Anna Kariênina: a decadência da alta sociedade russa

Anna Kariênina deveria ser "Konstantin Dmitrich Liévin", o herói da trama. Falo sobre o título, claro. Talvez pela sensualidade evidente do sintagma, talvez pelo capricho do autor, ou ainda o drama da situação da personagem, Liev Tolstói optou por Anna Kariênina. Certamente, como todos estes livros que discorrem sobre tudo e um pouco mais, como a Bíblia, é difícil conceber um ou dois sintagmas que abarquem o todo. Seria necessário escrever outro livro para dar o nome que merece a descrição do recorte bem feito de tantas vidas humanas. Anna Kariênina é uma obra de ficção, não é real. Como Guerra e paz, ou A morte de Ivan Ilitch, confunde o leitor perdido. Como certa vez disse Aristóteles, "a história se preocupa com o que ocorreu, a poesia com o que deveria ter ocorrido".

O que nos confunde em Tolstói é o seu realismo, não um realismo barato professado por alguns franceses ou ingleses que hoje estão em moda, mas um realismo magistral, tão idêntico à vida mesma que faz do cinema uma mera representação defeituosa. Por ser um livro tão realista, nos esquecemos de que Anna Kariênina encerra em si uma ideologia. Afinal, seu autor foi um educador; quase um profeta para o povo russo. Digo o povo, não a aristocracia do Estado ou da Igreja ortodoxa. Para estes, Tolstói foi um terrorista, um dissidente. Dois dos grandes “vilões” de Anna Kariênina, Aleksei Aleksándrovitch Kariênin e a condessa Lidia Ivánovna, trabalham no Estado e são estritos seguidores da fé cristã ortodoxa. Aleksei, sob sua interpretação do Evangelho, preferiu não perdoar Anna, negando-lhe o divórcio e o filho. A condessa o influenciou, fazendo com que se sentisse bem com essa decisão. Outra passagem que manifesta o repúdio de Tolstói para com os falsos cristãos — quase no fim da obra, Liévin discute com seu irmão sobre a necessidade de ir à guerra. Este lhe diz que está no evangelho que Cristo não veio para trazer a paz, mas a espada.


Assim, justificam-se as guerras para os bons cristãos. Tolstói, pacifista declarado, era contra qualquer guerra, e colocou seu discurso de paz na boca de seu herói, Liévin. Tendo vilões como este, e sendo um influente crítico da Igreja ortodoxa russa, não é difícil entender por que Tolstói foi excomungado em 1901, nove anos antes de sua morte. Usei “vilões” entre aspas, pois não há vilões propriamente ditos em Tolstói. O maniqueísmo não tem lugar na realidade, assim como na prosa do autor. O narrador é onisciente e descreve algumas cenas sob a perspectiva de algum dos participantes em detrimento dos outros, o que enriquece muito todas as passagens. Dessa forma, temos momentos de brigas entre Anna e Vronsky — ora sob a perspectiva dela, de uma mulher que abandonou tudo por amor e temia que ele a deixasse a qualquer momento, ora pela perspectiva dele, que com o tempo passa a ver em Anna uma “pedra” que o impossibilitava de ter o mundo ao seu redor.

Anna e Liévin são as figuras principais e representam os núcleos de organização dos demais personagens. Entretanto, esses dois personagens se encontram pessoalmente somente na parte VII, aproximadamente 600 páginas depois do começo do livro. E não é arbitrário que este encontro tenha sido sob a perspectiva de Liévin, o herói do livro. Somente algumas páginas depois, saberemos quais foram os pensamentos de Anna naquele momento do encontro de sedução mútua.


Nem todo autor possui uma intenção ao escrever uma obra, ou uma mensagem a ser passada ao leitor. Porém, parece-me difícil que este seja o caso do nosso autor. Tolstói foi um líder tão influente entre os dissidentes políticos e religiosos que um movimento foi criado em seu entorno: o tolstoísmo. É pouco provável que Tolstoi tenha escrito o romance para que os aristocratas russos lessem em seu tempo livre. O escritor era consciente da desigualdade avassaladora de seu país, onde homens do Estado falavam francês e inglês entre si, para não serem entendidos por seus empregados, e passavam as férias em Paris ou Londres, enquanto a imensa maioria ganhava o pouco necessário para sua subsistência. Parece-me mais que coerente que Anna Kariênina, como outras obras do autor, tenha sido pensada para escancarar a decadência da alta sociedade russa, assim como a desigualdade entre ricos e pobres.

