas de tempo: uma, colorida, no passado, mostrando o verão falsamente idílico deles. Já o presente, em preto e branco, mostra Cecile e o pai após os acontecimentos das férias. Ela carrega alguma culpa, já ele parece apenas estar vivendo mais um momento de sua boa vida. Fica claro que apenas as mulheres sofrem as consequências, por mais que elas tenham errado, enquanto os homens seguem como se nada tivesse acontecido. 

 


Texto: Michelle Henriques
Arte: Sofia Lungui 

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