E, claro, a superficialidade da vida e moral humanas sob os adornos da aristocracia, em contraste com a simplicidade do campo, onde o camponês é muito mais feliz, mesmo pobre e sem os luxos dos bailes e jantares caros. É no campo, também, onde o verdadeiro cristão se revela; já que é inevitável certo sofrimento para conhecer os desígnios de Cristo, a verdade imanente; "o Bem que une todos os seres humanos e nos proíbe de matar-nos uns aos outros" — em palavras de Lièvin nas últimas páginas do livro.

No século XIX, em países como a Inglaterra, em que a crença nas instituições religiosas se via cada vez em maior impopularidade, com todo o ruído da máquina e o discurso de progresso do Iluminismo, a literatura passou a suprimir a religião ao ser fonte de exemplos a serem seguidos ou evitados. Ou seja, foi usada como ferramenta de educação. Anna Kariênina tem algo de romance de educação. Seus dois principais personagens, Anna e Liévin, são o exemplo a ser evitado e o exemplo a ser seguido, respectivamente. Tudo leva a indicar que Tolstói tinha como meta educar sua sociedade, mostrando o que estava “errado” e qual seria o caminho para o “bem”: a paz, o autocontrole, o amor, a fidelidade, a fé em Deus, a vida simples, a valorização do campo e dos camponeses.

Anna, depois de ter ido ajudar seu irmão (Stiva) a resolver sua relação com a esposa, conhece o conde Vronsky — um militar rico e bonito — em um baile destinado a que este se aproxime de outra moça da aristocracia (Kitty). No começo, Anna parecia resistir, mesmo que não tanto, ao charme do conde. Com o tempo, Anna cedeu aos amores de Vronsky e consumou a traição. Nunca havia gostado muito do marido, que era mais velho que ela, e mal podia pensar em sua imagem, que já lhe dava repulsa. Mesmo amando incondicionalmente seu filho, preferiu largá-lo pelo amor ao conde, que há pouco havia conhecido. Anna é corajosa, pensava Dolly (esposa de seu irmão, a quem ajudou a enganar) — ela teve coragem de abandonar sua vida infeliz com o marido para seguir seu coração e ser feliz. Bem, Dolly pensava isso até ir ter com ela, na sua casa de campo com Vronsky, já muito tempo depois do dia em que eles se conheceram no baile.

Dolly percebeu que Anna levava uma vida superficial, de prazeres toscos e “infantis”. Estava claro que, ao contrário do que ela queria que os outros pensassem, ela não era feliz de verdade. Bem, isso não significa que nunca o tenha sido, pelo contrário. Tolstói elabora uma personagem forte, que, no início, faria de tudo por Vronsky, até mesmo enfrentar o marido (Aleksei, homem frio e muito religioso) e a própria sociedade — hostil a mulheres que praticavam adultério. Se Anna ultrapassou tantas barreiras, foi porque amava o conde, algo que nunca sentiu por Aleksei, e somente o tinha sentido pelo filho, Serioja. Mas, como ela mesma diz: não poderia manter-se casada por seu filho Serioja, isso não aguentaria; já não poderia viver naquela casa, com aquele homem que detestava com todas as suas forças. Enquanto o conde Vronsky, que a amava, e ela o amava também, queria fugir com ela para qualquer parte, e ser feliz.

Sob a perspectiva de Anna, ela fazia a coisa certa. Sob a perspectiva do marido, a traição era, sem dúvidas, cruel e imperdoável. Sob a perspectiva de Vronsky, havia amor, mas ele tinha medo de que este amor tomasse tanto do seu tempo e energia, que nada mais sobrasse para o resto das coisas de sua vida, como a carreira militar, os cavalos e sua vida social. Seus temores se concretizaram, como num sonho que começa bom e, de repente, torna-se obscuro e culmina no pior dos pesadelos. O amor de Anna e Vronsky era muito forte, chegando a ser instintivo, mas os dois eram demasiadamente individualistas para haver a “comunhão de almas”. Anna, ao abandonar sua vida em sociedade, sua casa, amigos e filho por Vronsky, queria possuí-lo todo o tempo, sentia que ele tinha este dever para com ela, de ser dela — já que ela havia largado toda uma vida para ser dele.

Isso levou-a às crises de ciúmes, tornando-a a Medéia do século XIX. Vronsky, por sua vez, temia perder todas as atividades que lhe davam prazer, ademais a vida em sociedade que teve de deixar por conta de Anna. Assim, sugiu a possibilidade de separação do casal. Ademais, Anna não obteve o divorcio de seu marido, algo que fazia Vronsky pensar que nunca poderia ter um herdeiro. Desde o momento em que se uniram, Anna e Vronsky passavam o tempo destruindo-o em atividades superficiais e estéreis, e seu amor se consumia cada vez mais, sob as perspectivas distintas de indivíduos que não podiam se fundir em um só.


Totalmente contrário ao amor de Anna e Vronsky é o amor de Liévin e Kitty. Um casamento que, além de envolver o amor da parte dos dois, envolvia uma “fusão” cristã entre as almas, realizada em nome de Deus, por um ritual e em uma Igreja. Se algo nos ensinaram os Estruturalistas é que o mundo é formado por oposições. Em Anna Kariênina há oposições entre cidade e campo, camponês e aristocrata, trabalho braçal e burocrático, cristão ruim e bom, certo e errado. E também a oposição dos amores, em ordem crescente de virtude: Anna e Aleksei, Anna e Vronsky, Oblonsky e Dolly, Liévin e Kitty.

A concepção do cristianismo sobre o amor é uma continuação do que já vinha tomando forma na alta sociedade da Roma Imperial, como aponta Michel Foucault em História da Sexualidade. A partir deste momento, o Ocidente vê a necessidade da presença do amor entre os pares do casamento, ritual que passa a ser público e consolida-se como instituição. O amor e o entendimento entre os dois cônjuges torna-se muito mais importante do que a ligação entre as famílias, ou manutenção do status social. Além desta característica, a monogamia é consolidada como necessidade até mesmo da parte do homem — antes era dever da mulher, somente. Mesmo assim, sempre foi muito mais aceita a infidelidade por parte do marido, principalmente se a traição não envolvia qualquer ligação amorosa. O cristianismo medieval desenvolve essas duas características e acrescenta outras, como a pureza do corpo, o pecado do ato sexual e a fusão entre as almas com Cristo, entre outros estigmas.

Mas é importante identificar a semelhança do casamento entre Liévin e Kitty com o ideal cristão, sabendo que, embora Tolstói tenha sido excomungado, o foi justamente por crer defender o verdadeiro cristianismo, e denunciar a corrupção da Igreja aliciada aos interesses do Estado. Estes dois, para ele, só perpetuavam a desigualdade e afastavam a sociedade do que realmente importava: a simplicidade e a felicidade do trabalho e da vida do campo, uma vida dedicada ao cuidado espiritual de si, fazendo o bem ao próximo. Liévin e Kitty têm o casamento cristão ideal. Não obstante, não por isso era livre de brigas e tensões.

Anna, por outro lado, não teve nenhum amor que a salvasse de si mesma, de seu egoísmo e individualismo próprios da classe aristocrática que Tolstói tanto criticava. Desde o princípio, seu amor por Vronsky estava fadado a ser uma ilusão, um alimento aos instintos. Era da intenção do autor que o fosse. Para denunciar a sordidez da alta sociedade, era preciso fazer da personagem um símbolo da decadência aristocrática; sem, entretanto, transformá-la em vilã.

Anna não cometeu suicídio porque a sociedade a pressionava ou porque ela não aguentaria uma vida sem o conde Vronsky. Mas, como ela deixa bem claro no incrivelmente bem escrito monólogo interior antes da morte: ela queria vingar-se de Vronsky. Vingar-se por ele não ter cedido a própria vida a ela, enquanto ela havia se dado inteira para tê-lo para si. É impossível pedir que qualquer um se entregue inteiramente a outra pessoa. Anna queria o impossível, ainda mais de um homem da alta sociedade russa, com tantos mimos e vícios da classe. A personagem é egoísta e quer a sua felicidade a todo custo, e essa felicidade ela não busca em si, senão no mundo, nos outros. Tolstói quer deixar claro que assim não se encontra a felicidade. Para ser feliz, deve-se fazer como os mujiques nas várias passagens que o autor agregou como contraposição da vida galante das capitais. Liévin é o vínculo entre os mujiques, camponeses simples, que são felizes ajudando-se mutuamente, com o que realmente importa, além de terem a verdadeira fé em cristo e no bem. Já o mundo corrompido da aristocracia é representado por Anna Kariênina, mulher capaz de abandonar o marido, deixar o filho para trás e suicidar-se para vingar-se do amante. Por mais que a prosa de Tolstói não permita vilões ou mocinhos, é notável que Anna é uma anti-heroína, opondo-se a Liévin em muitos aspectos centrais da trama.


É interessante e surpreendente comparar Anna com Medéia, título da tragédia de Eurípides. Na mitologia grega, Medéia era uma feiticeira que abandonou seu lar e traiu seu pai por amor a Jasão. Depois, já estabelecidos em outra cidade, eles tiveram filhos. Porém, ao saber que ele a traía, ao menos na tragédia de Eurípedes, Medéia mata os seus próprios filhos em vingança e foge. Anna não mata sua filha com Vronsky, muito provavelmente, pois nenhum dos dois mostrava amor por ela, não valeria a pena. O diálogo de Medéia com sua nodriza, ao decidir-se sobre o plano, tem um impacto tão profundo quanto o fluxo de consciência de Anna antes do suicídio. São ambos momentos de muito protagonismo da figura feminina na literatura, e demonstram o gênio de seus autores, ambos homens.

Anna não se matou pela pressão da sociedade — o autor a matou pois Anna é um símbolo, ele tinha um propósito: concluir com chave de ouro a sordidez de uma classe que gera seres como Anna. Somente numa sociedade como a nossa, depois de mais de cem anos da estreia do livro, foi possível fazer uma adaptação da trama com Anna no foco central, e Liévin como mero coadjuvante. Assim, no filme de 2012 (dirigido por Joe Wright), Anna pode ser interpretada de uma maneira distinta, talvez até como heroína, sofredora de injustiças e em busca do amor verdadeiro.

Provavelmente, Tolstói foi flechado por Eros antes de escrever o romance, tantos são os amores e de tão variadas formas. E o filtro cristão age mais uma vez: não há relações homoafetivas em nenhuma das mais de 800 páginas da obra. Numa tentativa de hermenêutica misturada com análise motivada pela biografia do autor e seu contexto, tento extrair uma máxima que, creio eu, foi a intenção do autor: “Não seja como Anna, seja como Liévin”. Então, por que o nome do livro não é "Liévin"? Há quem diga que Liévin representaria o próprio Tolstói: a morte do irmão, o amor à vida no campo, o espanto e o horror à morte — que fez da vida de Liévin uma busca pelo porquê da vida, que toma especial importância nas páginas finais da obra. São muitas as características que poderiam fazer de Liévin um reflexo do autor na sua obra.

De fato, o livro conclui com o fim da busca de Liévin pelo sentido último das coisas, a razão de viver. E ele não o encontrou pesquisando nos livros de filosofia, como o havia tentado até então, ou com as explicações da ciência; mas, sim, pela conversa com um mujique. A conversa lhe causou uma epifania e o personagem pôde, assim, contemplar algo que sempre esteve ali, mas ele nunca percebeu pois estava “cego” pela razão. Não há como entender Deus pelo raciocínio lógico, diz Tolstói. E esta não é uma particularidade do autor, mas sim da religião ortodoxa russa, que teve um caminho contrário ao da irmã romana. Liévin vê na existência do bem a evidência da existência de Deus. Em uma passagem ilógica que conclui a obra, o herói passa a ter fé no Senhor, ato que o eleva à posição mais nobre de todo o romance. “Epifania” tem um nome religioso: “revelação”. Liévin teve uma revelação, por meio de um mujique.

A trama do livro pode ser resumida como o processo de revelação de Liévin, em oposição à figura de Anna, egoísta, que decide se matar. Liévin pensa em se matar, mas desiste, porque veio-lhe à cabeça o sofrimento das pessoas que dele dependiam. Assim, o herói conclui o livro com muita paz dentro de si, enquanto Anna, vendo somente o mundo sob a perspectiva da sua felicidade (ou falta dela, como todo bom aristocrata), não podia ver nada no mundo que não fosse sórdido e instintivo, infeliz e falso. Total ausência de propósito, do bem e da verdade. E consumiu-se até o mais impuro ato que um cristão pode cometer: o suicídio.

Anna é não é somente um símbolo de uma classe, mas também de um modo de vida. Contudo, esse modo de vida é produto recorrente de uma classe. Aí está o problema da classe, por isso está falida, destinada a produzir suicidas, destinada a produzir Annas. O suicídio causa mais impressão que comoção. Ao morrer, em 1910, Tolstói não pôde presenciar as atrocidades do século XX. Não viu a revolução socialista ou as bombas nucleares, o existencialismo e o desconstrutivismo não deram lugar à concepção do Bem imutável e inerente a todos os seres humanos. O século XX teria impossibilitado o final de Liévin.

Tiremos a parte VIII de Anna Kariênina e teremos uma obra ainda melhor. Se deixarmos de ler todas as sequências que envolvem Liévin, teremos uma experiência de leitura ainda mais prazerosa, tendo em vista nossa perspectiva ocidental atual. Após a leitura de “Anna Kariênina", é recomendável a leitura de qualquer obra de Nietzsche.

Referências


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Texto: Rafael A. Jorge 
Imagem de destaque: Sofia Lungui

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